quinta-feira, 15 de maio de 2008

Testemunho V - II Peregrinação a Pé a Fátima

Percorrer os caminhos até Fátima para mim não era novidade pois anteriormente já tinha percorrido o mesmo caminho ao encontro de Maria.
Nestes últimos dois anos em que o Movimento Carmo jovem organizou a Peregrinação a Fátima ofereci-me sempre como voluntária para a equipa de apoio. Eu já conhecia as dificuldades que se sentem ao percorrer tantos quilómetros a pé e quis dar todo o meu apoio a todos os peregrinos.
Este ano fi-lo “In Obsequio Iesu Christi” … fi-lo para acompanhar o meu marido que fez todo o caminho a pé … fi-lo para dar forças aos elementos que percorreram o caminho a pé não desanimassem e que o caminho torna-se mais agradável … fi-lo para também dar apoio à Verónica e ao meu Pai, António Branco, que conduziam as outras duas viaturas de apoio.
Percorrer o caminho numa viatura, sozinhos agarrados ao volante também não é fácil, pois não sofremos das dores mas, por vezes, o desânimo também nos toca. Mas dada à experiência tida anteriormente pensei que o meu maior contributo nesta Peregrinação seria dar apoio a quem caminha, sabendo que entretanto também ia peregrinando a par com eles.
E assim se fez a Sua Vontade.
Naturalmente, o caminho foi longo e doloroso, principalmente para quem não está habituado a percorrer tantos quilómetros a pé e não tem noção das distâncias, nem das dificuldades que se encontram, mas também o é para quem já conhecia o caminho e o repetia, sendo também para quem tem de levar uma viatura … No entanto lá ia dando ânimo a quem percorria os caminhos “In Obsequio Iesu Christi”.
E a cada quilómetro percorrido, quer a pé quer de carro, as dificuldades eram vencidas e Jesus Cristo estava mais próximo de nós! E há medida que todos iam atingindo a “meta” diária ficava contente por ter ajudado o meu amigo a ultrapassar uma dificuldade e esse amigo ter-me também ajudado…
A vida é também feita de dificuldades. Ninguém nos disse que o caminho é leve. A cada novo dia as forças redobravam. Estávamos em família, e com Jesus ao nosso lado percorríamos os largos quilómetros de cânticos e de palavras…

SUSANA BRANCO, 32 anos, Gafanha da Nazaré

Testemunho IV - II Peregrinação a Pé a Fátima

Olá, jovens peregrinos.
Fiz a Peregrinação a Fátima como todos vós com muita alegria.
Agradeço a Maria, esta oportunidade de continuar a caminhar com Ela e por Ela até Jesus.
Foi muito bom, apesar das dores, do cansaço, é reconfortante chegar ao fim do dia todos juntos e felizes, porque conseguimos vencer mais uma etapa do nosso caminho.
Este foi particularmente muito especial, fazer a experiência dos discípulos de Emaús ficará para sempre gravada no meu coração e espero que no vosso também… tantas vezes ELE caminha a nosso lado e os nossos olhos e ouvidos continuam fechados (é tanto o ruído na nossa vida).
Precisamos Senhor, que a tua Palavra aqueça o nosso coração e ilumine a nossa inteligência, que o teu Pão alimente a nossa fome e nos dê forças para amar…
Quero pedir-te Senhor que caminhes sempre connosco, principalmente quando a tristeza e o desânimo entram no nosso caminhar. E que eu saiba reconhecer-Te sempre naqueles que caminham a meu lado e precisam da minha ajuda ao longo do caminho.
Tu sabes como sou «pequenina», mas aceita Senhor o pouco que sou, para que possa ser um bocadinho do Teu tudo para os meus irmãos…
A todos agradeço a alegria e a amizade com que vivemos mais esta caminhada.

Obrigado pelo vosso carinho e pelos vossos miminhos.

DELFINA RIBEIRO, 38 anos, Caíde de Rei

terça-feira, 13 de maio de 2008

Belíssima oportunidade para nos (re)encontrarmos

Uma belíssima oportunidade para nos (re)encontrarmos não só com Ele, mas com os outros.
No passado sábado, dia 10 de Maio a comunidade de padres e leigos do Carmo de Aveiro homenagearam o Frei João Costa pelos 2 triénios de serviço à comunidade. Um grupo significativo de peregrinos a pé a Fátima do Carmo Jovem, reuniu-se em Aveiro para juntos continuarmos a ser testemunhas do Amor de Deus.
Tornámo-nos mais irmãos e mais cristãos «In obsequio Iesu Christi» dando corpo à expressão que caracterizou os primeiros cristãos «Olhai como eles se amam».
Deste amor queremos continuar a falar, neste amor, construiremos pontes e cresceremos nos carminhos que o Mestre nos manda seguir.
Dos rios que correm para o mar, nos falou Frei João Costa na homilia desta tarde. Também nós jovens em Movimento queremos continuar a por os olhos n´Ele e em todos os que, com Ele, são capazes de navegar no mar encapelado da vida, segurando as redes com ardor, convictos que neste mar encontraremos a mão segura do Mestre.
Que Nossa Senhora do Carmo, Nossa Mãe e Senhora do Sim, o acolha sob o seu manto, o ilumine e o proteja para que continue a ser presença deste Deus que é Pai.
Em Viana do Castelo, na Igreja Nossa Senhora do Carmo, com Teresa de Jesus e S. João da Cruz permaneça testemunha do amor de Deus, anunciador da Boa nova e a viver «In obsequio Iesu Christi».
Conte connosco, continuaremos a contar consigo!

“Porque Te Amo, oh Maria”


«Oh! Quisera cantar, Maria, por que te amo
Porque é que o teu nome tão doce me faz vibrar o coração
E porque o pensamento da tua grandeza suprema
Não poderia inspirar à minha alma o sentimento do temor.
Se eu te contemplasse na tua sublime glória
E mais brilhante do que todos os bem-aventurados,
Não poderia acreditar que sou tua filha
Ó Maria, diante de ti, eu baixava os olhos!...

Já que o Rei dos Céus quis que a sua Mãe
Mergulhasse na noite, na angustia do coração,
Maria, é então um bem sofrer na terra?
Sim, sofrer amando, é a felicidade mais pura!...
Tudo o que Ele me deu Jesus pode tomá-lo
Diz-lhe que nunca se constranja comigo…
Ele pode esconder-se, eu consinto em esperá-l´O
Até ao dia sem acaso em que se extinguirá a minha fé…

Amas-nos, Maria, como Jesus nos ama
E consentes por nós em afastar-te d´Ele.
Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo
Quisestes demonstrá-lo ficando connosco.
O Salvador conhecia a tua ternura imensa
Sabia os segredos do teu coração maternal
Refugio dos pecadores, é a ti que Ele nos deixa
Quando abandona a Cruz para nos esperar no Céu”.»
[Santa Teresa do Menino Jesus (Estrofes 1, 16, 22)]



Maria, hoje aproximamo-nos de Ti para que com o teu exemplo e com a Tua força possamos servir melhor a Deus com aquilo que somos e com o que temos. Em Ti veremos brilhar eternamente a maturidade humana e a elegância espiritual. Oh! Mãe admirável do silêncio, envolve-nos no Teu manto, fortalece-nos com a Tua fé e fecunda-nos com o Teu Amor. Dá-nos a Tua mão de Mãe para que acertemos sempre no carminho! Dá-nos a Tua bênção para que como Jovens Carmelitas no meio do mundo sejamos sinal da Tua Graça!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Carminhada - Braga - 24 de Maio

O ESPÍRITO SANTO INUNDA
O CARMO (JOVEM)!

Inunda o meu ser,
Inunda o meu ser.
Espírito, inunda o meu ser.
Em ondas de amor, ó vem sobre mim
Espirito, inunda o meu ser


Aspectos a ter em atenção:

- As Carminhadas são abertas a todos os jovens;
- Acolhimento às 9h00, na Igreja do Carmo (Braga);
- A Carminhada tem 11 km, e termina após a Eucaristia;
- Eucaristia às 17h00 no Seminário/Igreja do Carmo;
- O almoço será partilhado, devendo cada participante trazer de casa.
- Procura levar calçado confortável e já usado; roupa conveniente (um impermeável…);
- Haverá um carro-vassoura para transporte de mochilas e dos mais cansados, mas a maior honra dos condutores é chegar sem passageiros;
- Carminha ligeiro de equipagem: Nem tudo é necessário para carminhar!
- Quem já participou noutras Carminhadas tem a faixa “JOVENS LEIGOS CARMELITAS”. Devem levá-la.


CONFIRMAÇÃO
Agradecemos que envies a confirmação da tua participação na Carminhada deverá ser enviada até ao dia 17 de Maio para:
Grupo Apocalipse grupo_apocalipse@sapo.pt
Marta Pinto 917 010 781

CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA (V)

Dia 4 - 4 de Maio
Reconheceram-n’O ao partir do Pão!

Este ano ninguém me engana, pensei. E se bem pensei, melhor o fiz. Deitei o meu saco cama longe da sala dos motores, motorizadas e trotinetes dos meus companheiros. Fui dormir para um recanto do corredor. O que eu não contava era com a Ronca da Barra. Como se sabe a Ronca da Barra está lá para avisar os navios que devem fugir dos baixios e dos escolhos da beira-mar. Eu devia saber, mas tirei a prova bem tirada quando mesmo longe eu continuava sem querer navegar, mas a ter de aturar a Ronca que roncou para a esquerda quando virada para a esquerda e roncou para a direita quando virada para a direita. Ó que noite feliz teve a Ronca da Barra!
Também isto é peregrinação.
Por fim o dia raiou. (Ou quase raiou, porque nos voltaram a acordar às 05h00!) A maioria dormiu bem, porque Deus tinha-nos dado um chão tão fofo (ou um sono assaz pesado) para descansarmos, que todos nos levantamos frescos como alfaces.
O programa mandava celebrar Missa às 05h30. E só isso me levantou, que de contrário não me levantaria nem que me chamassem doze vezes (Andaria ainda por ali a Ronca?) Tinham-nos dito que a Missa seria de peregrino e não de beduíno. Ninguém descortinou o que isso fosse ou quisesse dizer, mas também o certo é que aquelas não são horas para muito pensar, mas para muito amar. Por essa razão, estando ainda muitos corpos a reclamar pela cama já os pés caminhavam. Nada havia a fazer. Ou melhor haver havia, caminhar. E Ele vai connosco! Pronto a dar-se a conhecer.
Pela frente estão outras seis horas de caminho, outros 30 quilómetros a fazer. Ou talvez mais porque subir a encosta de Santa Catarina da Serra não é pêra doce, é pereira amarga.
Lá fomos ligeiros, serenos e audazes que é ao que aquele vale prévio imenso convida.
Vencida a serra chegamos a Fátima. Ninguém desistiu, porque quando falharam as forças não falhou o coração. Se não foi o próprio foi o dos companheiros: há sempre um coração grande para nos animar, rezar, acompanhar, empurrar, puxar, eu sei lá, há sempre um coração que nos leva a Fátima… A espera na Rotunda Norte foi assaz breve, pouco mais duma quinzena de minutos. Quase nada custou juntar os quase trinta peregrinos a pedantes. Dali para o Santuário foi um salto. Ali entramos de forma organizada que dava gosto ver. Depois cada um ficou sereno e calmo, sem pressas nem pressões, diante do olhar de Deus e junto do coração da Mãe. Chegada a hora deixámos a Nossa Senhora a pedra de cada um (aquilo foi é que foi um monte grande de pedras pequenas. Não dá para uma construção, mas dá para ajudar!) e, mais leves, cumprimos a última etapa: alcançámos a Domus Carmeli, jovial e garbosa, que nos acolheu de braços abertos. Cumprido o preceito de aconchegar o estômago, passamos ainda pela Capela. Ali, no chão, brilhavam as flores que as carmelitas do Carmelo de São José nos ofereceram para oferecermos às nossas mães. A oração ali rezada rezava a nossa acção de graças pela meta alcançada, e pelo caminho caminhado na presença santa e bondosa do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Presidiu amavelmente à oração o Padre Provincial, Frei Pedro Ferreira, que nos disse palavras boas e outras esperançadoras como estas: «Se ninguém mais vo-lo disser, digo-vo-lo eu: a vossa peregrinação, as vossas dores e os vossos sofrimentos foram aceites no Céu! Estai certos disso! Estai certos de que ninguém, nem vós!, podereis retirar de lá o que lá acabais de lançar!» Ou porque o tempo urgisse ou porque muito tivéssemos rezado, não custou nada entrar nos carros (coisa rara!). Talvez fosse por ser dia da mãe. Talvez fosse por ainda faltar uma larga jornada até ao colo materno. Talvez fosse, não sei. Sei que depois de entrar no carro adormeci. Tinham-me perguntado se estava feliz, mas adormeci. Julgo que não respondi. Pelo menos com a boca. Mas se um homem adormece como um menino, que outra resposta se pode esperar à pergunta se está feliz?
Quando despertei estava em Aveiro. Parámos diante do olhar de São João da Cruz. Ali ficámos uns, e outros seguiram. Não houve choros nem lágrimas. Algumas saudades, apenas. Dia 24 já nos veremos novamente. Como se tivéssemos andado a roubar, rapidamente nos separámos e cada um foi à sua vida. Eu sei que não foi assim, mas diz-se assim para dizer todo o cofre cheio de desejos de chegar ainda hoje a casa com tempo e com luz para receber beijos, muitos beijos das mães e dar-lhes os beijos que elas merecem e que a Mãe do Céu mandou dar-lhe.
(E como são diferentes os beijos depois duma peregrinação!)
E acaba aqui a crónica. Mas não acaba aqui a peregrinação, porque como dizia o último SMS «O regresso a casa é a etapa mais difícil da Peregrinação». Se é, seja. O ano que vem o dirá. Que até lá Deus nos abençoe.
Que até lá, sobre todos os jovens carmelitas, que em peregrinação a pé a Fátima celebraram os 800 anos da Regra do Carmo:
Se abra a estrada à sua frente.Sopre levemente o vento nas suas costas.Brilhe cálido e suave o sol sobre a sua cara.Caia de mansinho a chuva nos seus campos. E até que de novo nos encontremos, Deus os guarde na palma de suas mãos...

CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA (IV)

Dia 3 - 3 de Maio
In obsequio Iesu Christi
O segundo dia de carminhada foi longo. O de hoje parece ser mais. O dia de hoje vai ser mais. Mais longo. Mais caminho. Mais quilómetros. Mais cânticos. Mais natureza. Mais sol. Mais peregrinos. Mais amizade. Mais searas. Mais passarinhos. Mais, simplesmente mais. Hoje é o dia mais.
O segundo dia foi longo. Tão longo que a sua longinquidade tornará curta a noite. Ao despertar não haverá tun-tuns, mas sininhos e música de anjos. No carmelo das maravilhas da Alice é assim! Sininhos, miminhos, música e demais (sim demais e demasiadas) carícias que fazem as delícias dos peregrinos e os deixam com ânsias de voltar ao lar. No Centro o despertar foi mais prosaico: a Verónica estava à porta para nos levar, e nós estávamos em Vale de Sacos de Cama. Mas rapidamente nos recompomos como se nada nos doesse, nem o caminho por andar nem o caminho já andado. E num santiámen já nos vemos estrada acima, estrada abaixo. À procura da outra parte dos peregrinos. Passámos pelo Carmelo onde tudo está pronto, formámos a caravana e eis-nos, enquanto tudo dorme, a caminho da Gala. Paramos na Gala para rezar e iniciar a nossa jornada In Obsequio Iesu Christi. E aquilo é que foi rezar! Escolhemos o mesmo local do ano passado. E passou-se um caso: passou-se que ou já não nos lembrávamos ou se deu um agravamento das condições. À medida que íamos rezando um enxame de melgas pairou sobre nós e foi mordiscando caras e braços, pés e pernas fazendo um inferno tal que só no Inferno pode haver. Nós aguentamos firmes, não sem distribuir alguns estalos caridosos nos companheiros e companheiras procurando eliminar as terríveis feras. Mas sem sucesso. Foram mais os estalos em vão (Perdoai-nos, Senhor! Misericórdia, Senhor! Miserere nobis, Domine! Kyrie eleison!) que bestas abatidas. Mas aguentámos firmes e rezámos. Quando foi possível fugimos, antes que fôssemos sugados para o ventre de tão mesquinhos bichos!
Fomos tomar um café para espairecer do terrível ataque e despertar os neurónios. E já os mais lentos tinham avançado alguns passos quando, à vista das feras, nos reunimos de novo para as Pistas, que, hoje, são muito simples: seguindo uma tradição antiga e popular, hoje, dia 3 de Maio, antigo dia da Santa Cruz, diremos mil vezes o nome de Jesus! E lá partimos em silêncio, de terço na mão e o Santo Nome de Jesus nos lábios.
1,2,3,4,5,6…
A manhã ainda é bebé quando nos afoitamos ao caminho suave. É sábado e todo o mundo dorme, estradas e caminhos inclusive. O caminho é manso e suave, os carros e os camiões dão-nos tréguas. O sol vai despontando timidamente. O perfume dos pinheiros invade os pulmões e refrescam-nos. A natureza canta e grita de alegria à nossa passagem. Há pinheiros e campos, roseirais e casas semi-adormecidas, cebolais e trigais que nos saúdam e animam. Damos um passo e mais um passo, e lá vamos dizendo, Jesus, Jesus, Jesus, Jesus.
222,223,224,225,226,227…. O caminho começa a subir e os bofes a sair. Alguém que se cruza comigo dá-me os bons dias e em troca escuta: - Jesus, Jesus! Foi sem querer, mas foi a resposta mais bonita que se poderia dar. É que dizer Jesus é dizer Salvador, salvação, alegria, fé e festa! A senhora há-de ter compreendido certamente! E talvez até agradecido.
500,501,502,503,504,505,506,507,508…
O caminho está este ano mais complicado. Ao lado da EN 109 nasceu a A17. Sempre que a A17 desagua na EN109 nasceram rotundas imensas.
667,668,669…
E o aparecimento de rotundas significa o aumento de complicações para quem caminha a pé. Porém, apesar de mais este contratempo lá avançamos generosos e com ânsias de que a coisa termine. Não é que seja coisa ruim ou má, mas antes o desejo de alcançar o proposto, vencer os obstáculos, encurtar as distâncias, saciarmo-nos da paz do Santuário, subir para Deus, entrar para o seu coração, adormecer no seu peito, confidenciar-lhe o que não pode ser dito no recôndito dos quartos nem nas veredas dos caminhos.
888,889,890,891,892,893,894…
E lá continuámos. Uns ligeiros, os veteranos. Outros mais cansados, os principiantes. Mas em todos há vontade e garra de avançar. E vamos avançando durante grande parte da manhã em silêncio.
921,922,923,924,925…
Avançamos, avançamos, avançamos sem medo. Sem medo avançamos, porque Jesus vai connosco.
999,1000. Mil vezes! Mil vezes! Mil vezes Jesus!

Mil vezes, Jesus!
Sempre Jesus!
Mil vezes mil, Jesus!
Sempre Jesus!
Sempre Jesus nos lábios!
Sempre Jesus no coração!
Sempre Jesus nas lágrimas!
Sempre Jesus nas preces!
Sempre Jesus nas saudades!
Sempre Jesus nas palavras!
Sempre Jesus nos pensamentos!
Sempre, Jesus sempre!
Sempre Jesus nos sentimentos!
Sempre Jesus nos passos!
Sempre, sempre Jesus!
Sempre, sempre o seu Santo Nome!
Sempre connosco!
Sempre em toda a parte!
Sempre por dentro como um afago!
Sempre por fora como um agasalho!
Sempre Jesus como uma armadura!
Sempre Jesus! Mil vezes Jesus!
Mil vezes sempre mil vezes vezes mil, Jesus sempre!

Quando chega a hora do reforço esticámo-nos no chão. Esticámo-nos, não! Há quem prefira continuar e evitar a tortura do levantar e do pôr em andamento a carcaça, essa velha máquina a vapor tão lenta, mas tão fiel e sólida. A carcaça, a máquina a vapor, o corpo ou o irmão burro (como lhe chamava S. Francisco) é tudo o mesmo!
Durante a manhã caminhamos seis horas. Há quem diga que a média são 5 quilómetros por hora. Mas talvez seja mais. Hoje é o dia mais. O céu pejado de nuvens ameaça chuva. Chegamos por fim à Ilha e a um cafezito simpático que no ano passado nos livrara do frio. Abancámos aí. O café está mais acolhedor, mercê dum corta-vento cuja ausência no ano passado tanto lamentámos. Comemos os pães que a prioresa do carmelo de Alhadas nos deu. E comemos também uns frangos de churrasco. E até comíamos mais. Mas nem as sandes eram mais, nem a inexperiência nos fez comprar mais churrasco. Mas ficámos bem, graças a Deus.
Depois da refeição esticámos as pernas e demais ossos do esqueleto. Há quem durma a sesta e quem alongue as pernas pelas paredes acima. Cada um arranja a estratégia que lhe traga mais conforto.
Custou deveras voltar ao caminho. Mas uma vez ali nada nos deteve. Nem as flores nem as feras.
O percurso da tarde é tão belo quanto o da manhã, mas com mais peregrinos. Vão muitos peregrinos connosco. Uns rezam, outros cantam, outros riem. E todos sofremos. Alguns, que ultrapassámos, já os conhecemos de jornadas anteriores. São breves reencontros, porque logo os passamos e seguimos em frente. Depois do terço vêm os cânticos e depois dos cânticos as histórias e depois destas as confidências. E no fim de tudo o amor. E sempre o amor. Ámen, Jesus. Que aquilo que aqui fazemos não é mais que obsequio Iesu Christi, serviço e seguimento do Mestre.
Foi talvez a jornada em que durante mais tempo caminhámos em grupo. Os pés já não temem a estrada nem o corpo as dores. Por isso vamos. Há concerteza gente em dificuldades, mas como estamos cada vez mais perto ninguém desanima ou se poupa.
Há quem caminhe só, em silêncio, buscando, ao que dizem, respostas a perguntas que só o tempo e a solidão trazem à alma. Há quem caminhe lado a lado, como os de Emaús, mas sempre mantendo o preceito de ouvir o que Ele diz, e «dizer o que Ele diz, mas só o que Ele diz que é para dizer».
Chegamos por fim ao Barracão, fim da nossa terceira jornada. O Barracão foi mais uma vez para nós um zénit e um bom augúrio: quem chega ali chega ao fim.
Rapidamente as carrinhas nos devolvem à Ilha, ao Centro Social e Paroquial. Mais uma vez somos ali bem recebidos pelo pessoal da Casa que nos recebe em nome do Reverendo Pe Nogueira. Ali houve tempo para tudo, até para um dos nossos actores amadores vender sardinha numa canasta sem sardinha. O azar dele foi que o povo tem dinheiro e fome de sardinha, mas como ele não tinha sardinha teve de ter lata para sair airosamente da situação.
Depois de refrescados rezámos Vésperas calmamente e calmamente meditámos mais um trecho da nossa Regra. Após a oração comemos uma sopa opípera, que até aqueles que não gostam de sopa comeram. É certo que não havia mais nada, mas nem era preciso. Sopa gostosa como aquela já não comíamos há um ano, quando ali ficáramos alojados.
Seguiu-se nova sessão de bolhas, a segunda do dia. E ainda haveria uma terceira que só terminaria depois da uma da manhã. Pelo bem-estar dos peregrinos nada se poupa, nem o sono.
A noite só terminou com um longa celebração de partilha e perdão, como manda a Regra, que recomenda que quando necessário se partilhe a vida comunitária e se corrijam as faltas com caridade. Foi um momento cálido, belo e fraterno que uniu muitíssimo o grupo. Como ali se falaram e se choraram as coisas passadas e sofridas no grupo o narrador lança aqui um véu para que apenas se entreveja sem ver o que ali se passou e celebrou. Seguiu-se depois, como já se disse, a terceira sessão de fura bolhas. À nossa espera estava de novo o chão duro, mas quem pode achar duro o chão se nem tempo tem para pensar, porque se se põe a pensar longo chega a hora de despertar?
Vamos dormir, pois. Fomos, pois, dormir. In Obsequio Iesu Christi. Ámen.

Testemunho III - II Peregrinação a Pé a Fátima

AS PEGADAS QUE ENCONTREI
Há muito que me procuro e não sei por onde ando. Há bem pouco tempo, umas pegadas apareceram no meu caminho e despertaram um pouco a minha atenção. Não sei de onde vêm nem que rumos vão tomar mas decidi tentar segui-las ou pelo menos prestar-lhe mais atenção.
O desafio foi feito, era só mais um. A decisão … a decisão difícil de tomar, pois o caminho não era novidade, era conhecido, muito longo e doloroso, - Pensava eu! Já tinha realizado esta caminhada outras vezes, mas esta foi diferente eu senti-a especial. Era o grupo? A sua dinâmica ou companheirismo? Não sei!... Era uma presença, um conforto, um colo,…uma mão a segurar na minha e a levar-me ao encontro da Mãe.
Cada passo percorrido foi uma descoberta, cada palavra recitada um reencontro, cada um do grupo uma bênção e na chegada uma grande realização de amor e um encontro comigo mesma.
Obrigado a todos, por estes dois dias magníficos!
Recordáreis-vos sempre!

TERESA ROMEIRO, 35 anos, Alhadas

quarta-feira, 7 de maio de 2008

CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA (III)

Dia 2 - 2 de Maio
Permanecei em mim e eu permanecerei em vós.

São cinco horas da madrugada. É negro lá fora. Não é negro cá dentro. Ouvem-se tun-tuns suaves correndo todas as portas das celas. (Agora já se pode falar de celas, porque os peregrinos já sabem que as celas não são celas.) Os corpos resistem a erguer-se, mas acabam de pé. O meu erguer do esqueleto é um não sei como é: inventei para mim um trejeito de saltimbanco que faria rir o pinheiro mais sisudo. Porém, a coisa resulta: dá para sair da cama, tirar o pijama, lavar a cara, vestir-me e ir até ao refeitório, pondo um pé à frente do outro. É tudo feito quase num só gesto enrolado, feito mais de adivinhas que de saberes. Tudo se queixa no meu corpo. Mas não haverá queixa que impeça o andar com Maria para Jesus. Foi isso que nos propusemos.
Estou a re-aprender a andar. As bolhas supõem uma alteração na equação do equilíbrio e do andar, mas o mais importante é que no fim caminhamos e o caminho lá vai sendo feito. O pequeno-almoço é frugal mas mais que suficiente para o caminho. Dali vamos rezar os Bons Dias ao Senhor e depois caminhar, primeiro em carrinhas que nos devolvem à EN 109 e finalmente a pé. É noite. É chumbo. É frio. Os camiões também peregrinam, furiosos, e ao contrário. Trazem vento e nevoeiro que atiram para cima de nós. É tão frio que a única solução é andar em fila indiana. Aqueles gigantes de ferro e pneus atiram-nos tamanhas golfadas de vento frio para cima de nós, que não há outra forma de caminhar senão, como diz a Regra, com uma armadura de pensamentos santos no peito.
Entretanto, já bailam dentro de nós as Pistas. Somos convidados a permanecer ao longo do dia. A fazer um acto de presença do Senhor. A estar atentos ao que possa ser sinal da Sua presença: um sorriso, uma mão amiga, uma palavra de incentivo, uma ajuda, um conselho, uma flor que se partilha, um versículo da Bíblia, um raio de sol, uma gota de chuva (houve pelo menos uma!), o passeio que se alarga, o canto ou voo dos passarinhos, os ribeiros, os campos, as pessoas, a manhã fresca ou a tarde quente, um pensamento santo, um voto… Existem tantas coisas que nos falam de Deus! Há tanta maneira de Lhe dizer Eu sei que estás comigo e Tu sabes que quero estar contigo!
Foi óptimo caminhar com a cela do coração desperta para a Presença maior que acordou o dia para nós e animou os nossos passos a caminhar!
Amanhã alonga-se e o caminho também. Aloooooooooonga-se muito, muito, muito mesmo. Mas a verdade é que as rectas da Tocha as comemos como quem come carapauzinhos de escabeche, que, como se sabe, depois de comidos não ficam nem espinhas! Num caminho assim tão longo que parece que atrai a solidão são importantes os carros de apoio, que são três. O sr. Branco repete a função e vai sempre a chamar-nos fraquinhos, «sois uns fraquinhos, vamos lá andar!». Também distribui água e bolachas. A Susana repete também a função. Quando está fora do carro, anda sempre aos saltinhos ou a recolher casacos e camisolas ou a dar água e a mimar. (Também nos ofereceu umas pedras grandes para caminhar, mas acabou a fugir de ter de as carregar ela!) Não me admira que dê saltinhos, o António Pedro, o marido, também caminha a pé. E claro, ela anda mais nervosa, porque a melhor parte dela (Deus me perdoe!) anda a ajudar o Pedro a caminhar! Por fim, também a Verónica nos ajuda. Vai ao volante duma grande carrinha. Não faz o trabalho que mais gosta, mas faz com gosto e com sentido de caridade o trabalho que faz. Não é esta a maneira que mais gosta de peregrinar (prefere caminhar) mas foi ali que Deus pediu que fosse e ela vai! (Embora tenha andado muito pensativa) Faz de tudo um pouco: fala, anima, encoraja, lê, põe música, recolhe informações, sugere alterações, cuida dos mais pequenos, cuida dos grandes, organiza os carros de apoio. E no fim, com gosto e a fazer caretas que assustam as bolhas, faz de fura-bolhas. Ainda hoje nos meus sonhos a vejo vestida de D. Quixote Fura Bolhas com a lança em riste! É a melhor fura-bolhas que conheço: vê uma e zás!, vê outra e zás, zás-pás-trás!, atravessa-as com a agulha dum ao outro lado. Quando nós guinchamos já ela furou a quarta e a quinta. A furar bolhas bate mais recordes que D. Quixote a combater moinhos! (E este é um trabalho que ninguém gosta de fazer. A coisa é de tal modo que quando vimos uma bolha botámos logo a fugir! Somos uns mariquinhas porque sabemos que elas nos podem perseguir! E porque o podem nem armados de agulha e linha as conseguimos encarar! Mas a Verónica, não! Zás, zás, zás, zás e zás! Quando damos conta já ela atou com a mesma linha 15 pés de 12 pessoas diferentes, depois de ter furado 144 bolhas!)
Chegamos por fim a Ervedal com uma hora de avanço. O Restaurante está no mesmo sítio e promete a mesma carne grelhada de há um ano! Comeremos com a mesma sadia vontade que temos quando comemos caminhos.
As Alhadas estão ali a dez ou doze quilómetros, mas ninguém quer lá chegar desfalecido. Por isso, abençoamos a refeição e comemos. E repousamos.
Estávamos postos em ledo post-prandium quando o sorriso da Alice Montargil nos surpreende e assalta. Vem passar revista às tropas, ela que é quem mais tempo leva de jovem carmelita! Vem também para partilhar connosco um café e o que falta do caminho. Já conhece muitos dos peregrinos e muitos outros não. Mas ficará a conhecer. Entretanto, o sol descobriu-se e está muito calor. O que vale é que haverá muitos pinheiros pelas veredas e a sombra promete ser caridosa connosco. Além disso vamos rezar o Terço, que será sempre a parte melhor do caminho. Mais uma vez será.
Na placa de S. Amaro da Amoreira não resistimos e tiramos uma foto. Aquele nome traz-nos boas recordações. É a partir dali que rezaremos o terço. Mas não sem antes as pessoas nos chamarem tolinhos três ou quatro vezes, porque «Fátima não é para aí!». E não será mesmo, mas nós sabemos que há «para aí» uma casa da Mãe, chame-se ela Fátima, Carmo, Clara, Maria da Luz, Teresa ou Alice. E foi mesmo por ali que fomos a rezar o Terço.
Chega por fim a Capela de S. Amaro. A porta está aberta e é ali que concluímos a nossa oração, cantámos e recebemos a bênção. O povo acorre, junta-se, quer-nos seduzir com água fresquinha (que aceitámos), mas não parámos porque os peregrinos foram feitos para andar. A meta ainda não foi alcançada e temos de partir mesmo. Pessoalmente apetece-me parar, mas a pior parte de mim diz-me que devemos andar porque depois custa imenso a pôr a máquina a vapor a andar. Apetece ficar ali com o povo, mas talvez seja melhor ir com Deus. Enfim!
Chegados às Alhadas homenageamos as padeiras (deve haver algures uma foto como prova). Depois fomos para a igreja paroquial. Ao perguntar onde fica a Igreja, as pessoas respondem: - Qual?, e têm razão, porque são duas, a Católica e a Protestante. Quando respondemos: - A de São Pedro!; dizem-nos: - Vão por ali. E fomos.
As portas da Igreja de S. Pedro das Alhadas estão fechadas e ainda não foi desta que fomos conhecer o Padroeiro. Subimos, pois, mais um pouco e parámos junto ás portas do Centro Social Água Viva. Está ali um magote de velhinhos que não sabe se rir se chorar. É que vamos chegando às pinguinhas, umas pinguinhas renitentes, cansadas e suadas, que não dá gosto nem ver. Os trejeitos dão para rir, as dores que se vêm dão para chorar. Mas julgo ler nas suas caras um desejo de amanhã partir connosco, nem que seja de cadeira de rodas.
Quando alcançamos juntar a tropa as meninas vão para o carmelo da Alice Montargil e os rapazes ficam-se pelo Centro. Havemos de nos reunir mais tarde para nova sessão de fura bolhas, para o jantar sempre sereno, alegre e familiar com os nossos amigos de Alhadas, para celebrarmos a Eucaristia e para o debate final sobre as presenças diversas de Deus no caminho.
Tragamos o jantar num piscar de olhos e logo nos vimos a celebrar a Eucaristia. Havia ali amigos e amigas de comunidades várias, que já nos conhecem doutras carminhadas. Conheceram-nos aqui e além e acham que somos um vírus. Não dizem se benigno, mas ao que parece a coisa não está para passar. Gostam de nos ver, de cantar e rezar connosco. O vírus pegou e tardará em sair. Reclamam que vamos mais além, que rompamos fronteiras. Reclamam e a ver o que se verá.
Na Eucaristia estão quatro jovens peregrinos de Alhadas que carminharão connosco amanhã e no decorrer da mesma chegarão três outros jovens peregrinos. Estes trazem com eles uma história engraçada: vêm a caminhar há largas horas, com o sistema de GPS ligado. Ao chegar a Alhadas resolvem seguir a intuição e não o GPS. Assim, quando ele recomenda virar à direita seguirão em frente. Ou ao contrário. Chegarão, sãos e salvos, à Eucaristia, depois de percorrer as tortuosas ruas da povoação. E em jeito de confidência dirão: «O GPS estava errado, por isso decidimos seguir a Estrela!» Seguiram? Parece que sim. O certo é que chegaram a tempo de receber a pedra com que amanhã terão de carregar no bolso ou na mochila. Entretanto a Eucaristia decorre e porque é dia de S. Atanásio, o presidente da celebração recorda a frontalidade e a resistência pela verdade de que este santo bispo foi perfeito modelo. E socorrendo-se ainda do número dezasseis da nossa Regra, recordou-nos insistentemente que a nossa vida de fé é um duríssimo combate que não devemos evitar, porque no fim lá está Quem melhor pode pagar. Terminada a Eucaristia e terminado o debate no Centro, regressaremos todos para dentro dos sacos cama. Urge descansar, porque o dia de amanhã avizinha-se longo, duro e cansativo.

As bolhas... da Peregrinação a Pé

CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA (II)

Dia 1 - 1 de Maio
Que palavras são essas que trocais entre vós?

À hora em ponto uns suaves tun-tuns nas portas dos quartos recordavam-nos que estávamos na hora certa para erguer o esqueleto. Os mais ansiosos levantaram-se logo, os mais acomodados deram ainda volta e meia no saco-cama. Mas não havia nada a fazer. Começara a marcha! Já nada a podia deter! Observado o tempo com olho de áugure logo deu para entender que nem o tempo nos deteria.
Arrumamos os quartos, enfiamos os sacos, limpamos as migalhas do pequeno-almoço. E reunimo-nos de novo na Sala dos Claustros para a Oração de bênção do Peregrino. Logo depois com a voz embargada e com os pés decididos fomos para a estrada.
Alguns amigos despediram-se de nós.
Saímos mais cedo uma hora que no ano passado. E ainda assim encontrámos alguns conhecidos que, despertos, nos saudaram:
- Aonde vão?
- Vamos para Fátima!
– Então, que Deus vos acompanhe.
E seguimos. E parámos. Tínhamos criado para esta peregrinação uma actividade nova. Chamava-se Pistas. As Pistas são um despertar para algum pormenor do caminho ou do dia. São uma tentativa de sublinhar algum aspecto a ter em conta. São uma catequese, uma formação ou oração. Enfim, um plus daquele dia. As Pistas do primeiro dia tinham a ver com o tema desse dia: «Que palavras são essas que trocais entre vós?». Ou seja, urgia trocar palavras entre nós. Sobretudo com os menos conhecidos de nós. Dizer e compartilhar as palavras e sentimentos que nos aqueciam (ou arrefeciam) o coração. Palavras que Ele, caminhante connosco, pudesse escutar, acalentar, reforçar. Ouve, assim, ao longo de toda a manhã e de quase toda a tarde um longo momento de parlapiê cheio de alegria e de diálogo.
Em Vagos voltamos a parar no mesmo jardim da mesma capela fechada. Aterrámos nos bancos do jardim, bebemos água e uma maçã ou doce, ou ambos, e levantámos o esqueleto. Levantámos, quer dizer, queríamos levantar. Que terrível é levantar o esqueleto quando ele se espalmarra daquela maneira. E o mais difícil é pensar ou aceitar que os poucos quilómetros andados são pouco mais que o aquecimento, pouco mais que o início da peregrinação! E cai-nos no coração um pensamento em forma de pingo de chumbo negro: será que vai ser sempre assim? Será que terei de sofrer tudo isto outra vez?
E por cima de nós paira um ameaço negro de chuva portentosa.
Continuamos o caminho. Não há tempo a perder. Não há tempo para ter medo da chuva. Continuamos no parlapiê, agora com outros amigos porque o reajuntamento permitiu, entretanto, trocar de parceiros de caminho.
Ao fim da manhã chegamos a Santo André de Vagos, ao mesmo restaurante que nos recebera na primeira peregrinação. Já ali somos conhecidos. E, parece até, esperados. A senhora, bastante jovem, atende-nos com respeito e prontidão. Quando por fim nos despedimos é ela quem nos dá a gorjeta para deixarmos no Santuário em velas a arder. Ora aqui vai mais uma intenção na nossa peregrinação: um coração de mãe e outro de filha bebé por quem rezar!
Começámos refeitos e ligeiros a segunda etapa do dia. Há já algumas queixas, mas muito bom humor. Percorremos algum tempo a palrar até que chegam as rectas de Calvão. Ali formamos para rezar o Terço. É o melhor momento do dia. Caminha-se a rezar, em conjunto, calmamente, com Jesus e Maria. (A meio da recitação do Terço dá-se uma aparição: A Nininha, que é filha da Nina, aparece-lhe e o coração da mãe derrete-se. O corpo, ou melhor, tudo, o corpo, a alma e o espírito maternos dão um salto, saltam ave-marias e padre nossos e as linhas da estrada, e os braços estreitam a filha no peito. A mãe chora. A filha chora. Mas nenhuma sabe porque chora. Porque afinal, Fátima é já ali!)
Quando termina o Terço algum dos caloiros quer rezar mais, por que é bom caminhar assim. Mas não dá. Não haja dúvida que é bom, mas a prudência recomenda que se acelere o passo. E aceleramos o passo. Pelo menos os que podem aceleram o passo. Havemos de chegar todos ao fim da etapa do primeiro dia. Um dos peregrinos chega de carro à meta com palavras de choro, angústia e desilusão. «O sistema bloqueou!», diz. Quer desistir, porque não consegue dar um passo. Acaba aceitando passar pelo hospital, em Aveiro, onde o aguarda uma equipa de retaguarda. Demora-se pouco tempo no hospital. Os médicos vêm o sistema e encontram tudo bem. Devolvem-no à procedência recomendando prudência mas não impedindo a caminhada a pé.
Entretanto, fomos muito bem recebidos na Casa da Sagrada Família da Nazaré. Há uma festa à porta, porque na região o primeiro de Maio é celebrado no campo: o povo quer o cheiro a erva fresca e a flores, o cantar dos passarinhos e do vento.
Tomámos banho, refrescámo-nos e a Delfina fura-nos as bolhas. Há uma caloira que promete um filme por cada bolha furada. A primeira deu um filme cómico único. Quem viu viu, quem não viu visse! Infelizmente não furará mais bolhas. Preferirá caminhar três dias em cima das bolhas que furá-las. É assim mesmo heroína! O jantar foi regalado e o cúmulo foram as natas do céu que a D. Orquídea nos veio trazer. Ninguém resistiu. Todos comeram e enquanto comeram ninguém se queixou de dores, nem nos dentes nem nos pés! O remédio está encontrado: um doce por cada dor!
Um regalo foi também o recreio com canções de todos os tops. A Nina fez de disc-jokey e começou todos os hits. Não escapou um! Ainda deu para dançar a dança do pé-coxinho, que é mais sugerida pelas dores das bolhas furadas e pelos músculos doridos que pelo jeito para a dança.
Terminamos o dia com a oração da noite, mas não sem antes nos dizermos compartilhando longamente as palavras que trocámos entre nós, que nos animaram, que não nos deixaram desistir. E surgiram ali tantas palavras belas, tantas palavras doces e animosas, palavras que são mais Deus que dos homens!
Por fim era já tarde e os corpos reclamavam descanso. Tínhamos cinco horas de descanso pela frente. Havia que aproveitar a presença dos Anjos que nos convidavam a dormir.
E fomos dormir.

Testemunho II - II Peregrinação a Pé a Fátima

Não poderia, neste momento, deixar de agradecer a todos e a cada um, em particular, por tornarem estes quatro dias inesquecíveis e impossíveis de apagar da memória.
À Anita, pela sua força interior e pela forma de encarar a vida, “cada etapa, uma corrida!”

Ao “Tio António”, por todo o apoio prestado durante o caminho, pelo seu bom humor e pelas palavras e brincadeiras que tornaram o nosso caminho mais fácil de ser feito.

À Betinha, pela ajuda à minha decisão de entrar nesta Carminhada. Pelas palavras de carinho, pelo olhar atento, pela expressão “tas bem?”. Pelas muitas palavras e canções que trocamos, pelo apoio dado ao longo de toda a Peregrinação e, principalmente, pela última etapa em que me segurou com a sua mão.

À Cami, pela sua forma positiva de encarar todas as etapas.

À Delfina, pelas palavras de coragem, pelo carinho partilhado, pelas massagens que tornaram os nossos trilhos mais fáceis de fazer.

Ao Frei João, pela forma simples como partilha o Espírito Carmelita, que nos leva a querer estar sempre presentes. Pelas palavras sábias, que nos fazem entender a religião. Não esquecerei a forma como o “Pastor” guia as suas “ovelhas”. Obrigada.

À Márcia, pela sua enorme força interior que a levou a caminhar connosco, pelos sorrisos e brincadeiras, por ser um exemplo de mulher lutadora.

À Nina, algumas vezes companheira de caminho, pelas palavras doces e pela força incrementada.

À D. Orquídea, pela sua presença alegre e pelas palavras que me ajudaram na recta final.

Ao Pedro Luís e ao Tiago Paes, pela sua presença agradável.

Ao Pedro Pereira, pelas palavras de encorajamento, pelos sorrisos e pelas emoções.

Ao Ricardo, que apesar do ar sério, consegue ser “querido” e que me ajudou a terminar a Carminhada. Obrigada.

À Susana, pela sua presença simpática, pelo acompanhamento insaciável e palavras de carinho.

À Teresa Romeiro, pela coragem.

À Teresa Soares, pelas palavras partilhadas, pelos momentos emotivos.

Ao Tiaguinho, que como já sabe, simplesmente por existir e tornar a Carminhada da minha com sentido.

À Tuxana, presença agradável, obrigada pelas palavras de apoio.

À Verónica, porque um sorriso vale mil palavras e uma abraço, mil beijos. “Onde não há amor, põe amor e encontrarás amor”. Obrigada.

Ao , pelo reportório musical, pela ajuda prestada.

À Mãe e ao Pai do Céu, por me ajudarem a conseguir terminar esta Peregrinação, por me levarem a caminhar com um grupo animado e sempre pronto a ajudar. Não foi fácil, mas foi muito compensador.

A todos o meu muito obrigado! E… até amanhã!


Braga, segunda-feira 5 de Maio de 2008

ISABEL GONÇALVES, 25 anos, Braga

CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA(I)

800 anos, 26 peregrinos e 4 dias
Estando já os caminhos ardendo em ânsias e os pés resfolgando pelo assalto, reunimo-nos na Sala dos Claustros do Convento do Carmo de Aveiro na noite do dia 30 de Abril. Eram as 22h00. Não estávamos todos, mas a maior parte do todo. Alguns dos peregrinos incorporar-se-iam no decurso da peregrinação. Aliás, estávamos nós a entrar na sala e algum a entrar no carro, em Espanha, para se achegar a nós. Haveríamos de nos encontrar. O caminho haveria de nos reunir. Estando reunidos a maior parte dos peregrinos e depois dos abraços e beijos – que sem eles não se consegue fazer caminho algum! – foi dado o tiro de partida, apresentado o guião e acolhidos e introduzidos os mais desconhecidos.
Assim, se as contas não falharam éramos naquela noite vinte peregrinos, mais que o ano passado! No total chegaremos a ser vinte e seis! Éramos menos homens que mulheres e uma média etária mais alta. Onze repetíamos a jornada, seja no caminho seja no apoio.
A peregrinação seria In obsequio Iesu Christi, isto é no seguimento e no serviço ao Senhor Jesus Cristo. Foi esta maneira achada pelos jovens carmelitas portugueses para celebrar os 800 anos da Regra do Carmo. Celebramo-los a caminho, meditando dia e noite aquelas palavras que ao longo dos séculos aqueceram gerações várias de carmelitas.
Depois das saudações e das orações, o Sr. António Branco, peregrino afoito e afeito para o apoio aos carminheiros, pediu para falar. Juntamente com a mulher, a Dª Orquídia, tinha trazido numa bela moldura a faixa do Movimento que os jovens o haviam presenteado na peregrinação anterior. Trouxe-a, confidenciou ele, todo ano, no seu carro de trabalho. Era muito significativa para si, porque representava a chave e a senha de reentrada na Igreja. Nos momentos álgidos fora para o banco de trás do carro e agarrara-se a ela, apertava-a nas mãos e depois lá ia tomar ou acertar decisões.
Agora devolvia-a aos jovens. Devolvia-a alegre. E nós recebemo-la, não sem antes lhe oferecermos outra, para que tenha sempre a que se agarrar. E para que sempre se recorde dos amigos que nunca o esquecem na oração, no diálogo amoroso com o Senhor.
Terminamos com a bênção do Frei João e fomos descansar. Nas mãos ia o guião e uma recomendação ler um breve texto de Bento XVI, a saudação do Padre Provincial e a do Responsável pela Pastoral Juvenil da Ordem. Os casados, que os havia entre nós, teriam de ler em conjunto, quer fossem ambos ou não em peregrinação. E assim fizeram como depois nos certificamos!
A noite já ia bem alta quando nos deitamos! A alvorada será às 06h30 e ainda ninguém sabe como será. Só sabemos que será.
Sabemos que durante quatro dias seremos vinte e seis peregrinos a celebrar oitocentos anos da entrega da Regra do Carmo aos irmãos de Nossa Senhora do Monte Carmelo por Santo Alberto, bispo de Jerusalém.
Amanhã começamos a caminhar.

terça-feira, 6 de maio de 2008

CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA

Os pés e os caminhos
Uma peregrinação começa antes de começar.
Os caminhos que havemos de caminhar já lá foram postos há muito, pelos muitos pés que os percorreram antes de nós. E os nossos pés que ainda não chegaram à comunhão com os caminhos vão ficando avidamente no apronto final. Antes da peregrinação tudo está em ordem. Os caminhos estão onde devem estar, os pés por onde devem andar. Mas como não se encontraram não há ainda a peregrinação que deve haver, para a qual todos nos motivamos. Oh! Mas quando os pés se juntam aos caminhos e os trilham há uma felicidade imensa! É uma glória!, porque os pés são para os caminhos e os caminhos são para os pés.
Quem julgar que foi de outra maneira que nos preparamos engana-se, porque foi assim mesmo que nos preparámos. Ansiávamos pelos caminhos, que embora lá, pareciam tardar em aproximar-se dos nossos passos. Ansiávamos por afagá-los com a mesma sentida ternura que uma mãe beija a palma dos pés do seu infante.
Mas no dia certo, o primeiro de Maio, os pés chegaram a tempo e os caminhos não se ausentaram para parte incerta. À saída do convento do Carmo de Aveiro lá estavam os caminhos certos e 15 pares de pés ansiosos por percorrê-los, conhecê-los e beijá-los. Sim, que os caminhos conhecem-se pelos pés que os caminham!
É a caminhar que vimos e é a caminhar que vamos. Isso é bem verdade, porque todos somos herdeiros e portadores de futuro.

Duas perguntas
Não é fácil fazermo-nos a uma peregrinação. É trabalhosa a sua concepção, judiciosa na sua concretização, doloroso o seu decurso. Ainda antes de nos fazermos ao caminho muitas coisas há a preparar, cuidar, pensar, decidir, recusar. Sobretudo se vamos em grupo. Há espinhos que recolher, recantos do coração para agrandar, mãos que amaciar, abraços que estreitar, sorrisos que limpar, beijos que adoçar, canções que afinar. É todo um programa de simplicidades complicadas.
Este ano, porque era a segunda vez que íamos a pé a Fátima, depararam-se-nos duas perguntas: 1) Vale a pena caminhar a pé e sofrer tanto? Será que Deus o quer? Por que não haveremos de fazer coisas mais úteis?; 2) Se já realizámos no ano passado este percurso porquê repeti-lo? Se já sofremos muito percorrendo o trajecto, porquê repetir as mesmas dores?
Perguntas inquietantes com respostas sempre algo insatisfatórias, sempre aquém de convencer. Mas que há que enfrentar para iluminar os passos a dar. Também os nossos.
A primeira resposta deveria ser muito mais elaborada, porém bastará dizer que Ele sofreu e sofreu muito. Muito sofreu porque muito amou. E tudo sofreu porque tudo amou. Sofreu no que caminhou, do princípio ao fim, da manjedoira à cruz. Se Ele sofreu por que não haveremos nós de sofrer? Se Ele ficou com o furo dos cravos nos pés, por que haverão de se ausentar dos nossos as bolhas e as entorses? Se Ele amou por que não haveremos nós de amar? E se todos amarem só duma maneira, só numa variante, só numa cambiante, que beleza e proveito há nisso? Porventura existe só o amor de mãe? E o amor fraterno poderá ser igual à filia? Não. Claramente não. É para que se completem e se conjuguem todas as cores do arco-íris do amor que existem peregrinações a pé a Fátima. Neste caso, a dos jovens Carmelitas.
A segunda resposta ainda que complexa é mais fácil. A resposta descobriu-a a Betinha ao terceiro dia. Ou pelo menos foi ao terceiro dia que a declarou: o caminho não é igual. Os quilómetros são os mesmos, as paragens foram as mesmas, quase tudo era igual, mas nós éramos diferentes. Tínhamos crescido, éramos os mesmos mas mais responsáveis, mais amigos, mais carmelitas. Como poderia o caminho ser igual? Ora se o caminho não é igual e nós não éramos iguais, porque haveriam de ser iguais as dores e os temores? Não seriam. Não foram.
Dizem os antigos muito antigos que a mesma água não passa duas vezes sob a mesma ponte. Nisso têm razão. E também nós temos razão quando repetimos que o caminho não era igual sendo o mesmo. As dores não foram iguais, mas percorremos o mesmo caminho com os mesmos pés. Mas pés mais maduros e mais afoitos. Os pés eram os mesmos e as dores foram diferentes. E o caminho era diferente sendo o mesmo. Porque a diferença está no olhar do coração e na maneira como as dores se incorporam na história de fé de cada um. O caminho serve apenas para subir á Cruz!
Para quem busca sensações e experiências diferentes basta-lhe apenas que tenha pés e vontade de se fazer ao Caminho!

Testemunho I - II Peregrinação a Pé a Fátima

Fui e Encontrei
E porque não a pé? – eis a pergunta que outros me faziam e que eu fui deixando aquecer em mim.
No ano passado já o tinha feito de carro a dar apoio. Desde essa altura houve uma pessoa que me desafiou a carminhar a seu lado e entretanto acabei por aceitar. Este ano peregrinei a pé, caminhei e caminhei sempre In Obsequio Iesu Christi”.
Foram quatro dias, quatro dias de caminho em que me encontrei. Encontrei um eu que não conhecia, respostas a perguntas que dantes me tinham sido feitas e na altura não soube responder, respostas a perguntas que anteriormente eu coloquei a mim e que nunca obtive resposta, a meu lado pessoas espectaculares que já as guardava no coração e que hoje não podem de lá sair.
Longo e duro foi o caminho mas os amigos na altura em que necessitei estavam comigo, com eles pude contar e o mais importante de todos os encontros se deu. Não desisti e encontrei-me com Ele.
Gostei, adorei carminhar convosco e com Ele.
Não se esqueçam de que tudo o que fazemos deve ser In Obsequio Iesu Christi”.
Obrigado por tudo.

ANTÓNIO PEDRO PEREIRA, 32 anos, Gafanha da Nazaré