sábado, 11 de dezembro de 2010

DOMINGO III DO ADVENTO


Naquele tempo, João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: «És Tu Aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – é mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele». [Mt 11, 2-11]

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Santa Teresa de Jesus - Cap.8

VIII

O SONHO DE TERESA

Na ampulheta do tempo vão deslizando continuamente, sem interrupção, pequeninos grãos de areia; são os dias, os meses, os anos da existência humana; a roda do tempo avança implacavelmente, e com ela a preciosa vida da filha do finado D. Alonso. É religiosa professa no mosteiro de Carmelitas Calçadas de Nossa Senhora da Encarnação, em Ávila, terra da sua naturalidade, sendo tida na conta das mais fervorosas. Até à realização de seu sonho dourado, a Reforma da sua Ordem, com a fundação do convento de Carmelitas Descalças de S. José, naquela cidade, Teresa teve de escalar a íngreme encosta da perfeição, passando pela via purgativa, iluminativa e unitiva, ocupando progressivamente, uma a uma, todas as moradas do célebre Castelo Interior.

Nos primeiros anos serviu, ao mesmo tempo, dois senhores: Deus e o mundo, esforçando-se por lhes ser agradável, com grande horror do pecado mortal, é certo, mas com algo de imperfeição, ainda que soubesse ser isso uma insubmissão da parte das almas que professam vida de perfeição. O que lucrava na oração, perdia-o logo no trato com o mundo; o que aqui perdia, ia logo reavê-lo nos momentos que consagrava à meditação. Há 28 anos que me conservo fiel a este exercício, diz Santa Teresa na autobiografia, e durante 18 sustentei esta batalha de tratar ao mesmo tempo com Deus e com o mundo.

Nesta altura da sua vida, muito ajudou a Teresa de Ahumada o seu confessor P. Fr. Vicente Barron, da Ordem de S. Domingos, confessor do seu saudoso pai, aconselhando-a a que fosse à Comunhão amiudadas vezes e que nunca abandonasse a oração.

Durante longos anos, mesmo antes de ser freira, quando ia deitar-se, meditava uns instantes na agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, fazendo por ficar adormecida na consideração deste passo da Paixão do Senhor. Dizia bem de toda a gente, aborrecia naturalmente o fingimento e a hipocrisia, detestava a mentira, primava pela lhaneza do trato, conquistando deste modo as vontades de todos quantos com ela tinham a dita de conviver. Atraía-a irresistivelmente a solidão e não era difícil encontrar D. Teresa à procura de um sítio retirado para aproveitar melhor alguns momentos na leitura de livros espirituais, especialmente das Confissões de Santo Agostinho.

Como noutras épocas da sua vida, o Terceiro Abecedário, agora são as Confissões do santo bispo de Hipona que lhe afervoram o espírito, ficando por isso muito devota e afeiçoada a este glorioso santo, cuja conversão queria imitar. Por aqui se pode ver que não era tão ruim e eivada de imperfeições a vida de Santa Teresa, como ela se esforça por pintar na sua autobiografia, modelo de sinceridade e humildade.

Amizades, um pouco de conversa a mais no locutório, alguns apegozitos... que lhe custavam muito a deixar e que impediam a águia do seu anseio de subir, ascender, voar... Eram estes os grandes pecados e ruindades que ela tanto exagera. Deus, porém, que a queria perfeita e sem mancha, procurava atraí-la a Si por todos os meios. E, assim, um dia quis mostrar-lhe o inferno, isto é, o lugar que lhe estaria reservado, se fosse inteiramente infiel à Sua graça. Outro dia apareceu-lhe, num sítio onde não era natural encontrar-se, um bicho, feio como um sapo, imagem viva do pecado mortal, que ainda podia vir sujar-lhe a alma. O que, porém, mais sensivelmente a comoveu foi, sem dúvida, a contemplação duma devota imagem do Ecce Homo, que estava guardada no oratório particular do convento, para realizar uma festa em Sua honra. Conta a Santa que ficara comovida até às lágrimas e debulhada em pranto, ao ver assim o Senhor todo feito uma chaga por causa dela. Sob a influência deste duplo sentimento de compaixão do Senhor e de arrependimento dos seus pecados, caíra de joelhos aos pés daquela imagem, suplicando-Lhe que lhe perdoasse e lhe desse forças para nunca mais tornar a ser-Lhe infiel. Creio bem, continua Teresa28, que tirei algum proveito desta súplica; a partir desse dia, comecei a melhorar notavelmente.

Isto é o que a Doutora Mística chama a sua conversão... E foi-o até para uma vida mais perfeita e divina, porque, no futuro, só tratou de se consagrar inteiramente e sem reservas a Deus, esquivando-se, tanto quanto possível, ao mundo. Andava sempre ocupada nesta árdua tarefa de despegar-se de coisas e criaturas, mesmo com o coração a sangrar.

Passaram alguns anos, muitos mesmo, até que em 1558 consultou sobre o que de extraordinário se passava na intimidade da sua alma com o P. João de Prádanos, da Companhia de Jesus que, com muito jeito e brandura a elevou a um grau mais subido de perfeição, fazendo-lhe ver que para de todo contentar o Senhor, era preciso não deixar nada por fazer. Todavia, Teresa, que não tinha ainda quebrado todos os fios que a ligavam ao mundo, teimava em não abandonar certas amizades, visto com elas não ofender Nosso Senhor, conforme lhe asseguravam os confessores. Entretanto, para se conhecer, nesta emergência, qual a vontade de Deus, disse-lhe aquele Padre, a quem se confessava, que se encomendasse durante alguns dias ao Senhor, rezando com toda a devoção aquele hino da liturgia do Pentecostes: Veni, Creator, Spiritus. Ora, um dia em que ela o fazia, teve o primeiro arroubamento, provavelmente no mesmo ano de 1558. Foi então que ouviu claramente estas palavras: já não quero que tenhas mais conversas com homens, mas só com anjos.


*
Inicia-se aqui um novo período ou fase na vida de Santa Teresa: desde a primeira fala de Deus até ver realizado o seu sonho, com a inauguração da vida carmelita descalça, no mosteiro de S. José (1558-1562).

Uma vista de olhos sobre os capítulos mais importantes da sua autobiografia leva-nos a verificar que ficou assinalado este período da sua vida pela contínua comunicação de Cristo, Senhor Nosso, com esta alma de eleição, estruturalmente humilde e grande, escolhida para reformar o Carmelo, devolvendo-lhe o antigo esplendor. Nestes quatro anos, dir-se-ia que Jesus Cristo preparou a alma desta Sua dilecta esposa para o grande empreendimento da Reforma da Ordem Carmelita, por meio de falas, visões, êxtases, revelações e outras graças sobrenaturais, que ela explica tecnicamente, como Doutora Mística, com os termos mais apropriados, no livro admirável da sua autobiografia.

Jesus, Senhor Nosso, aparecia-lhe na Santíssima Humanidade, falava-lhe, tomava-lhe a cruz do terço com que a Santa rezava, devolvendo-lha, um dia, cravejada com quatro brilhantíssimos diamantes, em recompensa do acto heróico de obediência aos seus confessores que, ora lhe proibiam a comunhão para a experimentarem, ora lhe mandavam que espantasse a visão celeste com água benta ou por meio de uma cruz, o que ela fazia, ainda que soubesse com toda a certeza ser Nosso Senhor Jesus Cristo Quem lhe aparecia. Era ordinariamente na Santa Missa, depois da Sagrada Comunhão, ou durante a meditação, que Cristo, Senhor Nosso, Se mostrava a Teresa, escolhendo para isso as festas dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, Nossa Senhora da Assunção, Corpus Christi, dias da Semana Santa, Santíssima Trindade, etc.

Convém, porém, fixar que estas visões não eram corporais, senão imaginárias ou intelectuais, isto é, Santa Teresa não via Jesus Cristo com os sentidos corporais, com os olhos do corpo, mas com os olhos da alma. Cristo apresentava-Se a Sua dilecta esposa, ora na fantasia, ora no entendimento, como ela própria conta.

Os efeitos maravilhosos que estas graças extraordinárias produziam no espírito de Teresa não podiam ser melhores. Ficava toda fora de si e intimamente unida a Nosso Senhor, alheia ao que se passava à sua volta, enlevada, ardendo em divina caridade, em ânsia de sofrimentos, a ponto de dizer: ou padecer ou morrer, com a mais plena segurança de que era Deus que lhe falava, cheia de coragem para lutar e vencer, forte, enfim, com a fortaleza de Deus, especialmente quando da transverberação do seu coração pelo serafim, graça esta que ela própria conta, com toda a humildade, em obediência ao seu director espiritual.

Nunca alguém viu um anjo atravessar-lhe o coração com um dardo de ouro, em brasa; isto Deus reservou-o para Sua fiel esposa Santa Teresa. Hoje parece já fora de dúvida que Deus a regalou com essa graça sobrenatural da transverberação por mais de uma vez, sendo a primeira, provavelmente, por volta do ano de 1562, no mosteiro da Encarnação, e outra, como atesta D. Maria Pinel, cronista deste convento, de 1571 a 1574, quando prioresa do dito mosteiro. Não é fora de propósito notar aqui que um dos sofrimentos morais mais terríveis que Santa. Teresa teve de suportar neste mundo foi manifestar aos confessores tudo o que de sobrenatural se passava no interior da sua alma. Confessa ela ingenuamente que preferia ser enterrada com vida do que contar todas estas coisas extraordinárias a seu confessor; e todavia, para não se deixar iludir pelo demónio, lá ia D. Teresa de Ahumada com toda a humildade abrir-se aos representantes de Deus, de quem queria fossem conhecidos até os mínimos movimentos.




*
Preparada assim sua alma de eleição e o seu acrisolado coração com este cortejo de virtudes e dons celestes, resolveu D. Teresa de Ahumada, depois de muito encomendá-lo a N. Senhor e de repetidas consultas a teólogos e letrados, meter ombros ao empreendimento de dar realização prática ao seu sonho dourado: a Reforma da sua Ordem, embora soubesse que havia de ser ela manancial de desgostos e dissabores. E, como não lançar-se a levar a cabo esta magna empresa, para maior glória de Deus, se a Santa Madre Teresa de Jesus, como atesta o bispo de Ávila, D. Álvaro de Mendoza, quando falava em Nosso Senhor, o fazia com um amor e um fervor tão grandes que os comunicava a quem a ouvia, tendo-se por certo que o próprio Espírito Santo iluminava aquela alma? A ideia da fundação dum mosteiro de Carmelitas Descalças nasceu no espírito da Santa Madre por ocasião duma conversa que tiveram, um dia, na cela de D. Teresa de Ahumada, algumas freiras daquele mosteiro da Encarnação, suas parentes, como se dirá no capítulo seguinte.

[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

XVI CaRminhada - Braga - 11 DEZ´10

Vem também tu por este caRminho!

Marca a tua pegada

na Gotinha do Carmo Jovem!




sábado, 4 de dezembro de 2010

DOMINGO II DO ADVENTO


Naqueles dias, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu baptizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem a pá na sua mão: há-de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga». [Mt 3, 1-12]

XVII HOREB-Sinfonia em Ré Maior














Mais notícias sobre as caçarolas:

XVII HOREB - As caçarolas cantam, tocam e rezam!


No passado fim-de-semana, 27/28Nov’10, decorreu na Casa da Sagrada Família da Praia de Mira mais um HOREB. Já lá vão dezassete anos de encontros anuais dos Jovens Carmelitas.
“O Senhor anda entre as caçarolas!”
Este era o lema deste XVIII encontro de jovens Carmelitas que mais uma vez se encontraram para aprender, conviver, rezar e, desta vez, para cantar…cantar muito (rezando)!
Éramos vinte e oito vindos de várias terras (Alhadas, Avessadas, Aveiro, Caíde de Rei, Moinhos da Gândara, Viana do Castelo e Ávila), todos com datas de nascimento do Séc. XVI, (tal como a nossa anfitriã: Santa Teresa de Jesus).
Sim, este ano tivemos um encontro especialmente diferente dos outros em que participei, visto que foi um HOREB musical. Aprofundámos conhecimentos sobre Santa Teresa de Jesus através de pequenos excertos de seus escritos, que reflectimos cantando.
Cantámos, cantámos, cantámos, tocámos também!
Sim, que alguns houve (Rui, Zé, Bruno, Maria, Cristiana e pouco mais!) que perceberam as explicações da pauta do nosso maestro: Frei João Rego. Durante o fim de semana fomos orientados musicalmente por este jovem, como nós, que após ter experienciado o seu dom musical ensinando alunos, decidiu entregar-se á Família (Ordem) Carmelita e trabalha agora, espalhando/ensinando o Evangelho acompanhado pela sua música. Trabalho árduo, pelo menos connosco: muito transpirou Frei João para que conseguíssemos apanhar o tom!! O tom não sei se o apanhámos todos, mas a mensagem, essa entrou, penetrou, tal como chuva que cai em terra seca e ansiosa de água: tal como disse Santa Teresa, a forma mais fácil, mais perfeita de rezar!
Pois, mas, afinal, para que levámos nós as caçarolas? Não fazíamos ideia, mas para alguma coisa deviam servir! Eu, inexperiente, como não acreditei, e não levei nenhuma. Por fim bem me arrependi, poderia ter dado um excelente concerto!!
As panelas seriam um ponto de partida para um dos grandes ensinamentos de Santa Teresa: Deus está em todo o lado, em todos os trabalhos, em todos os afazeres, desde que desempenhados com dignidade, respeito e amor! Também entre as panelas! Entre os livros! Entre o trânsito! A todos os lugares em que estivermos Ele chega sempre antes de nós!
E muito embora a linguagem que Deus mais ouve seja a do amor silencioso (S. João da Cruz), nós alternámos momentos de grande silêncio com momentos de grande algazarra musical com as nossas caçarolas, tachos, panelas e tudo o que fizesse barulho naquele momento! Mas sempre no ritmo da música! E deixem-me dizer que o Rei das Panelas foi o Frei João! Não é esse, é o Frei João, mas o Costa! Pois, o do costume!
Foram quase dois dias muito bem vividos, em oração, em convívio, em reflexão, em trocas mútuas de olhares, desabafos, segredos, fé (que pode ser muito jovem e inexperiente), mas vai dizendo presente quando é desafiada pelos nossos exemplos Carmelitas, neste caso, Santa Teresa de Jesus.
Antes do almoço de Domingo tivemos a nossa missa, a do primeiro Domingo do Advento, abrilhantada pela liturgia quase toda cantada (grande Rui, grande Frei Daniel)! A homília foi…foi…à moda do Frei João Costa! Falou, falou, falou, a missa durou mais de duas horas!! Pronto, a verdade é que quem falou fomos nós! Mas acho que falámos bem, não acham?

Quem nos surpreendeu a todos (mais uma vez) foi a nossa madrinha, a D. Alice! Nos minutos que lhe foram concedidos para falar (de caçarola em punho), entregou ao Carmo Jovem a cruz referente ao ano da sua entrada no Carmelo Secular, dizendo que muitos conhecimentos adquiriu durante toda sua vida, mas que foi no Carmo que se sentiu livre, livre para O amar! Espero que o seu exemplo de dádiva e amor seja para nós exemplo a seguir!
Depois do delicioso almoço, acompanhado por alguns familiares e amigos que já se tinham juntado a nós para a Eucaristia, partimos, uns com mais pressa do que outros!
Alguns com a lágrima no olho, outros a olharem para trás, outros a combinarem o próximo encontro, lá viemos cada um para sua casa, com o Carmo Jovem no coração!

Não se esqueçam, dia 11 em Braga!


[Ricardo Caçarola, Somos Um, Moinhos da Gândara]

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Santa Teresa de Jesus - Cap.7

VII

TERESA E SEU PAI

Alonso de Cepeda e D. Teresa de Ahumada, pai e filha – tinha esta o apelido da mãe por ser de mais fidalguia, de mais alta linhagem que o do pai, consoante o costume da época, podem bem ser apresentados como modelos de mútua dedicação.


À semelhança de David e Jónatas, a alma deste pai extremoso parecia como que conglutinada com a da filha e, por sua vez, a desta com a do pai. Por aqui nos é permitido avaliar o sacrifício que fez Teresa ao abandonar o lar para seguir a vida religiosa e, bem assim, a violência que teve de fazer D. Alonso ao seu coração paternal, cheio de ternura, para consentir e deixar sair de casa a filha tão amada. Igualmente se não pode imaginar o que sentiria D. Alonso ao ver a sua Teresa desenganada dos médicos e irremediavelmente perdida. Mas Deus, rico em misericórdia, como diz a Escritura, que tinha os olhos postos em Teresa, acudiu na sua bondade infinita à filha e ao pai. Passada aquela terrível crise cardíaca, que a levaria à beira do sepulcro aberto – só era capaz, naqueles dias, de mexer um dedo da mão direita, nota Santa Teresa –, começou a melhorar, ainda que muito lentamente, e tal como estava, com grande custo, se fez transportar ao convento da Encarnação. A que esperavam morta a todo o momento para lhe fazerem o funeral, quis Deus que a recebessem viva, mas sem forças nenhumas e ainda entrevada, em consequência do ataque geral de paralisia.


Ora bem; com a filha doente no mosteiro, é fácil conjecturar o que faria D. Alonso. Queria vê-la sempre que a Regra o permitisse. A tradição conventual aponta o primeiro dos locutórios à entrada do mosteiro, como o escolhido por Santa Teresa e seu pai para suas entrevistas. Lá está aquele santo velho à espera da filha no locutório. Lá ao longe, do outro lado das grades de ferro, fechadas a ferrolho, ouvem-se no mosteiro ruídos como de quem abre e fecha portas. Passam alguns minutos e, na penumbra da sala, sente-se alguém; correm-se as cortinas e aparece Teresa que, sem poder andar, desce ao locutório para ver seu pai amparada por duas religiosas enfermeiras.


Um sorriso, misto de dor e resignação, aflora-lhe aos lábios. Com grande esforço consegue a doente sentar-se. Retiram então as religiosas e ficam a sós pai e filha. É esta a única consolação que tem neste mundo aquele santo velho: ver e conversar com Teresa, que é o raio de sol que alumia e aquece o inverno da sua velhice. Conta esta a seu pai as lentas melhoras que começa a experimentar, à medida que lhe abrandam as dores. Depois falam da vaidade das coisas do mundo, de Deus, da oração... Porque Teresa, durante a sua longa enfermidade, tem feito notáveis progressos na virtude, e já quer saber da sua alma. Andava tão resignada nos seus sofrimentos e tudo suportava com tanta paciência que, como ela própria confessa na sua autobiografia, de bom grado ficaria sempre assim, doente, entrevada mesmo, se tal fosse a vontade do Senhor. Muito concorrera para este estado de alma a leitura de Job, em dois livros, de S. Gregório, que ainda guardam com toda a veneração as Carmelitas Descalças de S. José de Ávila. Por isso, as conversas com seu pai no locutório da Encarnação sempre recaíam em assuntos espirituais. D. Alonso ouvia-a embevecido, principalmente quando ela lhe falava da oração mental, do modo de a fazer, da sua importância e excelência, e dos frutos que colhe a alma do seu frequente exercício. Então é que D. Alonso via um mundo novo; e esse mundo, cheio de luz, era-lhe descortinado agora, ao pôr do sol da sua vida, pela mágica palavra da sua filha Carmelita.


Onde aprenderia Teresa, pensaria D. Alonso, todas estas coisas tão belas? Quem lhe mostraria a ela esse mundo de sonho e de maravilha da oração, porta do palácio da santidade? Um dia quis Teresa satisfazer a curiosidade de seu pai, e revelou-lhe que tinha bebido as águas cristalinas dessa ciência nas páginas de um livro de ouro que em boa hora lhe emprestara seu tio D. Pedro de Cepeda, quando da sua passagem por Hortigosa. O tal livro, que tanto bem fez à alma de Teresa, outro não é senão o Terceiro Abecedário, escrito em espanhol pelo franciscano Francisco de Osuna, tesouro precioso que guardam igualmente as Descalças de S. José. Quando D. Alonso sai da Encarnação e sobe a ladeira íngreme da cidade, entrando pela porta do Carmo, traz quase sempre um embrulho nas mãos... São livros que lhe vai emprestando sua filha para o iniciar na prática da meditação.


Convém fixar este trecho da vida preciosa de Santa Teresa. D. Alonso aparece-nos agora convertido em discípulo de sua filha. É ele a primeira criatura a quem ela confiou o segredo da oração mental. Seja aqui dito de passagem que Santa Teresa, apesar de ser mulher doente – sofrera toda a vida fortes dores de cabeça –, nunca, durante 21 anos, deixou de fazer todos os dias oração mental, cuja importância, no caminho da perfeição, recomendava com grande eloquência a seu pai, já no fim da sua vida.


Reconheçamos já em Teresa de Ahumada uma qualidade admirável, digna de nota, que a caracteriza. Desde criança revelou-se sempre apóstola; tinha até alma apostólica: em pequenina, levou Rodrigo, seu irmão, a abandonar com ela a casa dos pais para se dirigirem a terra de Mouros, a fim de serem mortos por amor de Cristo; volvidos alguns anos, convenceu outro seu irmão, António, a que desprezasse a vaidade do mundo e fosse para frade; em Becedas soube insinuar-se na alma dum sacerdote, de maneira a que mudasse de vida e se aproximasse mais de Deus; e agora, mesmo alquebrada pela doença, não descansa até conseguir catequizar seu próprio pai na prática da meditação. Era notável e natural, como se vê, em Teresa, o poder de proselitismo que atraía suavemente para a prática da virtude os que tinham a dita de a ouvir.


*


Teresa continuou enferma e entrevada durante quase três anos, edificando a todos com a sua paciência, que era tão grande que, como ela própria confessa na sua humildade, se admirava de si mesma. Mas, de um dia para o outro, Teresa melhora inesperadamente. Já não está entrevada; já faz uso de todos os seus membros; já assiste todos os dias ao coro com as outras religiosas. Dir-se-ia até que parece mais ágil, mais forte do que antes de sentir o mal de coração. As manifestações de alegria de D. Teresa de Ahumada e o metal da sua voz ressoam agora nos corredores, por toda a parte, no mosteiro da Encarnação. A filha de D. Alonso volta a ser a alegria da comunidade.


Que é que aconteceu? Teresa encomendara-se com todo o fervor e confiança ao glorioso Patriarca S. José, a quem todos os anos costumava mandar fazer uma festa, à sua custa, na Encarnação. E S. José fez o milagre. É isto o que nos conta a Santa na primeira parte do capítulo VI, tecendo o elogio do castíssimo Esposo de Maria, página de ouro esta que é o melhor que se tem escrito sobre S. José, com excepção dos dois discursos de Bossuet. Curada miraculosamente Teresa, o seu coração de mulher jovem e prendada – andava por volta dos seus 27 ou 28 anos –, torna de novo a palpitar como outrora e ainda mais fortemente, sob o burel de freira carmelita, no ardor da mocidade. Tem ânsias de amizade, de dedicações, de carinho, porque a vida, debelada a doença, parece abrir-se-lhe agora, como uma rosa... Gasta frequentemente longas horas no locutório, em conversas que facilmente podia evitar, atraindo com os seus olhos negros, profundos, que lhe brilham no rosto como dois luzeiros, e com o encanto do seu sorriso leal e franco, mesmo por entre as grades de ferro, gente de todas as classes sociais da cidade que lhe fora berço. Teresa era alguém no mosteiro da Encarnação pelas suas qualidades de mulher extraordinária e Ávila só agora começa a aperceber-se disso.


Jesus, porém, que queria fosse para Ele, só para Ele, o coração desta mulher cheia de encantos e atractivos, quis sair-lhe ao encontro, ferindo-lhe o próprio coração com golpe certeiro. D. Alonso, pai extremoso de Teresa de Ahumada, adoecera subitamente e para nunca mais se erguer. Celebra-se o Natal de 1544. Alegria e hinos de júbilo nos templos e nas ruas; tristeza e lágrimas na casa de D. Alonso. Jaz este venerável ancião no seu leito, rodeado por Lourenço de Cepeda, pároco de Villanueva del Aceral, seu dedicado irmão, de seu genro, D. Martinho de Gusmão Barrientos, e de seus filhos. Entre eles está, dominando sua emoção, Teresa, chamada com urgência da Encarnação.


O moribundo manifesta vontade de fazer testamento e pronuncia, pela última vez perante o notário, o nome de Teresa, sua filha querida, que nomeia sua testamenteira. Silêncio angustioso e prolongado. No rosto dos circunstantes há lágrimas a rolar pelas faces. Tudo acaba neste mundo – diz com voz apagada D. Alonso, que já está, no limiar da eternidade –; só uma coisa, nos fica: servir a Deus. E fazendo um supremo esforço, insiste em querer recitar o “Credo”: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da terra, e em Jesus Cristo... Já não pode mais; apaga-se-lhe por completo a voz; olha para o Céu onde está a verdadeira vida, como dirá ao mundo mais tarde sua filha, Santa Teresa. Fecham-se-lhe suavemente os olhos; um frio estranho, acompanhado de suor, espalha-se-lhe pelo corpo todo... Já acabou. Faleceu D. Alonso de Cepeda na paz do Senhor. É o dia 26 de Dezembro de 1544, ao cair da tarde.


Todos ajoelham e rezam em volta do cadáver. As orações de Teresa, dos familiares e criados acompanham seu espírito imortal na sua ascensão ao Céu, onde Deus lhe reserva o eterno galardão.

[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

XVI CaRminhada - Braga - 11 DEZ´10

ASPECTOS A TER EM ATENÇÃO:

* As Carminhadas são abertas a todos os jovens;

* Acolhimento às 9h00, na Igreja do Carmo (Braga);

* A Carminhadas é de curta/média distância, e termina após a Eucaristia;

* Eucaristia às 17h00 na Igreja do Carmo;

* O almoço será partilhado, devendo cada participante trazer de casa.

* Procura levar calçado confortável e já usado; roupa conveniente (um impermeável, guarda-chuva…);

* Haverá um carro-vassoura para transporte de mochilas e dos mais cansados, mas a maior honra

dos condutores é chegar sem passageiros;

* Carminha ligeiro de equipagem: Nem tudo é necessário para carminhar!

* Quem já participou noutras Carminhadas e tem a faixa “Levamos o Carmo (jovem) no Coração”,

deve levá-la.

CONFIRMAÇÃO

A confirmação de participação na Carminhada deverá ser efectuada até ao dia 8 de Dezembro para: