terça-feira, 20 de maio de 2008
OBRIGADO será a palavra que encerra tudo!
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Testemunho VI - II Peregrinação a Pé a Fátima
“I have a dream!”
Pois, bem, eu tinha um desejo já há muitos anos:
Ir a Fátima a pé.
Este desejo nunca teve data ou hora marcada. Mas, quisera Deus e a Nossa Senhora do Carmo que fosse este ano e com um grupo de Jovens Carmelitas, o Grupo JOVENS LEIGOS EM MOVIMENTO.
Mas o que procurei nesta peregrinação?
Agradecer a Deus tudo quanto me dá.
À partida, pensar em caminhar durante 4 longos dias, ou mais exactamente 140 Km (desde o Carmo de Aveiro até o Santuário de Fátima) parece um desafio impossível. Não pensei nunca na dificuldade, ou na totalidade do percurso. Mas, optei por me sentir feliz por cada passo que dava e por cada etapa superada.
Podem não acreditar. Mas, agora que já passou, a sensação é que tudo foi estupidamente fácil. Ainda não descobri porquê. Mas, houve muita coisa a ajudar. Em primeiro lugar a organização. Toda a peregrinação foi racional e meticulosamente pensada para que cada elemento do Grupo atingisse o seu objectivo, chegar a Fátima a pé. Como nos foi dito no dia de acolhimento, “Haverá um (mais precisamente três) carro-vassoura para transporte de mochilas e dos mais cansados, mas a maior honra dos condutores é chegar sem passageiros”.
Em segundo lugar a reflexão espiritual que nos era proposta em cada dia e que dava sentido a cada dia e em terceiro lugar, mas tão importante como o primeiro, o carinho e o apoio do grupo, especialmente dos mais novos, que estão habituados a fazer carminhadas e para quem o percurso não demonstrou qualquer dificuldade.
O que me impressionou?
Um grupo de JOVENS com valores e que sentem o apelo de Deus, que se sacrificam por um objectivo.
Mais uma vez tenho que agradecer, pela fé que demonstram. Se não fossem eles, não teria desfrutado deste desafio que deixou marcas. Em termo físicos foi poupada. Pois não tive uma única bolha nos pés e as pernas também se portaram bem. Mas em termos psicológicos, irão ser sempre recordados com muito carinho. Passei a tratá-los por “Meu coração” que é a forma carinhosa com que trato os meus amigos do peito.
Se me permitem o atrevimento,
Saudações carmelitas,
Um beijinho muito grande de OBRIGADA,
E até,
Talvez, para o ano,
domingo, 18 de maio de 2008
Festejamos a Santíssima Trindade.
Elevação à Santíssima Trindade


quinta-feira, 15 de maio de 2008
Testemunho V - II Peregrinação a Pé a Fátima
Nestes últimos dois anos em que o Movimento Carmo jovem organizou a Peregrinação a Fátima ofereci-me sempre como voluntária para a equipa de apoio. Eu já conhecia as dificuldades que se sentem ao percorrer tantos quilómetros a pé e quis dar todo o meu apoio a todos os peregrinos.
Este ano fi-lo “In Obsequio Iesu Christi” … fi-lo para acompanhar o meu marido que fez todo o caminho a pé … fi-lo para dar forças aos elementos que percorreram o caminho a pé não desanimassem e que o caminho torna-se mais agradável … fi-lo para também dar apoio à Verónica e ao meu Pai, António Branco, que conduziam as outras duas viaturas de apoio.
Percorrer o caminho numa viatura, sozinhos agarrados ao volante também não é fácil, pois não sofremos das dores mas, por vezes, o desânimo também nos toca. Mas dada à experiência tida anteriormente pensei que o meu maior contributo nesta Peregrinação seria dar apoio a quem caminha, sabendo que entretanto também ia peregrinando a par com eles.
E assim se fez a Sua Vontade.
Naturalmente, o caminho foi longo e doloroso, principalmente para quem não está habituado a percorrer tantos quilómetros a pé e não tem noção das distâncias, nem das dificuldades que se encontram, mas também o é para quem já conhecia o caminho e o repetia, sendo também para quem tem de levar uma viatura … No entanto lá ia dando ânimo a quem percorria os caminhos “In Obsequio Iesu Christi”.
E a cada quilómetro percorrido, quer a pé quer de carro, as dificuldades eram vencidas e Jesus Cristo estava mais próximo de nós! E há medida que todos iam atingindo a “meta” diária ficava contente por ter ajudado o meu amigo a ultrapassar uma dificuldade e esse amigo ter-me também ajudado…
A vida é também feita de dificuldades. Ninguém nos disse que o caminho é leve. A cada novo dia as forças redobravam. Estávamos em família, e com Jesus ao nosso lado percorríamos os largos quilómetros de cânticos e de palavras…
Testemunho IV - II Peregrinação a Pé a Fátima
Fiz a Peregrinação a Fátima como todos vós com muita alegria.
Agradeço a Maria, esta oportunidade de continuar a caminhar com Ela e por Ela até Jesus.
Foi muito bom, apesar das dores, do cansaço, é reconfortante chegar ao fim do dia todos juntos e felizes, porque conseguimos vencer mais uma etapa do nosso caminho.
Este foi particularmente muito especial, fazer a experiência dos discípulos de Emaús ficará para sempre gravada no meu coração e espero que no vosso também… tantas vezes ELE caminha a nosso lado e os nossos olhos e ouvidos continuam fechados (é tanto o ruído na nossa vida).
Precisamos Senhor, que a tua Palavra aqueça o nosso coração e ilumine a nossa inteligência, que o teu Pão alimente a nossa fome e nos dê forças para amar…
Quero pedir-te Senhor que caminhes sempre connosco, principalmente quando a tristeza e o desânimo entram no nosso caminhar. E que eu saiba reconhecer-Te sempre naqueles que caminham a meu lado e precisam da minha ajuda ao longo do caminho.
Tu sabes como sou «pequenina», mas aceita Senhor o pouco que sou, para que possa ser um bocadinho do Teu tudo para os meus irmãos…
A todos agradeço a alegria e a amizade com que vivemos mais esta caminhada.
Obrigado pelo vosso carinho e pelos vossos miminhos.
DELFINA RIBEIRO, 38 anos, Caíde de Rei
terça-feira, 13 de maio de 2008
Belíssima oportunidade para nos (re)encontrarmos
Uma belíssima oportunidade para nos (re)encontrarmos não só com Ele, mas com os outros.No passado sábado, dia 10 de Maio a comunidade de padres e leigos do Carmo de Aveiro homenagearam o Frei João Costa pelos 2 triénios de serviço à comunidade. Um grupo significativo de peregrinos a pé a Fátima do Carmo Jovem, reuniu-se em Aveiro para juntos continuarmos a ser testemunhas do Amor de Deus.
Deste amor queremos continuar a falar, neste amor, construiremos pontes e cresceremos nos carminhos que o Mestre nos manda seguir.
Dos rios que correm para o mar, nos falou Frei João Costa na homilia desta tarde. Também nós jovens em Movimento queremos continuar a por os olhos n´Ele e em todos os que, com Ele, são capazes de navegar no mar encapelado da vida, segurando as redes com ardor, convictos que neste mar encontraremos a mão segura do Mestre.
Que Nossa Senhora do Carmo, Nossa Mãe e Senhora do Sim, o acolha sob o seu manto, o ilumine e o proteja para que continue a ser presença deste Deus que é Pai.
Em Viana do Castelo, na Igreja Nossa Senhora do Carmo, com Teresa de Jesus e S. João da Cruz permaneça testemunha do amor de Deus, anunciador da Boa nova e a viver «In obsequio Iesu Christi».
Conte connosco, continuaremos a contar consigo!
“Porque Te Amo, oh Maria”

«Oh! Quisera cantar, Maria, por que te amo
Porque é que o teu nome tão doce me faz vibrar o coração
E porque o pensamento da tua grandeza suprema
Não poderia inspirar à minha alma o sentimento do temor.
Se eu te contemplasse na tua sublime glória
E mais brilhante do que todos os bem-aventurados,
Não poderia acreditar que sou tua filha
Ó Maria, diante de ti, eu baixava os olhos!...
Já que o Rei dos Céus quis que a sua Mãe
Mergulhasse na noite, na angustia do coração,
Maria, é então um bem sofrer na terra?
Sim, sofrer amando, é a felicidade mais pura!...
Tudo o que Ele me deu Jesus pode tomá-lo
Diz-lhe que nunca se constranja comigo…
Ele pode esconder-se, eu consinto em esperá-l´O
Até ao dia sem acaso em que se extinguirá a minha fé…
Amas-nos, Maria, como Jesus nos ama
E consentes por nós em afastar-te d´Ele.
Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo
Quisestes demonstrá-lo ficando connosco.
O Salvador conhecia a tua ternura imensa
Sabia os segredos do teu coração maternal
Refugio dos pecadores, é a ti que Ele nos deixa
Quando abandona a Cruz para nos esperar no Céu”.»
[Santa Teresa do Menino Jesus (Estrofes 1, 16, 22)]
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Carminhada - Braga - 24 de Maio
Inunda o meu ser,
Inunda o meu ser.
Espírito, inunda o meu ser.
Em ondas de amor, ó vem sobre mim
Espirito, inunda o meu ser
Aspectos a ter em atenção:
- Procura levar calçado confortável e já usado; roupa conveniente (um impermeável…);
- Quem já participou noutras Carminhadas tem a faixa “JOVENS LEIGOS CARMELITAS”. Devem levá-la.
CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA (V)
Reconheceram-n’O ao partir do Pão!
Este ano ninguém me engana, pensei. E se bem pensei, melhor o fiz. Deitei o meu saco cama longe da sala dos motores, motorizadas e trotinetes dos meus companheiros. Fui dormir para um recanto do corredor. O que eu não contava era com a Ronca da Barra. Como se sabe a Ronca da Barra está lá para avisar os navios que devem fugir dos baixios e dos escolhos da beira-mar. Eu devia saber, mas tirei a prova bem tirada quando mesmo longe eu continuava sem querer navegar, mas a ter de aturar a Ronca que roncou para a esquerda quando virada para a esquerda e roncou para a direita quando virada para a direita. Ó que noite feliz teve a Ronca da Barra!
Também isto é peregrinação.
Por fim o dia raiou. (Ou quase raiou, porque nos voltaram a acordar às 05h00!) A maioria dormiu bem, porque Deus tinha-nos dado um chão tão fofo (ou um sono assaz pesado) para descansarmos, que todos nos levantamos frescos como alfaces.
O programa mandava celebrar Missa às 05h30. E só isso me levantou, que de contrário não me levantaria nem que me chamassem doze vezes (Andaria ainda por ali a Ronca?)
Pela frente estão outras seis horas de caminho, outros 30 quilómetros a fazer. Ou talvez mais porque subir a encosta de Santa Catarina da Serra não é pêra doce, é pereira amarga.
Vencida a serra chegamos a Fátima. Ninguém desistiu, porque quando falharam as forças não falhou o coração. Se não foi o próprio foi o dos companheiros: há sempre um coração grande para nos animar, rezar, acompanhar, empurrar, puxar, eu sei lá, há sempre um coração que nos leva a Fátima…
Presidiu amavelmente à oração o Padre Provincial, Frei Pedro Ferreira, que nos disse palavras boas e outras esperançadoras como estas: «Se ninguém mais vo-lo disser, digo-vo-lo eu: a vossa peregrinação, as vossas dores e os vossos sofrimentos foram aceites no Céu! Estai certos disso! Estai certos de que ninguém, nem vós!, podereis retirar de lá o que lá acabais de lançar!»
Quando despertei estava em Aveiro. Parámos diante do olhar de São João da Cruz. Ali ficámos uns, e outros seguiram. Não houve choros nem lágrimas. Algumas saudades, apenas. Dia 24 já nos veremos novamente. Como se tivéssemos andado a roubar, rapidamente nos separámos e cada um foi à sua vida. Eu sei que não foi assim, mas diz-se assim para dizer todo o cofre cheio de desejos de chegar ainda hoje a casa com tempo e com luz para receber beijos, muitos beijos das mães e dar-lhes os beijos que elas merecem e que a Mãe do Céu mandou dar-lhe.
(E como são diferentes os beijos depois duma peregrinação!)
E acaba aqui a crónica. Mas não acaba aqui a peregrinação, porque como dizia o último SMS «O regresso a casa é a etapa mais difícil da Peregrinação». Se é, seja. O ano que vem o dirá. Que até lá Deus nos abençoe.
Que até lá, sobre todos os jovens carmelitas, que em peregrinação a pé a Fátima celebraram os 800 anos da Regra do Carmo:
Se abra a estrada à sua frente.Sopre levemente o vento nas suas costas.Brilhe cálido e suave o sol sobre a sua cara.Caia de mansinho a chuva nos seus campos. E até que de novo nos encontremos, Deus os guarde na palma de suas mãos...
CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA (IV)
In obsequio Iesu Christi
O segundo dia de carminhada foi longo. O de hoje parece ser mais. O dia de hoje vai ser mais. Mais longo. Mais caminho. Mais quilómetros. Mais cânticos. Mais natureza. Mais sol. Mais peregrinos. Mais amizade. Mais searas. Mais passarinhos. Mais, simplesmente mais. Hoje é o dia mais.
O segundo dia foi longo. Tão longo que a sua longinquidade tornará curta a noite. Ao despertar não haverá tun-tuns, mas sininhos e música de anjos. No carmelo das maravilhas da Alice é assim! Sininhos, miminhos, música e demais (sim demais e demasiadas) carícias que fazem as delícias dos peregrinos e os deixam com ânsias de voltar ao lar. No Centro o despertar foi mais prosaico: a Verónica estava à porta para nos levar, e nós estávamos em Vale de Sacos de Cama. Mas rapidamente nos recompomos como se nada nos doesse, nem o caminho por andar nem o caminho já andado. E num santiámen já nos vemos estrada acima, estrada abaixo. À procura da outra parte dos peregrinos. Passámos pelo Carmelo onde tudo está pronto, formámos a caravana e eis-nos, enquanto tudo dorme, a caminho da Gala.
Fomos tomar um café para espairecer do terrível ataque e despertar os neurónios. E já os mais lentos tinham avançado alguns passos quando, à vista das feras, nos reunimos de novo para as Pistas, que, hoje, são muito simples: seguindo uma tradição antiga e popular, hoje, dia 3 de Maio, antigo dia da Santa Cruz, diremos mil vezes o nome de Jesus! E lá partimos em silêncio, de terço na mão e o Santo Nome de Jesus nos lábios.
1,2,3,4,5,6…
A manhã ainda é bebé quando nos afoitamos ao caminho suave. É sábado e todo o mundo dorme, estradas e caminhos inclusive. O caminho é manso e suave, os carros e os camiões dão-nos tréguas. O sol vai despontando timidamente. O perfume dos pinheiros invade os pulmões e refrescam-nos. A natureza canta e grita de alegria à nossa passagem. Há pinheiros e campos, roseirais e casas semi-adormecidas, cebolais e trigais que nos saúdam e animam. Damos um passo e mais um passo, e lá vamos dizendo, Jesus, Jesus, Jesus, Jesus.
222,223,224,225,226,227….
500,501,502,503,504,505,506,507,508…
O caminho está este ano mais complicado. Ao lado da EN 109 nasceu a A17. Sempre que a A17 desagua na EN109 nasceram rotundas imensas.
667,668,669…
E o aparecimento de rotundas significa o aumento de complicações para quem caminha a pé. Porém, apesar de mais este contratempo lá avançamos generosos e com ânsias de que a coisa termine. Não é que seja coisa ruim ou má, mas antes o desejo de alcançar o proposto, vencer os obstáculos, encurtar as distâncias, saciarmo-nos da paz do Santuário, subir para Deus, entrar para o seu coração, adormecer no seu peito, confidenciar-lhe o que não pode ser dito no recôndito dos quartos nem nas veredas dos caminhos.
888,889,890,891,892,893,894…
E lá continuámos. Uns ligeiros, os veteranos. Outros mais cansados, os principiantes. Mas em todos há vontade e garra de avançar. E vamos avançando durante grande parte da manhã em silêncio.
921,922,923,924,925…
Avançamos, avançamos, avançamos sem medo. Sem medo avançamos, porque Jesus vai connosco.
999,1000. Mil vezes! Mil vezes! Mil vezes Jesus!
Mil vezes, Jesus!
Sempre Jesus!
Mil vezes mil, Jesus!
Sempre Jesus!
Sempre Jesus nos lábios!
Sempre Jesus no coração!
Sempre Jesus nas lágrimas!
Sempre Jesus nas preces!
Sempre Jesus nas saudades!
Sempre Jesus nas palavras!
Sempre Jesus nos pensamentos!
Sempre, Jesus sempre!
Sempre Jesus nos sentimentos!
Sempre Jesus nos passos!
Sempre, sempre Jesus!
Sempre, sempre o seu Santo Nome!
Sempre connosco!
Sempre em toda a parte!
Sempre por dentro como um afago!
Sempre por fora como um agasalho!
Sempre Jesus como uma armadura!
Sempre Jesus! Mil vezes Jesus!
Mil vezes sempre mil vezes vezes mil, Jesus sempre!
Quando chega a hora do reforço esticámo-nos no chão. Esticámo-nos, não! Há quem prefira continuar e evitar a tortura do levantar e do pôr em andamento a carcaça, essa velha máquina a vapor tão lenta, mas tão fiel e sólida. A carcaça, a máquina a vapor, o corpo ou o irmão burro (como lhe chamava S. Francisco) é tudo o mesmo!
Durante a manhã caminhamos seis horas. Há quem diga que a média são 5 quilómetros por hora. Mas talvez seja mais. Hoje é o dia mais. O céu pejado de nuvens ameaça chuva. Chegamos por fim à Ilha e a um cafezito simpático que no ano passado nos livrara do frio. Abancámos aí. O café está mais acolhedor, mercê dum corta-vento cuja ausência no ano passado tanto lamentámos. Comemos os pães que a prioresa do carmelo de Alhadas nos deu. E comemos também uns frangos de churrasco. E até comíamos mais.
Depois da refeição esticámos as pernas e demais ossos do esqueleto. Há quem durma a sesta e quem alongue as pernas pelas paredes acima. Cada um arranja a estratégia que lhe traga mais conforto.
Custou deveras voltar ao caminho. Mas uma vez ali nada nos deteve. Nem as flores nem as feras.
O percurso da tarde é tão belo quanto o da manhã, mas com mais peregrinos. Vão muitos peregrinos connosco. Uns rezam, outros cantam, outros riem. E todos sofremos. Alguns, que ultrapassámos, já os conhecemos de jornadas anteriores. São breves reencontros, porque logo os passamos e seguimos em frente. Depois do terço vêm os cânticos e depois dos cânticos as histórias e depois destas as confidências. E no fim de tudo o amor. E sempre o amor. Ámen, Jesus. Que aquilo que aqui fazemos não é mais que obsequio Iesu Christi, serviço e seguimento do Mestre.
Foi talvez a jornada em que durante mais tempo caminhámos em grupo. Os pés já não temem a estrada nem o corpo as dores. Por isso vamos. Há concerteza gente em dificuldades, mas como estamos cada vez mais perto ninguém desanima ou se poupa.
Há quem caminhe só, em silêncio, buscando, ao que dizem, respostas a perguntas que só o tempo e a solidão trazem à alma. Há quem caminhe lado a lado, como os de Emaús, mas sempre mantendo o preceito de ouvir o que Ele diz, e «dizer o que Ele diz, mas só o que Ele diz que é para dizer».
Chegamos por fim ao Barracão, fim da nossa terceira jornada. O Barracão foi mais uma vez para nós um zénit e um bom augúrio: quem chega ali chega ao fim.
Rapidamente as carrinhas nos devolvem à Ilha, ao Centro Social e Paroquial. Mais uma vez somos ali bem recebidos pelo pessoal da Casa que nos recebe em nome do Reverendo Pe Nogueira. Ali houve tempo para tudo, até para um dos nossos actores amadores vender sardinha numa canasta sem sardinha. O azar dele foi que o povo tem dinheiro e fome de sardinha, mas como ele não tinha sardinha teve de ter lata para sair airosamente da situação.
Depois de refrescados rezámos Vésperas calmamente e calmamente meditámos mais um trecho da nossa Regra. Após a oração comemos uma sopa opípera, que até aqueles que não gostam de sopa comeram. É certo que não havia mais nada, mas nem era preciso. Sopa gostosa como aquela já não comíamos há um ano, quando ali ficáramos alojados.
A noite só terminou com um longa celebração de partilha e perdão, como manda a Regra, que recomenda que quando necessário se partilhe a vida comunitária e se corrijam as faltas com caridade. Foi um momento cálido, belo e fraterno que uniu muitíssimo o grupo. Como ali se falaram e se choraram as coisas passadas e sofridas no grupo o narrador lança aqui um véu para que apenas se entreveja sem ver o que ali se passou e celebrou.
Vamos dormir, pois. Fomos, pois, dormir. In Obsequio Iesu Christi. Ámen.
Testemunho III - II Peregrinação a Pé a Fátima
Cada passo percorrido foi uma descoberta, cada palavra recitada um reencontro, cada um do grupo uma bênção e na chegada uma grande realização de amor e um encontro comigo mesma.
Obrigado a todos, por estes dois dias magníficos!
Recordáreis-vos sempre!
TERESA ROMEIRO, 35 anos, Alhadas
quarta-feira, 7 de maio de 2008
CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA (III)
Permanecei em mim e eu permanecerei em vós.
São cinco horas da madrugada. É negro lá fora. Não é negro cá dentro. Ouvem-se tun-tuns suaves correndo todas as portas das celas. (Agora já se pode falar de celas, porque os peregrinos já sabem que as celas não são celas.) Os corpos resistem a erguer-se, mas acabam de pé. O meu erguer do esqueleto é um não sei como é: inventei para mim um trejeito de saltimbanco que faria rir o pinheiro mais sisudo. Porém, a coisa resulta: dá para sair da cama, tirar o pijama, lavar a cara, vestir-me e ir até ao refeitório, pondo um pé à frente do outro. É tudo feito quase num só gesto enrolado, feito mais de adivinhas que de saberes. Tudo se queixa no meu corpo. Mas não haverá queixa que impeça o andar com Maria para Jesus. Foi isso que nos propusemos.
Estou a re-aprender a andar. As bolhas supõem uma alteração na equação do equilíbrio e do andar, mas o mais importante é que no fim caminhamos e o caminho lá vai sendo feito. O pequeno-almoço é frugal mas mais que suficiente para o caminho. Dali vamos rezar os Bons Dias ao Senhor e depois caminhar, primeiro em carrinhas que nos devolvem à EN 109 e finalmente a pé.
Entretanto, já bailam dentro de nós as Pistas. Somos convidados a permanecer ao longo do dia. A fazer um acto de presença do Senhor. A estar atentos ao que possa ser sinal da Sua presença: um sorriso, uma mão amiga, uma palavra de incentivo, uma ajuda, um conselho, uma flor que se partilha, um versículo da Bíblia, um raio de sol, uma gota de chuva (houve pelo menos uma!), o passeio que se alarga, o canto ou voo dos passarinhos, os ribeiros, os campos, as pessoas, a manhã fresca ou a tarde quente, um pensamento santo, um voto… Existem tantas coisas que nos falam de Deus! Há tanta maneira de Lhe dizer Eu sei que estás comigo e Tu sabes que quero estar contigo!
Foi óptimo caminhar com a cela do coração desperta para a Presença maior que acordou o dia para nós e animou os nossos passos a caminhar!
Amanhã alonga-se e o caminho também. Aloooooooooonga-se muito, muito, muito mesmo. Mas a verdade é que as rectas da Tocha as comemos como quem come carapauzinhos de escabeche, que, como se sabe, depois de comidos não ficam nem espinhas! Num caminho assim tão longo que parece que atrai a solidão são importantes os carros de apoio, que são três. O sr. Branco repete a função e vai sempre a chamar-nos fraquinhos, «sois uns fraquinhos, vamos lá andar!». Também distribui água e bolachas. A Susana repete também a função. Quando está fora do carro, anda sempre aos saltinhos ou a recolher casacos e camisolas ou a dar água e a mimar. (Também nos ofereceu umas pedras grandes para caminhar, mas acabou a fugir de ter de as carregar ela!) Não me admira que dê saltinhos, o António Pedro, o marido, também caminha a pé. E claro, ela anda mais nervosa, porque a melhor parte dela (Deus me perdoe!) anda a ajudar o Pedro a caminhar! Por fim, também a Verónica nos ajuda. Vai ao volante duma grande carrinha. Não faz o trabalho que mais gosta, mas faz com gosto e com sentido de caridade o trabalho que faz. Não é esta a maneira que mais gosta de peregrinar (prefere caminhar) mas foi ali que Deus pediu que fosse e ela vai! (Embora tenha andado muito pensativa) Faz de tudo um pouco: fala, anima, encoraja, lê, põe música, recolhe informações, sugere alterações, cuida dos mais pequenos, cuida dos grandes, organiza os carros de apoio. E no fim, com gosto e a fazer caretas que assustam as bolhas, faz de fura-bolhas. Ainda hoje nos meus sonhos a vejo vestida de D. Quixote Fura Bolhas com a lança em riste! É a melhor fura-bolhas que conheço: vê uma e zás!, vê outra e zás, zás-pás-trás!, atravessa-as com a agulha dum ao outro lado. Quando nós guinchamos já ela furou a quarta e a quinta. A furar bolhas bate mais recordes que D. Quixote a combater moinhos! (E este é um trabalho que ninguém gosta de fazer. A coisa é de tal modo que quando vimos uma bolha botámos logo a fugir! Somos uns mariquinhas porque sabemos que elas nos podem perseguir! E porque o podem nem armados de agulha e linha as conseguimos encarar! Mas a Verónica, não! Zás, zás, zás, zás e zás! Quando damos conta já ela atou com a mesma linha 15 pés de 12 pessoas diferentes, depois de ter furado 144 bolhas!)
Chegamos por fim a Ervedal com uma hora de avanço. O Restaurante está no mesmo sítio e promete a mesma carne grelhada de há um ano! Comeremos com a mesma sadia vontade que temos quando comemos caminhos.
As Alhadas estão ali a dez ou doze quilómetros, mas ninguém quer lá chegar desfalecido. Por isso, abençoamos a refeição e comemos. E repousamos.
Estávamos postos em ledo post-prandium quando o sorriso da Alice Montargil nos surpreende e assalta. Vem passar revista às tropas, ela que é quem mais tempo leva de jovem carmelita! Vem também para partilhar connosco um café e o que falta do caminho. Já conhece muitos dos peregrinos e muitos outros não. Mas ficará a conhecer. Entretanto, o sol descobriu-se e está muito calor. O que vale é que haverá muitos pinheiros pelas veredas e a sombra promete ser caridosa connosco. Além disso vamos rezar o Terço, que será sempre a parte melhor do caminho. Mais uma vez será.
Na placa de S. Amaro da Amoreira não resistimos e tiramos uma foto.
Chegados às Alhadas homenageamos as padeiras (deve haver algures uma foto como prova).
As portas da Igreja de S. Pedro das Alhadas estão fechadas e ainda não foi desta que fomos conhecer o Padroeiro. Subimos, pois, mais um pouco e parámos junto ás portas do Centro Social Água Viva. Está ali um magote de velhinhos que não sabe se rir se chorar. É que vamos chegando às pinguinhas, umas pinguinhas renitentes, cansadas e suadas, que não dá gosto nem ver. Os trejeitos dão para rir, as dores que se vêm dão para chorar. Mas julgo ler nas suas caras um desejo de amanhã partir connosco, nem que seja de cadeira de rodas.
Quando alcançamos juntar a tropa as meninas vão para o carmelo da Alice Montargil e os rapazes ficam-se pelo Centro. Havemos de nos reunir mais tarde para nova sessão de fura bolhas, para o jantar sempre sereno, alegre e familiar com os nossos amigos de Alhadas, para celebrarmos a Eucaristia e para o debate final sobre as presenças diversas de Deus no caminho.
Tragamos o jantar num piscar de olhos e logo nos vimos a celebrar a Eucaristia. Havia ali amigos e amigas de comunidades várias, que já nos conhecem doutras carminhadas. Conheceram-nos aqui e além e acham que somos um vírus. Não dizem se benigno, mas ao que parece a coisa não está para passar. Gostam de nos ver, de cantar e rezar connosco. O vírus pegou e tardará em sair. Reclamam que vamos mais além, que rompamos fronteiras. Reclamam e a ver o que se verá.
Na Eucaristia estão quatro jovens peregrinos de Alhadas que carminharão connosco amanhã e no decorrer da mesma chegarão três outros jovens peregrinos. Estes trazem com eles uma história engraçada: vêm a caminhar há largas horas, com o sistema de GPS ligado. Ao chegar a Alhadas resolvem seguir a intuição e não o GPS. Assim, quando ele recomenda virar à direita seguirão em frente. Ou ao contrário. Chegarão, sãos e salvos, à Eucaristia, depois de percorrer as tortuosas ruas da povoação. E em jeito de confidência dirão: «O GPS estava errado, por isso decidimos seguir a Estrela!» Seguiram? Parece que sim. O certo é que chegaram a tempo de receber a pedra com que amanhã terão de carregar no bolso ou na mochila.
CRÓNICA DUMA PEREGRINAÇÃO ANUNCIADA (II)
Que palavras são essas que trocais entre vós?
À hora em ponto uns suaves tun-tuns nas portas dos quartos recordavam-nos que estávamos na hora certa para erguer o esqueleto. Os mais ansiosos levantaram-se logo, os mais acomodados deram ainda volta e meia no saco-cama. Mas não havia nada a fazer. Começara a marcha! Já nada a podia deter! Observado o tempo com olho de áugure logo deu para entender que nem o tempo nos deteria.
Arrumamos os quartos, enfiamos os sacos, limpamos as migalhas do pequeno-almoço. E reunimo-nos de novo na Sala dos Claustros para a Oração de bênção do Peregrino. Logo depois com a voz embargada e com os pés decididos fomos para a estrada.
Alguns amigos despediram-se de nós.
Saímos mais cedo uma hora que no ano passado. E ainda assim encontrámos alguns conhecidos que, despertos, nos saudaram:
- Aonde vão?
- Vamos para Fátima!
– Então, que Deus vos acompanhe.
E seguimos. E parámos. Tínhamos criado para esta peregrinação uma actividade nova. Chamava-se Pistas. As Pistas são um despertar para algum pormenor do caminho ou do dia. São uma tentativa de sublinhar algum aspecto a ter em conta. São uma catequese, uma formação ou oração. Enfim, um plus daquele dia. As Pistas do primeiro dia tinham a ver com o tema desse dia: «Que palavras são essas que trocais entre vós?». Ou seja, urgia trocar palavras entre nós. Sobretudo com os menos conhecidos de nós. Dizer e compartilhar as palavras e sentimentos que nos aqueciam (ou arrefeciam) o coração. Palavras que Ele, caminhante connosco, pudesse escutar, acalentar, reforçar. Ouve, assim, ao longo de toda a manhã e de quase toda a tarde um longo momento de parlapiê cheio de alegria e de diálogo.
Continuamos o caminho. Não há tempo a perder. Não há tempo para ter medo da chuva. Continuamos no parlapiê, agora com outros amigos porque o reajuntamento permitiu, entretanto, trocar de parceiros de caminho.
Ao fim da manhã chegamos a Santo André de Vagos, ao mesmo restaurante que nos recebera na primeira peregrinação. Já ali somos conhecidos. E, parece até, esperados. A senhora, bastante jovem, atende-nos com respeito e prontidão.
Começámos refeitos e ligeiros a segunda etapa do dia. Há já algumas queixas, mas muito bom humor. Percorremos algum tempo a palrar até que chegam as rectas de Calvão. Ali formamos para rezar o Terço. É o melhor momento do dia. Caminha-se a rezar, em conjunto, calmamente, com Jesus e Maria. (A meio da recitação do Terço dá-se uma aparição: A Nininha, que é filha da Nina, aparece-lhe e o coração da mãe derrete-se. O corpo, ou melhor, tudo, o corpo, a alma e o espírito maternos dão um salto, saltam ave-marias e padre nossos e as linhas da estrada, e os braços estreitam a filha no peito. A mãe chora. A filha chora. Mas nenhuma sabe porque chora. Porque afinal, Fátima é já ali!)
Quando termina o Terço algum dos caloiros quer rezar mais, por que é bom caminhar assim. Mas não dá. Não haja dúvida que é bom, mas a prudência recomenda que se acelere o passo. E aceleramos o passo. Pelo menos os que podem aceleram o passo. Havemos de chegar todos ao fim da etapa do primeiro dia. Um dos peregrinos chega de carro à meta com palavras de choro, angústia e desilusão. «O sistema bloqueou!», diz. Quer desistir, porque não consegue dar um passo. Acaba aceitando passar pelo hospital, em Aveiro, onde o aguarda uma equipa de retaguarda. Demora-se pouco tempo no hospital. Os médicos vêm o sistema e encontram tudo bem. Devolvem-no à procedência recomendando prudência mas não impedindo a caminhada a pé.
Entretanto, fomos muito bem recebidos na Casa da Sagrada Família da Nazaré. Há uma festa à porta, porque na região o primeiro de Maio é celebrado no campo: o povo quer o cheiro a erva fresca e a flores, o cantar dos passarinhos e do vento.
Tomámos banho, refrescámo-nos e a Delfina fura-nos as bolhas. Há uma caloira que promete um filme por cada bolha furada. A primeira deu um filme cómico único. Quem viu viu, quem não viu visse! Infelizmente não furará mais bolhas. Preferirá caminhar três dias em cima das bolhas que furá-las. É assim mesmo heroína!
Um regalo foi também o recreio com canções de todos os tops. A Nina fez de disc-jokey e começou todos os hits. Não escapou um! Ainda deu para dançar a dança do pé-coxinho, que é mais sugerida pelas dores das bolhas furadas e pelos músculos doridos que pelo jeito para a dança.
Terminamos o dia com a oração da noite, mas não sem antes nos dizermos compartilhando longamente as palavras que trocámos entre nós, que nos animaram, que não nos deixaram desistir. E surgiram ali tantas palavras belas, tantas palavras doces e animosas, palavras que são mais Deus que dos homens!
Por fim era já tarde e os corpos reclamavam descanso. Tínhamos cinco horas de descanso pela frente. Havia que aproveitar a presença dos Anjos que nos convidavam a dormir.
E fomos dormir.