segunda-feira, 28 de junho de 2010

O poema de Deus

No último dos cadernos publicados, José Saramago escreveu: “Os ateus são muito capazes de aventurar-se pelos escabrosos caminhos da teologia.” Esperemos que existam também teólogos capazes de aventurar-se pelos caminhos escabrosos de uma literatura que, no limite, não desiste de ser desconstrução e construção do poema de Deus.
José Tolentino Mendonça
Texto completo em SNPC

CRONICAZ de um Perigri, letra V





«VOU OFERECER-ME AO CARMO.»
A primeira frase do Ven. Eugénio Maria, para o primeiro encontro do primeiro dia do nosso guião. Vou oferecer-me ao Carmo. Também eu nesta Peregri renovei o meu oferecimento ao Carmo e pelo Carmo à Igreja. O movimento d’alma do P. Eugénio Maria foi o meu. Foi o nosso. Saibam os que isto lerem que as Peregris do Carmo Jovem são pelo Carmo, para o Carmo. Todos nos oferecemos ao Carmo: o nosso suor e dores, as ânsias de perfeição e de busca, a nossa entrega é ao Carmo.
Fica registado no fim, mas é desde o princípio.

Frei João Costa


CRONICAZ de um Perigri, letra T





TERÇO
A hora mais bonita e mais querida da Peregri é a do Terço. Ninguém falha, todos rezamos. Em família. É sem dúvida a hora mais amada. A hora por que todos anseiam. A que ninguém esquece. É a hora que meditando os mistérios de Cristo nos fazemos mais homens e mais mulheres. A hora em que comungamos mais a natureza. Haja o que houver por ali: casas ou cafés, farmácias ou oficinas, paragens do autocarro ou garagens, caminhos ou fontes, escolas ou pinheiros, haja o que por ali houver nós rezamos o Terço.
É uma hora bem meditada, bem rezada. Bem passada. Por alguma razão todos a amam mais que qualquer outra.

CRONICAZ de um Perigri, letra S





SANTUÁRIO
Não me canso de dizer que o caminho é duro. Fica a ideia: alguém no último dia caminhava tão cansado que leu Santuário onde estava sanitários! E vai de virar. Coisas. Mas a verdade é que o fito que nos movia era mesmo o de chegar ao Santuário de Fátima.
Os momentos no Santuário foram únicos. Ali entrámos em procissão, mas a Missa que começava na Capelinha impediu que depositássemos as espigas. Regressámos à noite para completar o incompleto. E para, enfronhados nos saco-cama, rezarmos o Terço e acompanharmos a Procissão de Velas. Ainda houve quem por lá se perdesse calmamente em meditação. São horas belas as que por lá se passam.



SILÊNCIO
Uma peregrinação não tem de ser uma coisa ruidosa. Mas por vezes é e ainda bem. E é também uma excelente oportunidade para o encontro connosco próprios. São várias as horas que passamos sozinhos. Há muito ruído à volta? Há. Mas é impossível não ouvir os passarinhos, tantos passarinhos. Tanto que parecem ter-se reunido em coro para nos saudar.
É impossível não nos adentrarmos interiormente, profundamente, calmamente, silenciosamente.
Há quilómetros e quilómetros. Em alguns caminha-se em grupo, noutros separadamente. Cada momento da etapa tem o seu andamento. E quantas vezes por aí vamos nós caminhando como se não existisse mundo nem pés nem caminho! E aí vamos pensando na Vida. Em silêncio. Nós connosco. Nós e Deus que nos olha. Em silêncio. Em paz que se vai conquistando passo a passo.

CRONICAZ de um Perigri, letra R





RAQUEL
Chamávamos-lhe Verónica. Tem agora outro nome, Raquel. Há quem sublinhe muito a sua falta e de facto as coisas no Carmo Jovem são diferentes sem ela. Mas mais que nunca ela nos ajuda a caminhar, mesmo se fisicamente já não caminha connosco. E se há em relação a ela algum sentimento comum é o de que seja feliz e nos dê testemunho dessa fidelidade.




RICARDO
Faz-nos falta como a Raquel. Mas o que todos querem é vê-los fiéis e felizes. E se forem felizes nós seremos fiéis! Sempre lembrados nas nossas orações sabemos que não nos esquecem, e é também por eles que nós caminhamos. Andavam sempre juntos, agora aprecem ainda mais juntos.

CRONICAZ de um Perigri, letra Q





«QUERO VER A DEUS.»
Não é essa a ânsia que faz correr os peregrinos? É. E é essa ânsia que nos fará viver o próximo ano e depois regressar ao caminho. É isso que queremos.


CRONICAZ de um Perigri, letra P





PAIS
As três peregrinações anteriores tiraram-nos de casa no Dia da Mãe. Era sempre uma pena. Aliás, é sempre uma pena não trazer os pais. A alguns custa mesmo muito. Mas nunca são esquecidos. Eles, os irmãos, os amigos, os que nos ajudam, os colegas. Desta vez trouxemos com particular afecto os pais da Raquel.


PALMAS
À chegada somos todos heróis. Todos merecemos palmas. Só um de nós passou pelo carro de apoio e nele não deve ter ido mais meio quilómetro. Todos as merecemos, portanto.
Conforme a tradição a última etapa termina na Rotunda do Peregrino. Depois dum refresco e das palmas e abraços que todos merecemos, de t-shirt bem posta, lá vamos em direcção à Capelinha onde encerramos a Peregrinação. Palmas, pois, para todos. Para o ano há mais palmas.



PÉS
Há quem julgue que o segredo são os pés, mas julgo não o serem. Mas são como um baluarte inexpugnável. São os pés que se firmam nos caminhos, são eles que nos levam, que nos fazem voar. Levam o peso todo em cima, sofrem todo o calor do alcatrão. São quem mais sofre, julgo eu. São também quem mais reza. São mesmo crucificados, por isso merecem todos os cuidados e atenções.

sábado, 26 de junho de 2010

DOMINGO XIII DO TEMPO COMUM

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação. Pelo caminho, alguém disse a Jesus: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus». [Lc 9, 51-62]

sexta-feira, 25 de junho de 2010

CRONICAZ de um Perigri, letra O





«O ESPÍRITO SANTO NÃO NOS ABANDONA.»
Foi a frase que presidiu ao quarto dia. Visto que peregrinar não é fácil, é sempre bom ter consciência de que a nossa força não somos nós. De que em nós vive Quem nunca nos abandona. De que sempre podemos recorrer a Ele. Há horas difíceis? Há. O Espírito do Ressuscitado é de fortaleza e está sempre connosco para que não paremos de caminhar o caminho da perfeição. E assim foi.



ORAÇÃO
É uma das marcas da Peregri. Ainda o dia não é dia, quer dizer, não é luz, já nós estamos levantados e de malas e maletas aviadas e com corda nos sapatos. Mas não começamos a andar sem rezar. À noite, o mesmo. Quando tudo está refrescado e pronto, antes do descanso, damos tempo à oração em grupo. Ninguém falta.
As horas de solidão também são muitas. São muitas as horas em que caminhamos sozinhos. São horas boas de introspecção. Horas que todos gostamos. O que se reza cada um sabe. Uns rezam rezando, outros caminhando, alguns cantando. Cada um fala ao seu jeito, sei que assim é pelos testemunhos esparsos e discretos que surgem ora aqui ora ali.
Mas a peregrinação é toda ela uma oração. Peregrinar é rezar. Outra forma de rezar. Dos pés à cabeça tudo reza. Sim, as bolhas também ajudam a rezar. Sim, não criar bolhas é ainda rezar. Os montes e ribeiros, as searas e os passarinhos, as gentes e os automóveis, os caminhos, as estradas, o calor e o frio, o silêncio e o ruído, o nascer e o pôr do sol são rezar, ajudam a rezar.
Quando vamos alegres, cantamos; quando vamos cansados, rezamos. Sei de quem para vencer a dureza do caminho reza. Sei de quem rezou e chegou ao fim sem perceber. A oração adianta o caminho e apressa as horas, ou retarda o tempo aos que vão frescos e gostam de caminhar. A oração é como o paladar. Sim rezamos, que para isto é a oração: para que nasçam mais obras, mais ânimo para o caminho.

CRONICAZ de um Perigri, letra N





NUNO
(Vai perdoar-nos que chamemos assim, simplesmente Nuno!) Dele se pode dizer o que os Evangelhos dizem da Virgem Maria: «Guarda tudo no seu coração». Este ano falou um poucochinho mais. Já há apostas: a que mais votos leva diz que é por ter vindo visitar-nos ao AAAcampáki.


CRONICAZ de um Perigri, letra M




MADRINHA
Só temos uma. Não queremos outra. É sábia, é espiritual. É simples, disponível, Carmelita, enfim. Nela se cumpre o Evangelho. Muitas palavras do Evangelho lhe caem bem. Tantas medita, que, quem por ela passa, algo de bondoso pode colher nem que seja um singelo copo de água fresca.
Ela que já não é nova a mim me contou que no fim lhe tocou o melhor vinho, como em Caná da Galileia. Se assim é e se o bom vinho é o Carmo Jovem, deixe que lhe diga: ó responsabilidade que acaba de nos lançar para os ombros!
As raparigas dizem que se dorme bem em casa da Madrinha. Não duvido. Ao que depois elas caminham!
Estou certo que o exemplo move. O seu exemplo de mulher toca as nossas mulheres e a mim também.

MARGARIDA E INÊS
São o futuro. Uma é Marta, outra Maria. Uma contemplativa, outra activa. São meninas de nove e onze anos. A Gotinha tem futuro. Já vestiram a camisola e levaram a faixa para casa. Já querem saber quando serão convocadas de novo. Sê-lo-ão, sê-lo-ão. Queremos que venham, precisamos que venham. Agora que trazem a Gotinha no coração, queremos que aprendam a carminhar connosco.



MARIA
É para a casa dela que caminhamos, é à escola dela que vamos. Porque sabemos que a Mãe nos quer ele para nos levar ao Pai.
E o regresso diz bem aonde acabamos de chegar, donde acabamos de zarpar.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

CRONICAZ de um Perigri, letra L



LIXO
É uma das presenças mais presentes no caminho dos peregrinos. É impressionante o lixo que os próprios fazem. Somos um lixo de país. Eu também contribuí com uma tampinha que me caiu na subida de Santa Catarina. Não a apanhei porque não pude, julguei que morria e não quis atrapalhar quem comigo caminhava. Penitencio-me por isso. São os tais erros ou defeitos que todos temos.
A verdade é que o caminho cheio de plásticos velhos é muito feio. Não ajuda nada a carminhar. Não se passou isso connosco. No fundo do carro do António Branco estavam todas as garrafas que bebemos, e na carrinha do Zé todas as tampinhas (as garrafas punha-as ele zelosamente nos plasticões).
A peregrinação tem de ser completa. Para quando uma peregrinação da beleza que não fira nem suje a natureza?






LÚCIA, IRMÃ
Quem diria? Gosta mesmo de nós. Não perde uma para caminhar connosco. Quanto lhe agradecemos! O Carmo Jovem também gosta muito dela. E então, desde que ela se deixou fotografar com o nosso lenço e o nosso pin, ainda mais!
Sabedora da nossa Peregri, fez-se presente com uma Carta que o Carmelo de Coimbra delicadamente nos escreveu. Foi uma carta bem longa que escutamos em silêncio. Por ser tão longa não foi logo bem digerida, mas vamos dá-la a todos para que todos a leiam e re-escutem a mensagem e lhes custe menos o carminhar.
Muito obrigado, Irmã Lúcia.


CRONICAZ de um Perigri, letra G




GOTINHA
O Carmo Jovem é uma pequena Gotinha no oceano. Sabemos isso e não é isso que nos assusta. Somos tão pequeninos que os primeiros raios de luz do dia nos secam como se seca o orvalho da manhã. Mas depois reverdecemos, vem a noite e ressurgimos. Refrescamo-nos. E eis-nos a caminho. Em quinze anos de história já vi a Gotinha renascer muitas vezes. E em Fátima ela renasceu mais uma vez. Mais uma vez me alegrei. O bom Deus ama a Gotinha e por isso a renova e com ela as nossas forças.
Mais uma vez eu vi a Gotinha renascer. A crescer.


terça-feira, 22 de junho de 2010

CRONICAZ de um Perigri, letra F




FAIXA
A faixa do Carmo Jovem é inseparável do look dos peregris. Não é que seja grande coisa, é um sinalzinho que nos identifica. Caminhemos à frente ou atrás, separados ou em conjunto, somos Carmo Jovem. É entregue na Bênção do Peregrino e deve ser guardada e defendida não só durante mas também depois da peregrinação. Bem à vista ela fala o que somos. Somos gente com coração que ama o Carmo em Movimento. A faixa diz isso e mais, e é verdade. É verdade que há movimento: muito de pés, mas muito mais no interior.
A Beatriz também recebeu uma, mas já reclamou uma faixa mesmo, não um lençol. A ver vamos.



FAMÍLIA
Deve ser do caminho ou então das dores. O caminho distende-nos, mas não nos separa. As dores doem-nos e todos se condoem. O caminho é duro, mas é sempre menos duro para alguém que tem uma réstia de força para ajudar os mais fracos ou desanimados. Somos uma família. Há algo que nos une. O António Branco é o mais velho do plantel. Tem filhos entre os peregrinos e até uma neta. No fim, ele diz sem vergonha que para onde olha vê um filho e que os não distingue. Os da casa não são menos que os de fora. Somos todos filhos, somos todos família. É isso que se sente, é este calor que conforta, cura e anima. É esta a marca do Carmo Jovem, e tanto assim é que não se esqueceram os ausentes, os que não puderam vir, os que tomaram outro rumo, os que nos foram encomendados. E por uns dias os laços apertaram ainda mais.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

CRONICAZ de um Perigri, letra E


ERROS Há erros há. Como em tudo que mete homem ou mulher. Uns custam mais que outros, mas ainda assim são raros; ou melhor foram raros nesta peregrinação. Ninguém está isento deles, é claro. Mas tudo se perdoa com um abraço ou um sorriso. Tudo se esquece, porque o importante é chegar ao fim. Na próxima peregrinação só quero quem erre, porque os que não erram são anjos e andam a voar…



ESPIGA
Junho é o mês das searas. Bonito foi vê-las sobretudo dum lado e outro da Estrada da Guia. Muitas estavam já colhidas, as restantes loiras. Como iniciámos a Peregrinação em dia do Corpo de Deus a cada um de nós foi-nos entregue um espiga. Tinha uma particularidade: não tinha grão. E tinha um objectivo: depô-la aos pés da Mãe. Se não tinha grão ficou-nos uma intenção: cuidá-la e chegar com ela ao Santuário, deixá-la simbolicamente em nome de cada um, e visto que grão não tinha todos desejávamos que a nossa vida se enchesse, a fim de que vazia não a depuséssemos junto da Mãe. E assim foi. E assim se fez.



ESPÍRITO SANTO
Ao longo do Ano as nossas actividades sempre foram patrocinadas por um sacerdote já canonizado ou em vias, e sempre fomos rezando pelo do lugar. Quem nos deu a frase para a quarta Peregri foi o Ven. Eugénio Maria do Menino Jesus, Carmelita Descalço francês, falecido na década de sessenta do século passado. Escreveu ele: «O Espírito Santo alegra-se de estar connosco», o que em linguajar se lê: «O Espírito Santo alegra-se de carminhar connosco». E estava dito. E de facto o Espírito Santo andou sempre connosco, e tanto andou que sempre chegámos com mais duma hora de antecedência às respectivas metas. É caso para dizer: o Espírito Santo dá-te asas. E é que dá mesmo!

EUGÉNIO MARIA
O Venerável Eugénio Maria do Menino Jesus, sacerdote carmelita francês, 1894 – 1967, foi o padroeiro da nossa peregrinação. Pouco conhecido em Portugal já ouvi dizer que é um grande santo. Pois é, eu sei. Conheceu o Carmo e a ele se entregou depois de ler São João da Cruz. Viveu entregue à graça de Deus. E ensinou a viver só para Deus, totalmente aberto a Deus. Foi bem escolhido como modelo de confiança.




«EU QUERO O ABSOLUTO.»
Esta foi a frase inspiradora do terceiro dia da nossa peregrinação. É do Venerável Eugénio Maria. Ser peregrino é isso: não lhe chegar o quotidiano, o habitual. Querer o Absoluto obriga a sair de si e da sua família, obriga a abrir para Deus, o único absoluto que sacia a sede de quem ousa ter mais sede que a sede dos dias habituais. Eu quero, nós queremos o Absoluto e nada menos que o Absoluto nos consola!