sábado, 25 de dezembro de 2010
Natal
Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria. Todos se foram recensear, cada um à sua cidade. José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados». [Lc 2, 1-14]
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Ao som das caçarolas: JESUS, LIVRO VERDADEIRO
JESUS, LIVRO VERDADEIRO
O Senhor é livro verdadeiro
Onde se vêem as verdades.
S. Teresa (Vida 26, 5)
sábado, 18 de dezembro de 2010
DOMINGO IV DO ADVENTO
O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. [Mt 1, 18-24]
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Santa Teresa de Jesus - Cap.9
IX
NO CONVENTO DE S. JOSÉ
A ideia de chegar um dia a observar, em todo o seu rigor, a Regra primitiva da Ordem Carmelita – na Encarnação guardava-se a Regra com a mitigação introduzida por Eugénio IV, em 1432 –, fulgia como uma luz desde longa data, no espírito de D. Teresa de Ahumada, porque o seu carácter decisivo e enérgico, mais que de mulher, mal se adaptava a um plano de perfeição comodista; a forma prática, porém, de o realizar, essa foi o resultado duma conversa providencial havida entre algumas religiosas e D. Teresa.
Um dia, D. Maria Baptista, sua sobrinha, abrindo-se numa roda de amigas reunidas no quarto de Santa Teresa no mosteiro da Encarnação, começou a discorrer sobre coisas espirituais, recaindo a conversa nas vidas dos Santos do deserto.
– Isso vai além das nossas forças – disseram algumas freiras. – Mas se se fundasse um conventinho com poucas religiosas, de certo que lá iríamos algumas de nós fazer penitência.
– Não seria melhor – replicou D. Teresa de Ahumada –, mais agradável a Deus, tratar cada uma de se reformar e observar a Regra primitiva da Ordem a que Deus nos chamou, com as suas longas horas de oração, com as suas austeridades, com a sua clausura?
– Oh! Madre – acudiu a sobrinha da Santa –, mande construir um convento assim e desde já ponho para essa obra ao vosso dispor os meus haveres.
Nisto ia a conversa quando chegou D. Guiomar de Ulloa, senhora fidalga de intensa vida interior, que se consagrara toda a Deus e às coisas do seu serviço, desde que enviuvara. Contara D. Teresa a esta sua amiga o que andavam planeando suas parentes e D. Guiomar, toda entusiasmada, disse-lhe:
– Desde já pode vossa mercê contar comigo para uma obra destas.
A partir deste dia, D. Teresa começou a pensar a sério na fundação do tal convento reformado. Antes, porém, de falar no assunto ao seu confessor, quis consultar um grande teólogo da Ordem de S. Domingos, o P. Frei Pedro Ibañez, que morava no convento de S. Tomás daquela cidade, porque, dizia a Madre Teresa, não queria ir contra a Sagrada Escritura em coisa alguma. E, assim, um dia, resolveu-se a bater à porta do mosteiro dominicano, em companhia de D. Guiomar, à procura de Frei Pedro. As fundadoras, verdadeiras amigas de Nosso Senhor, não queriam enganar-se em assunto tão grave e buscavam luz, queriam saber com toda a certeza se seria do agrado de Deus a fundação dum mosteiro de Carmelitas Descalças. É isto o que as leva ao Colégio de S. Tomás, sito extramuros, no vale Amblés, entre árvores, plátanos e fontes de água cristalina.
Por sorte, o religioso procurado está na residência e logo lhes aparece, prontificando-se a atendê-las. Enxuto de carnes, de olhar penetrante, doutrina segura e palavras precisas, Frei Pedro recebe com extremos de gentileza a visita da Madre Teresa e de D. Guiomar, tornando-se ciente das suas ideias e projectos tendentes à maior glória de Deus. Esta senhora assegura-lhe que nada faltará às religiosas, porque suas rendas passarão a ser património do novo convento, enquanto D. Teresa, por sua vez, salienta o espírito e finalidade da Reforma Carmelita. Convém notar aqui que, volvidos alguns anos, alcançou a Santa Fundadora, animada por S. Pedro de Alcântara, um Breve de Roma autorizando o dito convento de Descalças a viver de esmolas, sem quaisquer rendas. Frei Pedro ouve com atenção a longa e pormenorizada exposição de motivos feita pelas visitantes e responde com desembaraço e segurança às suas perguntas. Não condena logo, à primeira vista, o projecto da fundação, como já tinham feito outros eclesiásticos. As intenções não podem ser melhores, o ideal magnífico, os planos orientados todos para o aumento da glória de Deus, mas, homem prudente, não quer dar já uma resposta definitiva e pede às fundadoras oito dias para se pronunciar sobre assunto de tanta importância.
Passam esses dias, que lhes parecem séculos, e lá vão ter com Frei Pedro D. Teresa e D. Guiomar. Da resposta deste ilustre teólogo dependerá a atitude a tomar pelas fundadoras. Durante estes dias oraram muito pondo a almejada fundação nas mãos de Deus, cuja vontade desejam conhecer e realizar. E este insigne homem de ciência, exímio na Teologia e enfronhado no conhecimento das Sagradas Escrituras, não só aprova de bom grado e em absoluto os planos e projectos da Reforma Carmelita, como também se torna ainda seu destemido defensor, dizendo às senhoras:
Se alguém for contrário a esta iniciativa, venham cá; eu próprio o hei-de convencer.
Quando a Madre Teresa saiu do Colégio de S. Tomás ia radiante de alegria; parecia que lhe tinham tirado um grande pesadelo. As palavras laudatórias do frade dominicano serão para as fundadoras um raio de luz e uma esperança fagueira no meio das nuvens negras da tremenda e terrível tormenta que vai desabar sobre o projecto do novo convento das Descalças. Agora já não pensa a Madre Teresa senão em obter as devidas licenças. Começa pelo seu confessor, um jesuíta, tão santo como meticuloso, que agora concorda para discordar depois. Fala com o seu Provincial, P. Gregório Fernandez, que primeiro louva, abençoa e admite a fundação, e à última hora recua, recusando-se a admiti-la. Dirige-se também ao sr. bispo de Ávila, D. Álvaro de Mendoza, que lhe era muito dedicado, desde que um dia, a instâncias de S. Pedro de Alcântara, foi visitá-la na Encarnação, mas o Prelado, todo entusiasmado ao princípio, mostra-se hesitante nas vésperas da inauguração do convento, não sabendo para onde se virar.
O Geral da Ordem, Frei Nicolau Audet, esse, sim, esteve sempre do lado da Madre Teresa, pois ninguém mais do que ele desejava a Reforma dos frades e das freiras da Ordem. E não admira que assim fosse, pois estava-se, então, nos tempos da verdadeira Reforma...
Tratando a Madre Teresa com este, com aquele e com muitos outros para arranjar casa que servisse de mosteiro, mal se podia manter em segredo o projecto da nova fundação; assim, pois, logo se espalhou a notícia pela cidade. Uma monja da Encarnação, que tem visões, êxtases e arroubamentos, pretende fundar um convento de Descalças... Diziam os boatos que corriam por Ávila. A notícia levantou grande celeuma em toda a parte. A cidade em peso, com raras excepções, insurgiu-se contra D. Teresa de Ahumada. Foi censurada em todas as rodas, tornando-se o projectado mosteiro das Descalças caso do dia durante algumas semanas.
Nas sacristias, nos conventos, até nos púlpitos se chegaram a fazer alusões nada favoráveis à Madre Teresa. Uns diziam que não tinha ar de Reformadora aquela menina elegante, toda perfumada, chique, que ostentava formosura nos salões e divertimentos públicos de Ávila; outros que, amiga de novidades, só pretendia tornar-se notável nos meios religiosos de Espanha; os mais benignos e sensatos, que sabiam da sua vida interior intensa, das suas virtudes, da sua altíssima oração durante mais de vinte anos e não ignoravam as graças extraordinárias que recebia de Deus Nosso Senhor, esses, mesmo reconhecendo a boa vontade da Madre Teresa, eram quase todos de parecer que o dito mosteiro das Descalças não era viável nem sequer conveniente.
Um dia foi Madre Teresa e sua irmã D. Joana de Ahumada, casada com D. João de Ovalle, ouvir um sermão em determinada igreja de Ávila. Notando o pregador a presença da Madre Teresa, falou, durante o discurso, contra essa casta de monjas que, com ânsia de liberdade, saem da clausura para fundar novos mosteiros... Só faltava indicá-la com o dedo. D. Joana, que andava, nesses dias, à procura de casa para tal fundação, estava toda excitada, apanhando em cheio as investidas do imprudente orador sagrado contra sua santa irmã, e queria fazer-lhe um sinal para se irem embora. Volvendo, porém, os olhos para Madre Teresa verificou que ela estava toda serena, sorrindo até com um certo ar de alegria; não foi preciso saírem do templo.
As freiras da Encarnação, por sua vez, também não olhavam com bons olhos o projecto da Reforma Carmelita. E com toda a razão, diziam os mais sensatos, porque Madre Teresa tinha naquele mosteiro, ao seu dispor, todos os meios de santificação e lá moravam almas escolhidas, mais santas que a presuntiva Reformadora. Enfim, não é possível descrever a tempestade medonha que o demónio, inimigo figadal da glória de Deus, fez desabar sobre a Madre Teresa para ela desanimar e não levar avante a sua ideia do Carmelo Reformado. Foi este o sinal mais certo para ela de que a fundação do convento de Carmelitas Descalças era obra de Deus, e que se faria, sem dúvida, pois tamanha oposição encontrava até entre os bons.
Por este tempo, talvez nos fins de 1561 ou começos de 1562, andava Santa Teresa por volta dos seus 46 ou 47 anos, teve uma visão que muito a confortou na luta que sustentava contra o inferno, empenhado em impedir a Reforma da Ordem Carmelita.
Um dia, acabando de receber a Sagrada Comunhão – conta Santa Teresa–, mandou-me Sua Divina Majestade que tratasse, com todas as minhas forças, da fundação do tal convento, prometendo-me que se não deixaria de inaugurar, que neste convento seria Ele servido com toda a fidelidade, que se chamaria de S. José, e que este santo estaria a guardar-nos à porta da entrada, e Nossa Senhora, por sua vez, à porta de saída, e que o próprio Cristo andaria connosco, que havia de ser como uma estrela que desse grande resplendor.
Apesar destas palavras de Nosso Senhor, de cuja realização a Madre Teresa nunca duvidou, como ela desejava em tudo submeter a sua maneira de pensar, quis consultar o assunto com S. Francisco de Borja e S. Pedro de Alcântara, e ambos os servos de Deus aprovaram o espírito e os planos da Reforma Carmelita. Foi assim que começou a amainar a tormenta e a ganhar terreno a ideia da fundação do mosteiro de S. José. Santa Teresa por toda a parte procurava conselho e apoio para a sua obra, que era também de Deus. S. Pedro de Alcântara chegou a vir a Ávila e foi ele quem explicou à Madre Teresa a forma de se pedir ao Santo Padre o Breve para tal fim, pois acabara de obter outro de Roma, autorizando-o a dar início à reforma dos frades franciscanos, em que ele andava empenhado por aqueles dias no convento de Pedroso, na província de Ávila. Dir-se-ia que este santo homem não queria morrer sem ver realizada a fundação de S. José, sonho dourado da Madre Teresa, a quem ele chamava santa à boca cheia, uma das três santas que naquele tempo albergava a cidade dos cavalheiros, pois volvidos dois meses sobre a data da inauguração, nem tanto – 24 de Agosto de 1562 – falecia S. Pedro de Alcântara em Arenas, Ávila, a 18 de Outubro de 1562.
Ia tudo bem encaminhado para a inauguração da vida carmelita descalça em S. José – D. João de Ovalle tinha já comprado, com este intuito, uma casita com dinheiros que lhe dera um irmão da Santa Madre, D. Lourenço de Cepeda, recém-vindo da América –, quando houve um grande contratempo que pôs em relevo a obediência de Santa Teresa. O seu confessor, P. Baltazar Álvarez, da Companhia de Jesus – dirigiu este ilustre religioso o espírito da Santa Madre mais de quatro anos, na fase mais acidentada da sua vida, 1558-1562 –, manda a Teresa que não se preocupe mais com a fundação em projecto... Nem mais um passo para a frente. A Santa Madre recolhe imediatamente ao mosteiro da Encarnação onde se deixa estar até que o P. Provincial lhe dá ordem para se dirigir, por obediência, a Toledo, com o fito de consolar na sua dor uma senhora fidalga, benfeitora da Ordem, D. Luísa de la Cerda, que tinha enviuvado e não encontrava lenitivo neste mundo. Quer isto dizer que a fama da santidade da Madre Teresa começa a correr mundo; já não pode manter-se abafada dentro das muralhas de Ávila, mas principia a expandir-se por toda a Espanha, chegando até ao palácio do fidalgo Arias Pardo de Saavedra, na cidade imperial de Toledo. Grande desgosto teve Madre Teresa ao verificar que era tida por santa, mas foi necessário obedecer, partindo de Ávila para Toledo pelo Natal de 1561. Pouco mais de 6 meses demorou Madre Teresa na companhia de D. Luísa de la Cerda, enxugando-lhe as lágrimas com o lenço dos seus conselhos salutares, e conquistando os corações de toda a gente com a sua santidade franca, lhana, leal, cativante, porque era esta a característica de Santa Teresa: fazer amar a virtude, tornando-a amorável.
Longe de Ávila, e atadas as mãos pela obediência, D. Teresa de Ahumada nada podia fazer para apressar a inauguração do seu convento carmelitano. Só faltava pedir o Breve a Roma; mas, como a obra de Teresa era também obra de Deus, que deseja a santificação dos seus servos, foi Ele próprio Quem providenciou auxiliares para o acabamento desta obra.
O P. Frei Pedro Ibañez, destemido defensor da Madre Teresa e a sua grande amiga D. Guiomar de Ulloa, quiseram chamar a si o encargo de requerer a Roma o Breve para a fundação e que Teresa de Ahumada veio encontrar em Ávila, no regresso de Toledo, em princípio de Julho, assinado pelo Papa Pio IV a 7 de Fevereiro de 1562. Tudo estava pronto, quando, à última hora, apareceram alguns entraves e dificuldades na compra do prédio. Deus, sempre previdente, deu uma doença grave ao cunhado da Santa Madre, D. João de Ovalle, o que serviu às mil maravilhas como pretexto para Teresa andar fora do convento da Encarnação, com licença do P. Provincial, a fim de tratar do doente, podendo assim gerir pessoalmente este negócio. Diz um dos mais ilustres biógrafos antigos de Santa Teresa que D. João de Ovalle esteve doente todo o tempo que a Santa Madre precisou andar por fora do mosteiro para dar os últimos retoques ao plano da Reforma Carmelita, admirando-se todos de tão estranha enfermidade. É que Deus estava por Teresa e pela sua obra.
*
24 de Agosto de 1562. Data notável na Ordem Carmelita e para a Igreja Universal. Ao romper do dia, ouve-se em Ávila, pela primeira vez, um sino a repicar festivo e jubiloso, que faz acordar os pacíficos moradores do bairro oriental. Os curiosos vão indagar o que aquilo é e topam com uma casita cercada de muros não muito altos, janelas pequenas, corredor sombrio, como em constante penumbra, tecto baixo de madeira. É o novo convento de Carmelitas Descalças de S. José que, neste dia consagrado ao Apóstolo S. Bartolomeu, se inaugura. Tudo aqui é pobre, estreito e sem conforto, como na lapinha de Belém. Lá anda Madre Teresa, a Reformadora, toda afanosa a ultimar os preparativos para a celebração do Santo Sacrifício da Missa, que vai celebrar o P. Gaspar Daza. Este sacerdote, servo de Deus e muito douto, traz a representação oficial do Bispo da diocese a quem estará sujeito o novo mosteiro. Acabam de chegar as poucas pessoas convidadas: D. Francisco de Salcedo, a quem Santa Teresa chama sempre o cavalheiro santo, D. Gonçalo de Aranda, benfeitor da Ordem, D. João de Ovalle e sua mulher, D. Joana de Ahumada, irmãos da Santa Fundadora, o Capelão da comunidade, P. Julião de Ávila, D. Inês e D. Maria de Tápia, primas da Santa Madre, religiosas da Encarnação, e mais ninguém.
À hora aprazada para a cerimónia, reunem-se todos na capelinha daquela miniatura de mosteiro. Finda a Santa Missa, fica ali reservado o Santíssimo Sacramento, considerando-se assim feita a fundação. Foi para mim como estar na glória, ver expor o Santíssimo Sacramento – diz-nos Santa Teresa, quando historia a fundação do seu convento38.
Seguiu-se logo a admissão na Ordem e tomada de hábito de quatro donzelas pobres oriundas de famílias honradas e virtuosas. Lá estavam elas em volta da Santa Reformadora, do lado do Evangelho, vestidas de branco, de mãos postas, descalças, ajoelhadas no coro separado do resto da capela por uma enorme grade de pau. Pareciam anjos... A própria Madre Teresa quis dar-lhes o hábito, acompanhando a cerimónia com orações litúrgicas e bênçãos e, voltado do altar para o coro, o Rev. Dr. Daza.
Vamos registar aqui os nomes das quatro primeiras Carmelitas Descalças que apareceram no mundo como colunas do Carmelo Teresiano e semente preciosa que fez florir tantos Carmelos espalhados pelo mundo. Ei-los: Antónia do Espírito Santo, dirigida por S. Pedro de Alcântara; Maria da Cruz; Úrsula dos Santos e Maria de S. José. Esta cerimónia tão singela, sem o menor aparato nem ruído mas cheia de significado, realizada quase na intimidade para não espantar o vespeiro da terrível oposição da cidade representa, na Santa Igreja, a pedra fundamental do edifício da Reforma da veneranda Ordem Carmelita, cuja origem, envolta em nuvens de lenda e tradições, remonta a tempos antiquíssimos.
[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Ao som das caçarolas: MIRA QUE TE MIRA
MIRA QUE TE MIRA
“Mira que te mira, mira que te mira,
Mira que te mira, mírale”.
Acompanha-O e fala-Lhe e pede-Lhe,
Sê humilde e fala com Ele.
S. Teresa (Vida 13, 22)
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Quem foi São João da Cruz?
S. João da Cruz
(1542 - 1591)
Juan de Yepes nasceu em Fontiveros, província de Ávila, Espanha, em 1542 (pensa-se no dia 24 de Junho). È o terceiro filho de um amor proibido. Seu pai Gonzalo de Yepes, oriundo de uma família abastada de comerciantes de tecidos, fora deserdado por teimar casar com Catalina Alvarez, tecelã e órfã de pais e de bens. A vida deste casal não foi fácil desde o primeiro momento, viviam muito humildes e com dificuldades, sendo que após o nascimento de Juan, o seu pai fica muito doente e acabou por falecer. Catalina vê-se sozinha para criar Francisco, Luís e o mais novo. Inicia o que vai ser uma vida de peregrinação e sofrimento procurando em várias terras ajuda e reconhecimento da parte da família de seu marido, o que não encontra. Entre viagens, sacrifícios, fome e pobreza, Luís acaba por falecer ainda criança.
Em 1561, a família encontra-se em Medina del Campo, o irmão mais velho casa e Juan vai estudar para uma escola destinada a crianças pobres. É iniciado em diversos ofícios e presta serviços no Convento de Madalena, é um menino esperto e vivo, destaca-se pela sua habilidade, perspicácia e pelas suas boas inclinações.
Depois dos estudos ingressa no Convento do Carmo da cidade, e depois na Universidade de Salamanca onde estudam os jovens da Ordem. Ordenado sacerdote vem celebrar Missa Nova a Medida del Campo onde vive a mãe.
É nesta altura, que Frei João se encontra com Santa Teresa de Ávila (1567), ele andava insatisfeito com o modo de vida dos conventos Carmelitas, pensando até ingressar na Ordem dos Cartuxos (ordem de muita austeridade), ela ansiosa por ter alguém que a ajudasse na Reforma do Carmo, já a tinha iniciado com as freiras, mas queria estendê-la e sentia necessidade de a levar também aos padres.
É assim que no dia 28 de Novembro de 1568, juntamente com o Frei António de Jesus e Frei José de Cristo se inicia a fundação da nova família do Carmo Descalço, no desconhecido lugarejo de Duruelo. Nesta altura, toma o nome de Frei João da Cruz, pela muita veneração que sempre teve pela Cruz de Cristo.
Esta transição da Ordem Carmelita para a Ordem dos Carmelitas Descalços não foi bem aceite pelos seus irmãos e foi considerado um rebelde. Na noite de 2 de Dezembro de 1577, Frei João da Cruz e seu companheiro Frei Germano de São Matias são presos por um grupo de Padres Calçados e alguns leigos, que rebentam a porta da casa e os levam algemados ao Convento do Carmo de Ávila. Alguns dias mais tarde o seu companheiro é solto enquanto Frei João da Cruz é levado ao Convento de Toledo onde é jogado num cárcere e ali permanece por nove meses. Conseguirá fugir no dia 19 de Agosto de 1578, por não lhe terem permitido celebrar missa de Nossa Senhora!
Este tempo de prisão conseguiu prender apenas seu físico, mas não o seu espírito. Aqueles nove meses foram um período de intensa criatividade e espiritualidade. Ali, com a benevolência dum novo carcereiro, o Santo escreveu as mais belas poesias, o que lhe valeu o título de Patrono dos Poetas. É também notável a sua grande capacidade de amar e perdoar seus inimigos, mesmo aqueles que o prenderam.
Teve uma vida curta mas intensa como caminheiro, pregador, conciliador, e homem de paz. Morreu no dia 14 de Dezembro de 1591, no Convento de Ubeda. A doença que motivou sua morte foi “uma erisipela que começou no peito do pé direito, começou sendo um diminuto glânulo, transformando-se numa inflamação virulenta que rebentou em cinco chagas, em forma de cruz”.
As dores foram intensíssimas, mas já mais se queixou, quer lhe quando lhe cortavam a carne ou lhe serraram a perna. Em 1593 o seu corpo foi transladado para o Carmo de Segóvia que ele próprio imaginara, arquitectara e construíra. E ainda ali se conserva até hoje. (Cervantes na sua novela Dom Quixote alude à viagem do féretro do Santo desde Úbeda para Segóvia)
Em 1926 é proclamado Doutor Místico da Igreja.
Os Santos não morrem, continuam vivos nos seus seguidores e ensinamentos. Dão-nos uma lições de amor e de vida e os seus escritos são verdadeiros tesouros de sabedoria que urge beber e aprender.
Dia 14 de Dezembro - Festa de S. João da Cruz
ORAÇÃO DA ALMA ENAMORADA
Senhor Deus, Amado meu!
Se Te lembras dos meus pecados,
e por isso não fazes o que Te peço,
faça-se em mim, Deus meu, a Tua vontade,
pois que é o que eu mais quero
e manifesta em mim a tua bondade e misericórdia
e serás conhecido em mim.
Se esperas obras minhas
para me concederes o que Te peço,
realiza-as Tu em mim,
e as penas da minha vida que quiseres aceitar
e faça-se a Tua vontade.
Mas se não esperas as minhas obras,
que esperas então, clementíssimo, Senhor meu?
Porque demoras?
Se o que em Teu Filho te peço, é graça e misericórdia,
toma já a minha vida, pois a queres
e dá-me o bem que Te peço,
pois tu também o queres.
Quem se poderá libertar de tudo o que é baixo
se não o levantas Tu, a Ti, em pureza de amor, Deus meu?
Como se elevará a Ti o homem gerado e criado em baixezas?,
se Tu, Senhor, não o levantares com a mão com que o fizestes?
Não me tires, Deus meu, aquilo que me deste
em Teu Filho Jesus Cristo,
em Quem me concedestes todo o bem que desejo.
Por isso me alegro, pois eu sei que se esperar e confiar
Tu não tardarás.
Porque esperas, pois, se desde já podes amar a Deus
em teu coração?
Meus são os céus e minha é a terra;
Meus são os povos, os santos são meus e meus os pecadores;
Os anjos são meus e a Mãe de Deus,
e todas as coisas são minhas,
e o próprio Deus é meu e para mim,
porque Cristo é meu e todo para mim.
Que pedes, pois, e buscas, alma minha?
Tudo é teu e tudo para ti.
Não te rebaixes
nem repares nas migalhas que caem da mesa de teu Pai.
Sai de ti e gloria-te da tua glória.
Esconde-te em Deus e rejubila
e alcançarás o que pede o teu coração.
Que assim seja.
Em Ti, Senhor, depositei a minha esperança,
em Ti está o meu coração, por isso,
o Céu é meu e minha é a terra
Em Ti, Senhor, pus os meus projectos.
Em Ti guardei os meus êxitos.
Por isso, minhas são as gentes,
os justos são meus e meus os pecadores.
Em Ti, Senhor, sonhei o meu futuro.
Em Ti soube amar tudo.
Por isso, os anjos são meus e a Mãe de Deus,
e todas as coisas são minhas;
Em Ti, Senhor, dei tudo quanto possuía.
Em Ti renunciei a tudo onde não Te percebia.
Por isso, o próprio Deus é meu e para mim,
porque Cristo é meu e todo para mim.
Louvado, sejas, meu Senhor!
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Oração dos jovens a S. João da Cruz
São João da Cruz: no mundo dos homens em que vivemos, poucos são os que estão dispostos a aceitar a mensagem de Cristo e do seu Evangelho.
São poucos os que se lembram de que a verdadeira felicidade está ali, como Tu ensinaste, no cimo do Monte, o Monte de Deus, aonde só se chega por caminhos divinos, sendo o mais rápido e o mais seguro aquele que Tu indicaste: a senda recta e perfeita do amor de Deus.
Bem sabes, Frei João, que a todos nos custa subir, que muitas coisas nos impedem de avançar e nos puxam para baixo.
Mas tu indicas-nos um arrimo, o báculo insubstituível, a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por isso, ao contemplar-te desde este nosso mundo, como o primeiro entre todos os filhos do Carmo, o irmão mais velho, constituído pai e mestre, o primeiro a pisar o cimo da Montanha Sagrada, a contemplar as belezas de Deus, a saborear as delícias da contemplação e do amor, a tua figura aparece-nos como a de uma águia real que com o seu rápido voo alcança as alturas mais puras.
Mas não esquecemos que foste um alpinista que lentamente, com esforço e trabalho, cantando e rezando, em silêncio e solidão, sem nunca deixar os irmãos, subiste passo a passo a Montanha que conduz ao Infinito.
Foste um homem como nós que ansiou pelo Infinito e atingiu aplenitude. Como nós sofreste o rigor das tempestades, foste vítima dos olhares rancorosos, sentiste as incompreensões, o peso da matéria, a tentação do desânimo...
Porém... No teu coração de carne, encerrado em teu peito amoroso, brilhava uma luz inacessível, um poema maravilhoso, uma Fonte inesgotável de pureza e ternura, um Cântico de inexplicável doçura, uma Chama ardente que iluminava as noites escuras da tua vida tornando-as mais claras que o meio dia.
Mantiveste a serenidade, superaste como bom atleta os obstáculos do caminho, orientaste com segurança o coração, purificaste o amor, e deixaste cativar-te por aquelas palavras do Senhor: «uma só coisa é necessária». E no cimo do Monte encontraste a Deus. Encontraste a paz e a felicidade.
Os que ainda vivemos nesta terra lutando pela vida, dirigimos-te hoje a nossa oração, pedindo que não deixes que os obstáculos e dificuldades nos vençam, que não nos falte a vontade de subir às alturas.
Assim, chegaremos à plenitude, viveremos a vida que não acaba, saborearemos a felicidade que vale a pena, descansaremos no Monte onde só mora a honra e a glória de Deus.
Santo Padre João da Cruz, semeia no nosso caminho os teus poemas de amor, faz florir na nossa vida as açucenas da tua paz, faz vibrar no nosso coração a doçura do mel das tuas palavras e ajuda-nos a sentir o que tu experimentaste: que o sorriso da Senhora da capa branca nos proteja e conduza.
Assim seja para nosso bem e glória da Santíssima Trindade.
[Música Calada em Oração, Edições Carmelo]
domingo, 12 de dezembro de 2010
Ordenação de Diáconos: Frei Daniel, Frei Noé e Frei Nuno.
Temos muito que louvar a Deus: hoje, os jovens Frei Daniel, Frei Nuno e Frei Noé foram ordenados diáconos pelo Bispo D. António Taipa, no Santuário do Menino Jesus de Praga, Marco de Canaveses.
O Frei Daniel, esteve connosco no XVII Horeb, entre as caçarolas :)
Rezamos pelos três, para que sejam sempre firmes no caRminho que começaram; e rezamos pela Ordem, para que continue a ter vocações religiosas.
XVII HOREB - "De onde me vêm todos os bens"
DE ONDE ME VÊM
De onde me vêm todos os bens?
De Ti, de Ti, Senhor.
E ver-Te em mim são todos os bens,
Em mim, em mim, Senhor.
Em mim, em mim, Senhor.
S. Teresa (Vida 22, 6)
sábado, 11 de dezembro de 2010
DOMINGO III DO ADVENTO
Naquele tempo, João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: «És Tu Aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – é mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele». [Mt 11, 2-11]
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Santa Teresa de Jesus - Cap.8
VIII
Na ampulheta do tempo vão deslizando continuamente, sem interrupção, pequeninos grãos de areia; são os dias, os meses, os anos da existência humana; a roda do tempo avança implacavelmente, e com ela a preciosa vida da filha do finado D. Alonso. É religiosa professa no mosteiro de Carmelitas Calçadas de Nossa Senhora da Encarnação, em Ávila, terra da sua naturalidade, sendo tida na conta das mais fervorosas. Até à realização de seu sonho dourado, a Reforma da sua Ordem, com a fundação do convento de Carmelitas Descalças de S. José, naquela cidade, Teresa teve de escalar a íngreme encosta da perfeição, passando pela via purgativa, iluminativa e unitiva, ocupando progressivamente, uma a uma, todas as moradas do célebre Castelo Interior.
Nos primeiros anos serviu, ao mesmo tempo, dois senhores: Deus e o mundo, esforçando-se por lhes ser agradável, com grande horror do pecado mortal, é certo, mas com algo de imperfeição, ainda que soubesse ser isso uma insubmissão da parte das almas que professam vida de perfeição. O que lucrava na oração, perdia-o logo no trato com o mundo; o que aqui perdia, ia logo reavê-lo nos momentos que consagrava à meditação. Há 28 anos que me conservo fiel a este exercício, diz Santa Teresa na autobiografia, e durante 18 sustentei esta batalha de tratar ao mesmo tempo com Deus e com o mundo.
Nesta altura da sua vida, muito ajudou a Teresa de Ahumada o seu confessor P. Fr. Vicente Barron, da Ordem de S. Domingos, confessor do seu saudoso pai, aconselhando-a a que fosse à Comunhão amiudadas vezes e que nunca abandonasse a oração.
Durante longos anos, mesmo antes de ser freira, quando ia deitar-se, meditava uns instantes na agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, fazendo por ficar adormecida na consideração deste passo da Paixão do Senhor. Dizia bem de toda a gente, aborrecia naturalmente o fingimento e a hipocrisia, detestava a mentira, primava pela lhaneza do trato, conquistando deste modo as vontades de todos quantos com ela tinham a dita de conviver. Atraía-a irresistivelmente a solidão e não era difícil encontrar D. Teresa à procura de um sítio retirado para aproveitar melhor alguns momentos na leitura de livros espirituais, especialmente das Confissões de Santo Agostinho.
Como noutras épocas da sua vida, o Terceiro Abecedário, agora são as Confissões do santo bispo de Hipona que lhe afervoram o espírito, ficando por isso muito devota e afeiçoada a este glorioso santo, cuja conversão queria imitar. Por aqui se pode ver que não era tão ruim e eivada de imperfeições a vida de Santa Teresa, como ela se esforça por pintar na sua autobiografia, modelo de sinceridade e humildade.
Amizades, um pouco de conversa a mais no locutório, alguns apegozitos... que lhe custavam muito a deixar e que impediam a águia do seu anseio de subir, ascender, voar... Eram estes os grandes pecados e ruindades que ela tanto exagera. Deus, porém, que a queria perfeita e sem mancha, procurava atraí-la a Si por todos os meios. E, assim, um dia quis mostrar-lhe o inferno, isto é, o lugar que lhe estaria reservado, se fosse inteiramente infiel à Sua graça. Outro dia apareceu-lhe, num sítio onde não era natural encontrar-se, um bicho, feio como um sapo, imagem viva do pecado mortal, que ainda podia vir sujar-lhe a alma. O que, porém, mais sensivelmente a comoveu foi, sem dúvida, a contemplação duma devota imagem do Ecce Homo, que estava guardada no oratório particular do convento, para realizar uma festa em Sua honra. Conta a Santa que ficara comovida até às lágrimas e debulhada em pranto, ao ver assim o Senhor todo feito uma chaga por causa dela. Sob a influência deste duplo sentimento de compaixão do Senhor e de arrependimento dos seus pecados, caíra de joelhos aos pés daquela imagem, suplicando-Lhe que lhe perdoasse e lhe desse forças para nunca mais tornar a ser-Lhe infiel. Creio bem, continua Teresa28, que tirei algum proveito desta súplica; a partir desse dia, comecei a melhorar notavelmente.
Isto é o que a Doutora Mística chama a sua conversão... E foi-o até para uma vida mais perfeita e divina, porque, no futuro, só tratou de se consagrar inteiramente e sem reservas a Deus, esquivando-se, tanto quanto possível, ao mundo. Andava sempre ocupada nesta árdua tarefa de despegar-se de coisas e criaturas, mesmo com o coração a sangrar.
Passaram alguns anos, muitos mesmo, até que em 1558 consultou sobre o que de extraordinário se passava na intimidade da sua alma com o P. João de Prádanos, da Companhia de Jesus que, com muito jeito e brandura a elevou a um grau mais subido de perfeição, fazendo-lhe ver que para de todo contentar o Senhor, era preciso não deixar nada por fazer. Todavia, Teresa, que não tinha ainda quebrado todos os fios que a ligavam ao mundo, teimava em não abandonar certas amizades, visto com elas não ofender Nosso Senhor, conforme lhe asseguravam os confessores. Entretanto, para se conhecer, nesta emergência, qual a vontade de Deus, disse-lhe aquele Padre, a quem se confessava, que se encomendasse durante alguns dias ao Senhor, rezando com toda a devoção aquele hino da liturgia do Pentecostes: Veni, Creator, Spiritus. Ora, um dia em que ela o fazia, teve o primeiro arroubamento, provavelmente no mesmo ano de 1558. Foi então que ouviu claramente estas palavras: já não quero que tenhas mais conversas com homens, mas só com anjos.
Inicia-se aqui um novo período ou fase na vida de Santa Teresa: desde a primeira fala de Deus até ver realizado o seu sonho, com a inauguração da vida carmelita descalça, no mosteiro de S. José (1558-1562).
Uma vista de olhos sobre os capítulos mais importantes da sua autobiografia leva-nos a verificar que ficou assinalado este período da sua vida pela contínua comunicação de Cristo, Senhor Nosso, com esta alma de eleição, estruturalmente humilde e grande, escolhida para reformar o Carmelo, devolvendo-lhe o antigo esplendor. Nestes quatro anos, dir-se-ia que Jesus Cristo preparou a alma desta Sua dilecta esposa para o grande empreendimento da Reforma da Ordem Carmelita, por meio de falas, visões, êxtases, revelações e outras graças sobrenaturais, que ela explica tecnicamente, como Doutora Mística, com os termos mais apropriados, no livro admirável da sua autobiografia.
Jesus, Senhor Nosso, aparecia-lhe na Santíssima Humanidade, falava-lhe, tomava-lhe a cruz do terço com que a Santa rezava, devolvendo-lha, um dia, cravejada com quatro brilhantíssimos diamantes, em recompensa do acto heróico de obediência aos seus confessores que, ora lhe proibiam a comunhão para a experimentarem, ora lhe mandavam que espantasse a visão celeste com água benta ou por meio de uma cruz, o que ela fazia, ainda que soubesse com toda a certeza ser Nosso Senhor Jesus Cristo Quem lhe aparecia. Era ordinariamente na Santa Missa, depois da Sagrada Comunhão, ou durante a meditação, que Cristo, Senhor Nosso, Se mostrava a Teresa, escolhendo para isso as festas dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, Nossa Senhora da Assunção, Corpus Christi, dias da Semana Santa, Santíssima Trindade, etc.
Convém, porém, fixar que estas visões não eram corporais, senão imaginárias ou intelectuais, isto é, Santa Teresa não via Jesus Cristo com os sentidos corporais, com os olhos do corpo, mas com os olhos da alma. Cristo apresentava-Se a Sua dilecta esposa, ora na fantasia, ora no entendimento, como ela própria conta.
Os efeitos maravilhosos que estas graças extraordinárias produziam no espírito de Teresa não podiam ser melhores. Ficava toda fora de si e intimamente unida a Nosso Senhor, alheia ao que se passava à sua volta, enlevada, ardendo em divina caridade, em ânsia de sofrimentos, a ponto de dizer: ou padecer ou morrer, com a mais plena segurança de que era Deus que lhe falava, cheia de coragem para lutar e vencer, forte, enfim, com a fortaleza de Deus, especialmente quando da transverberação do seu coração pelo serafim, graça esta que ela própria conta, com toda a humildade, em obediência ao seu director espiritual.
Nunca alguém viu um anjo atravessar-lhe o coração com um dardo de ouro, em brasa; isto Deus reservou-o para Sua fiel esposa Santa Teresa. Hoje parece já fora de dúvida que Deus a regalou com essa graça sobrenatural da transverberação por mais de uma vez, sendo a primeira, provavelmente, por volta do ano de 1562, no mosteiro da Encarnação, e outra, como atesta D. Maria Pinel, cronista deste convento, de 1571 a 1574, quando prioresa do dito mosteiro. Não é fora de propósito notar aqui que um dos sofrimentos morais mais terríveis que Santa. Teresa teve de suportar neste mundo foi manifestar aos confessores tudo o que de sobrenatural se passava no interior da sua alma. Confessa ela ingenuamente que preferia ser enterrada com vida do que contar todas estas coisas extraordinárias a seu confessor; e todavia, para não se deixar iludir pelo demónio, lá ia D. Teresa de Ahumada com toda a humildade abrir-se aos representantes de Deus, de quem queria fossem conhecidos até os mínimos movimentos.
*
Preparada assim sua alma de eleição e o seu acrisolado coração com este cortejo de virtudes e dons celestes, resolveu D. Teresa de Ahumada, depois de muito encomendá-lo a N. Senhor e de repetidas consultas a teólogos e letrados, meter ombros ao empreendimento de dar realização prática ao seu sonho dourado: a Reforma da sua Ordem, embora soubesse que havia de ser ela manancial de desgostos e dissabores. E, como não lançar-se a levar a cabo esta magna empresa, para maior glória de Deus, se a Santa Madre Teresa de Jesus, como atesta o bispo de Ávila, D. Álvaro de Mendoza, quando falava em Nosso Senhor, o fazia com um amor e um fervor tão grandes que os comunicava a quem a ouvia, tendo-se por certo que o próprio Espírito Santo iluminava aquela alma? A ideia da fundação dum mosteiro de Carmelitas Descalças nasceu no espírito da Santa Madre por ocasião duma conversa que tiveram, um dia, na cela de D. Teresa de Ahumada, algumas freiras daquele mosteiro da Encarnação, suas parentes, como se dirá no capítulo seguinte.
[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]
Subscrever:
Mensagens (Atom)






















