quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

II Noite Escura 22|JAN|2011


poema: João Manuel Ribeiro
fotografia: Marta Nunes

Logo português, texto castelhano

As próximas JMJ estão quase à porta. Até que lá cheguemos há muito trabalho por fazer. Por exemplo o logo da Juventude Carmelita Ibérica. A notícia diz-nos respeito, porque o trabalho é do Tiago Gonçalves, da Equipa Coordenadora do Carrmo Jovem.
Parabéns, Tiago.

Segue o texto explicativo em castelhano; é par air preparando o encontro internacional. Segue: Este año la Jornada Mundial de la Juventud nos convoca en Madrid a una fiesta de Iglesia, a un foro de jóvenes cristianos de todo el mundo, de todas las familias y movimientos religiosos. El Carmelo participaremos, compartiendo nuestra espiritualidad, la palabra de Teresa de Jesús, y de Juan de la Cruz, Teresita y otras figuras del Carmelo. Y en el marco de estas jornadas celebraremos nuestro I Encuentro Teresiano Internacional.
El logo del Carmelo Joven quiere expresar esta doble dimensión: participamos de la Jornada con toda la Iglesia, y lo hacemos desde nuestras raíces, con el estilo que recibimos de Teresa y Juan.
Por eso acogemos el Logo de la JMJ Madrid 2011 y lo hacemos nuestro, lo reinterpretamos: combinamos los colores de la JMJ con el del hábito del Carmelo, y con los tonos de España y Portugal. Y ahora la corona de María se hace también Monte Carmelo, presidido por la cruz, acompañado por esas tres estrellas que en nuestro escudo sugieren diversos significados.
El trazo multicolor del logo evoca la diversidad de los que formamos el Carmelo: entre todos vamos construyendo esta familia, y nos acercamos a Jesús a través de María, la que enseña a guardar y meditar las palabras de Él en el corazón.. Para que desde el interior nazca el gozo y la fraternidad.
Para hacer este logo, convocamos un concurso. Entre todas las propuestas elegimos este diseño de Tiago Gonçalves, del Carmo Jovem portugués. Comenzamos así este año en que el Carmelo Joven Ibérico queremos acoger a los jóvenes del Carmelo de todo el mundo.

REPENSAR JUNTOS A PASTORAL DA IGREJA EM PORTUGAL

Apresentação

A Conferência Episcopal Portuguesa decidiu promover um caminho para “repensar a pastoral da Igreja em Portugal”, de modo a adequá-la melhor ao mandato recebido de Jesus e às circunstâncias actuais. Como ponto de partida, foi elaborado o documento “Formação para a missão – formação na missão”. Nele se aponta este objectivo: “encontrar uma compreensão comum a todas as Igrejas de Portugal dos caminhos da missão e enunciar prioridades de opções e dinâmicas de acção com as quais todas as Dioceses se comprometam”. E refere-se como método a leitura dos “sinais dos tempos”, segundo a perspectiva do Concílio Vaticano II (cf. GS 4 e 11).

O presente instrumento de trabalho dá continuidade prática ao citado documento, que indica: “Temos todos de perscrutar o Espírito, para na autenticidade do que somos, merecermos o futuro que Deus quer e nos dará”. Daí a oração que deve marcar e inspirar este esforço eclesial: “Ensinai-nos, Senhor, o vosso caminho e caminharemos na verdade. Dirigi a vossa Igreja em Portugal, para que honre e testemunhe o vosso Nome” (cf. Sl 86,11).

Neste esforço para repensar a pastoral, pretende-se envolver num caminho sinodal, em comunhão e colaboração, a nível diocesano e nacional, os múltiplos agentes pastorais (bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, movimentos, associações de fiéis e outras obras eclesiais). Assim, o itinerário percorrerá várias etapas, como se dirá mais abaixo. Não de trata de realizar um sínodo nacional mas tão só adoptar o espírito e o estilo sinodal.

O método com o qual se começa é o discernimento pastoral. Trata-se de um processo de observação, análise e perscrutação dos sinais de Deus na realidade da vida da Sociedade e da Igreja. Em termos paulinos, procura-se “discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito”, em ordem a determinar o caminho e os modos de a Igreja em Portugal cumprir de modo mais frutuoso a sua missão. Este processo, conduzido na atenção e docilidade ao Espírito Santo, requer previamente da parte de todos os que nele se envolvam a disponibilidade para se deixar “transformar, adquirindo uma nova mentalidade” (cf. Rm 12,2).

Neste caminho eclesial, procura-se atingir os seguintes objectivos específicos:

Chegar à consciência clara do que realmente move a Igreja na acção pastoral e à convicção de que sem uma confiança firme e a comunhão profunda com Cristo e em Cristo nada se pode fazer (cf. Jo 15,5). Discernir os sinais de Deus na sociedade actual, como apelos e luz que permite à Igreja vislumbrar o horizonte para o qual se deve orientar. Identificar e acolher a ajuda actual de Deus, com a qual abre à Igreja novos caminhos ou possibilidades inovadoras em ordem à sua missão pastoral.

I. Itinerário sinodal proposto
Para pôr em andamento este processo, propõe-se a todos os pastores das dioceses e aos dirigentes e responsáveis das variadas expressões da Igreja em Portugal a prática da comunhão e da colaboração eclesial em ordem à identificação das linhas comuns de acção pastoral. Elas não porão em causa o caminho e as legítimas opções de cada diocese ou organismo eclesial mas deverão inspirá-las e constituir o horizonte comum de referência.

Mediante o trabalho de discernimento pastoral, à luz do Evangelho e na atenção e docilidade ao Espírito, procuramos identificar progressivamente o caminho por onde ir e as prioridades a assumir, sabendo que não deixaremos cair os esforços habituais, mas colocamos o empenho principal nos novos caminhos...

Para essa caminhada, propomos os seguintes passos:

1. A Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) aprecia a presente proposta e instrumento de trabalho, apresentado pelo grupo promotor representativo das Dioceses e outras instâncias eclesiais em ordem a lançar a dinâmica da procura e do discernimento pastoral. Sendo aprovado, torna-o público para se pôr em prática. (Abril de 2010)

2. Nas Jornadas Pastorais do Episcopado, a CEP começa o processo de “repensar juntos a pastoral da Igreja em Portugal”, revendo experiências e ouvindo o contributo de peritos em teologia e pastoral e de figuras da sociedade civil e da cultura. (Junho de 2010)

3. Durante vários meses, nas Dioceses (conselhos pastorais ou outras instâncias), nas conferências ou direcções nacionais dos institutos de vida consagrada e dos movimentos e associações de fiéis far-se-á o trabalho de discernimento pastoral, conforme se propõe mais adiante. (Julho de 2010 a Março de 2011)

4. Depois, o resultado deste trabalho, com os vários contributos diocesanos e nacionais, é recolhido e sintetizado no Gabinete de Estudos pastorais da CEP. (Abril de 2011)

5. As conclusões recolhidas são depois reflectidas pelo grupo representativo das dioceses, congregações e movimentos. O resultado final será entregue à CEP. (Maio de 2011)

6. Nas jornadas pastorais, estudam-se as formas de pôr em prática as orientações comuns nas Diocese e nas diferentes instâncias da Igreja. (Jornadas Pastorais do Episcopado, Junho de 2011)

7. A CEP define as orientações pastorais comuns para a Igreja em Portugal. (Assembleia Plenária, Novembro de 2011)

8. Três anos depois (2014), pelos meios julgados oportunos, a CEP avaliará o caminho pastoral feito e os seus frutos, e, se assim o entender, definirá a sua continuidade.

II. Proposta para o discernimento pastoral (instrumento de reflexão)

1. Traços da situação actual
No Concílio Vaticano II, a Igreja reviu-se nas palavras de S. João (1 Jo 1, 2-3), nas quais declara que os apóstolos e toda a comunidade dos cristãos viviam em comunhão com Deus e com Seu Filho Jesus Cristo e deseja que os destinatários da sua carta pudessem também viver em comunhão com e como eles (cf. DV 1). Por esta comunhão com e em Deus, que é amor, a Igreja torna‑se “o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (LG 1).

Todavia, a incarnação desta comunhão na vida e missão da Igreja em Portugal encontra dificuldades e resistências várias, que entravam o testemunho do Evangelho na sociedade e o serviço espiritual aos homens. A Igreja – nas suas múltiplas dioceses, congregações religiosas, movimentos, novas comunidades, associações de fiéis – vive dispersa em inúmeras actividades, encontros, jornadas, congressos, instituições... que parecem não ter ligação entre si nem dar aquela vitalidade e inovação significativa na vida dos cristãos, nem irradiar sinais de esperança na sociedade em que vivemos. Há nela muitas instituições sociais, meios de comunicação social, instituições de ensino e assistência... mas parecem ficar no seu âmbito próprio, sem serem vistas e reconhecidas, e nem elas mesmas parecem sentir-se e agir como membros diferenciados de um só corpo, a Igreja. As cartas, notas, mensagens e outros documentos pastorais da Conferência Episcopal têm algum impacto no momento em que são publicados, mas depois são esquecidos, não chegando a dar os frutos desejados. O processo de catequese, sobretudo na infância e adolescência, foi recentemente renovado e alargado, mas observa-se que, a não ser numa pequena percentagem, acaba por não gerar cristãos vivos e empenhados. Por outro lado, no que se refere aos jovens e aos adultos, não se têm conseguido grandes avanços na formação sólida da fé de modo a acompanhar os diferentes momentos da vida das pessoas. Que falta?

Ao mesmo tempo que se nota decréscimo em vários aspectos na Igreja em Portugal, também há sinais novos. Mencionamos alguns, a título de exemplo, para que se descubram outros: na sequência do sopro conciliar do Espírito, a vida da Igreja e dos cristãos tornou-se mais simples e fraterna, desenvolveu-se bastante a participação laical, quer no interior das comunidades cristãs quer mesmo nalgumas causas (solidariedade em causas emergentes, defesa da vida, afirmação da família constituída por um homem e uma mulher unidos pelo casamento...), apareceram ou cresceram significativamente novos movimentos, comunidades e associações de fiéis, com propostas inovadoras de evangelização, de vida comunitária e de testemunho da fé no mundo... Não será, através destes sinais, que o Espírito Santo nos indica o caminho?

Vivemos, na Europa e também em Portugal, numa sociedade cada vez mais secularizada e, por vezes, secularista, abafando ou denegrindo o valor e a influência pessoal e social da religião, da fé cristã e da Igreja. Conforme a palavra de Deus proclamada pelo profeta, pode dizer-se que as pessoas escolheram confiar no homem e contar somente com a força humana, “afastando o seu coração do Senhor” (Jer 17, 5). Ao mesmo tempo, há sinais evidentes de que persistem nos corações humanos os anseios pela espiritualidade e pela comunhão com o mistério divino. E percebe-se o desafio à Igreja de saber comunicar o Evangelho de modo atractivo como “palavra que dá vida” e “vida em abundância”, e de fazer propostas cativantes que possibilitem matar a sede a quem procura saciar as inquietações do seu espírito pela comunhão com Deus.

Toda esta mudança social e cultural e a diminuição da relevância da Igreja constituem um apelo a todos os seus membros, para sermos, como escreveu João Paulo II, “mais humildes e vigilantes na nossa adesão ao Evangelho” (NMI 6). A Igreja em Portugal é assim chamada a viver em atitude de serviço generoso e a ser fermento pela autenticidade das suas propostas e do seu testemunho. Diz alguém: “O mundo é de quem o ama e sabe melhor prová-lo”.

2. Três aspectos para uma “nova maneira de ser Igreja”
Analisando a situação da Igreja em Portugal, nos seus múltiplos membros e actividades, e as circunstâncias sociais e culturais do nosso povo, parecem emergir três questões cuja resposta pode indicar o caminho para as prioridades da acção pastoral. São elas: a exigência da formação cristã, para sermos melhores fiéis e darmos testemunho do Evangelho; o empenho criativo, ardente e frutuoso na nova evangelização, com um modo cristão e eclesial novo de estar e agir no mundo; a reorganização das comunidades cristãs, que passa pela descoberta de novas formas de exercício do ministério sacerdotal e a implementação da diversidade de ministérios eclesiais.

Estas possíveis linhas comuns de acção pastoral deverão ser confirmadas ou eventualmente alteradas, após o processo de discernimento pastoral. Através dele, somos convidados a acolher o mesmo convite que o Espírito disse ao vidente do Apocalipse, quando lhe apresentou o retrato das Igrejas da Ásia Menor (Ap 2-3): trata-se de dar ouvidos ao que o Espírito hoje diz às Igrejas que estão em Portugal (cf. Ap 2, 7.11.17, etc.). Na observação, escuta e discernimento do caminho a seguir, não podemos deixar de atender à recomendação do apóstolo Paulo: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo, guardai o que é bom” (1 Ts 5, 19-21).

3. Questões para o discernimento pastoral
Neste caminho sinodal, procuramos fazer um discernimento em profundidade, identificando os sinais, a luz e a voz do Espírito. A Igreja em Portugal, através dos seus múltiplos responsáveis, é chamada a deixar-se interpelar e a tomar consciência de si mesma e das convicções que a movem, examinando se vive realmente o Evangelho de Jesus Cristo e se está a corresponder aos seus apelos.

Apontam-se duas grandes questões para o discernimento: uma sobre a leitura de fé dos sinais de Deus na sociedade e outra sobre os sinais e indicadores do Espírito Santo na própria vida da Igreja. As respostas deverão ser recolhidas e remetidas ao Secretariado da Conferência Episcopal.

Igreja em Portugal, “que vês na noite” da sociedade em que vives (cf. Is 21, 11)? Quais os sinais de Deus e os desafios para a tua missão? O que verdadeiramente precisam as pessoas de hoje, a nível espiritual e humano, e o que podes tu oferecer-lhes?

Igreja em Portugal, que indicações ou rumores do Espírito encontras hoje em ti (experiências, carismas, dinamismos existentes...) a apontar‑te o estilo de vida cristã e a “nova maneira de ser Igreja” adequada aos tempos de hoje? Que caminhos pastorais te assinalam os sinais e os dons do Espírito para viveres e testemunhares o Evangelho de Cristo?

4. Leituras de apoio a este itinerário de renovação pastoral
Para além dos textos base (desde a Sagrada Escritura ao Concílio Vaticano II…), destacamos: – Exortação Apostólica pós-sinodal «Ecclesia in Europa» de João Paulo II, 2003; Carta Apostólica «Novo Millennio Ineunte» de João Paulo II, 2001; Papa Bento XVI em Portugal – Discursos, homilias e saudações, 2010; Servidores da Alegria, Cardeal Walter Kasper, 2009...

Documento aprovado na Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa

Fátima, 14 de Abril de 2010

domingo, 9 de janeiro de 2011

II Noite Escura 22|JAN|2011


Ao som das caçarolas: SENTEI-ME À SOMBRA.


SENTEI-ME À SOMBRA
Sentei-me à sombra de Quem desejava,
Oh, que sombra tão celestial!
Oh, que sombra tão celestial!

S. Teresa
(Meditação sobre o Cântico dos Cânticos 5, 1; Cant 2, 3)

sábado, 8 de janeiro de 2011

DOMINGO: Baptismo do Senhor


Naquele tempo, Jesus chegou da Galileia e veio ter com João Baptista ao Jordão, para ser baptizado por ele. Mas João opunha-se, dizendo: «Eu é que preciso de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?». Jesus respondeu-lhe: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça». João deixou então que Ele Se aproximasse. Logo que Jesus foi baptizado, saiu da água. Então, abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência». [Mt 3, 13-17]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Santa Teresa de Jesus, a história continua...

XI

O TRIUNFO DA MADRE TERESA

No próprio dia da inauguração do convento das Descalças de S. José, a Madre Teresa houve de recolher, por obediência, à Encarnação. As quatro descalças ficaram sós, mas não abandonadas, porque a Reformadora as acompanhava sempre em espírito.
Ávila começa a viver, a agitar-se em volta do novo convento. A cidade em peso abala-se ao saber da inauguração, considerando o convento da Madre Teresa inconveniente mesmo à vida religiosa dos avilenses. Nunca a solução dum assunto prendeu tanto a atenção e interessou a cidade dos santos e dos cavalheiros como este do mosteiro fundado por D. Teresa de Ahumada. Dir-se-ia que estava em jogo para os avilenses a vida da nação...
No dia seguinte ao da inauguração, por volta das três horas da tarde, quando as Descalças estavam bem sossegadas nas suas celas, ocupadas nos trabalhos manuais, bate à porta do convento o regedor Carvajal que, aproximando-se da roda, intima as freiras com brados e por modos violentos a saírem imediatamente da clausura... porque o Conselho da cidade tinha resolvido suprimir o mosteiro da Madre Teresa.
Não se pode dizer o que sentiram neste transe difícil as quatro noviças, mas todas responderam de dentro que só sairiam quando as tirasse quem lá as meteu.
O regedor, fulo, ardendo em ira, volta à sala do Conselho. Novas discussões e novas deliberações. Não havia meio de se chegar a um acordo. Como resolver, então, o caso do qual dependia o sossego da cidade? Alguém propõe o alvitre, que logo foi aceite, de consultar as forças vivas de Ávila, clero, povo e fidalguia numa magna assembleia.
Com efeito, no domingo 30 de Agosto, pelas 3 horas da tarde, reúne a mencionada assembleia geral para decidir da aceitação ou destruição do convento da Madre Teresa.
Já vão chegando as autoridades civis, alcaide, regedor, oficiais de justiça, etc. O clero, tanto regular como secular, tinha também luzida representação, como o Vigário Geral da diocese, cónegos, o Rev. Dr. Gaspar Daza, alguns franciscanos, dominicanos, jesuítas. Nobres e fidalgos de Ávila quiseram também fazer acto de presença.
A sala de sessões regurgita de povo pertencente a todas as camadas sociais. Abre a sessão o Sr. Vigário Geral, que, em nome do Prelado, se limita a ler o Breve Pontifício chegado de Roma para a fundação, e imediatamente retira da sala. Começam logo as calorosas discussões.
A opinião mais forte, entre clérigos e seculares, é pela destruição do convento da Madre Teresa, não tendo força o Breve Pontifício – alegava-se –, por isso que se não observaram algumas condições... O povo, que não via com bons olhos a nova fundação de Descalças, concorda plenamente.
Nesta altura, quando as pessoas amigas da Reformadora viam a causa perdida, levanta-se para falar, fazendo sinal de silêncio aos assistentes, um grande teólogo da Ordem de S. Domingos, companheiro de armas daquele Frei Pedro Ibañez que aprovara com entusiasmo o espírito da Santa Madre e o projecto da Reforma da Ordem Carmelita. É Frei Domingo Bañez.
Toda a gente, na sala, volve os olhos para o jovem teólogo dominicano. Fala como só ele sabe falar: com aprumo, energia e precisão teológica.
– Não pode tomar-se assim – diz – de ânimo leve, uma resolução destas... acabar com um convento. Trata-se da supressão dum mosteiro aprovado já pelo Santo Padre e pelo Sr. Bispo de Ávila. Ponderem, também, os meus senhores –acrescenta – que esta obra é indubitavelmente destinada à maior glória de Deus e que a Madre Teresa tem muito bom espírito, pretendendo apenas com isto salvar e aperfeiçoar almas. A solução deste caso tão momentoso é, como se vê, da exclusiva alçada do Prelado, visto tratar-se dum assunto eclesiástico. É a ele e só a ele que incumbe resolver o caso, não a nós nem ao Conselho desta ilustre cidade.
Assim, em síntese, falou este eminente homem de ciência, tido e havido como alguém nos meios cultos de Ávila. E não admira, pois foi dos mais insignes teólogos do seu tempo. Aquelas palavras calaram fundo no ânimo da assembleia e podem ser até consideradas como uma mensagem do Céu, pois extinguiram completamente o fogo da luta acesa contra o convento das Descalças de S. José. Os assistentes entreolhavam-se admirados.
Triunfara, portanto, em toda a linha a Madre Teresa.
Quando, de novo, se levanta para falar o regedor Carvajal, já não é para pedir a supressão do convento de S. José, mas sim, para que se informe pormenorizadamente o Prelado da diocese do resultado da assembleia.
Assim terminara, com a vitória estrondosa da Madre Teresa, aquele memorável consistório avilense dessa tarde de domingo, 30 de Agosto de 1562.


[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]





sábado, 1 de janeiro de 2011

DOMINGO: EPIFANIA DO SENHOR


Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O». Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho. [Mt 2, 1-12 ]

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2010…gotinhas que vão! 2011…gotinhas que vêm!



Olhamos para os quilómetros andados neste 2010 e damo-nos conta que temos muito que nos alegrar e louvar a Deus.
Em cada actividade, vamos descobrindo novas amizades e estreitando laços que nos fazem sentir como é grande a família do Carmo Jovem e rica a Ordem que nos acolhe. E dessa descoberta brotam muitas gotas de alegria!
Gotas de esperança, nos jovens que este ano ingressaram na Universidade e que, abertos a uma nova experiência, não deixam de nos acompanhar e espalhar a Gotinha onde quer que passam.
Gotas de novas vocações religiosas entre os jovens do Movimento: tivemos a alegria da profissão simples do Frei Ricardo de Santa Teresinha; a entrada da Raquel de S. João da Cruz no Postulantado do Carmelo de Coimbra; e a experiência de Postulantado do João Carlos.
Mas na Ordem, foram mais as gotinhas de vocações religiosas por quem louvamos a Deus: o Frei Danny que celebrou igualmente a sua profissão simples e ao Renato Miguel que também se encontra no 1.º ano de teologia na comunidade do Porto enquanto Postulante. Pode ser que apareçam em 2011 numa das nossas actividades…
Gotinhas de novas vidas: o nascimento e baptizado da Beatriz e do Dinis. Prometem muito!
Gotas de juventude, nos frades mais jovens da Ordem que nos presentearam com a sua presença nas nossas actividades, como o Frei Marco Caldas, o Frei João Rego e o Frei Daniel. Queremo-los mais vezes :)
E como sempre, tivemos ainda a presença dos frades a quem já não dispensamos nos acampakis e que nos vêm conceder a graça da reconciliação: o Pe Castro, o Pe. Maciel e o Pe. Avelino.
Gotinhas de união, entre a Maria João e o Zé, que ficaram noivos e celebrarão o sacramento do Matrimónio em 2011.
Gotas de saudades das gotinhas mais velhas. Umas que, no decurso da vida, constituíram família (e, ao que consta, nelas germinam futuros provinciais da Ordem…), outras que foram assumindo encargos profissionais mais absorventes. Mas todas elas vão acompanhando a Ordem noutros serviços e grupos, e vieram durante este ano visitar-nos e ajudar a carminhar as novas gerações. Contamos sempre com a presença das gotinhas mais velhas!
Gotas que vêm, de muitos lugares, Alhadas, Aveiro, Avessadas, Braga, Cantanhede, Caíde de Rei, Coimbra, Moinhos da Gândara, Paços de Gaiolo, Viana do Castelo, Vila Praia de Âncora, Rosém.
Gotas que neste ano, 2010, chegaram à 103118ª visita no Blog.
Gotas que vêm e carminham juntas. E como é bom carminharmos juntos!
Em 2011, vem tu também! Por que esperas? Por que tardas? Esperamos por ti em Caíde, Âncora, Avessadas, Paços de Gaiolo, Fátima, Viana, Madrid…
A Coordenação do Carmo Jovem



2011- Vem tu também!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Teresa e os muitos caminhos, Beatriz e o Bispo!

- Crónica da XVI Carminhada.



No dia 11 de Dezembro, p.p., logo pela manhãzinha, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Braga encheu-se de renovada alegria pela chegada de muitos jovens até ao seu seio.

Por volta das 9h começámos a reunir-nos cheios de alegria e vontade de carminhar. Os primeiros a chegar, com um grande sorriso nos lábios, foram os nossos amigos vianenses e âncorenses. Logo de seguida juntaram-se os da casa e os de Caíde de Rei, Lousada; já mais tarde, enquanto entoávamos cânticos fervorosos à nossa Mãe chegaram os amigos de Paços de Gaiolo e Avessadas (embora o condutor do autocarro se tenha esquecido deles, a Virgem fez com que chegassem até nós para juntos carminharmos!).
Uma vez todos reunidos demos início ao nosso carminho. Inicialmente, pedindo a bênção à Senhora, junto do seu manto, de seguida, com os pés a caminho e sempre com o lema “Quem vai por este caminho não vai sozinho, leva muita gente atrás de si” (S. Teresa), no pensamento. E assim, atrás do cajado, humildemente levado pelo Jorge, e da cruz, que o Pedro, seu irmão, transportava com muita determinação, ia uma multidão jovem com o coração aberto para partilhar emoções, até tão desejada chegada à capela de Nossa Senhora da Consolação do Monte.
Teresa carminhava connosco, ria connosco, rezava e cantava connosco. Alegrava-se connosco. Ela gosta sem dúvida dos jovens carmelitas. E por mais essa razão nenhum de nós carminhava sozinho!
Ao carminhar pelas ruas da cidade de Braga muitas foram os bracarenses, que, surpreendidos, nos abordavam, pois não sabiam para quê e para onde se deslocavam tantos jovens. Pudera!

A nossa primeira paragem técnica foi já sob o olhar atento de Nossa Senhora de Braga. Logo depois dum gole de água, de mãos dadas à volta da Virgem com o seu filho ao colo, entoámos um belo hino e uma pequena oração. E aos pés de tão bela Mãe desta linda Cidade terminámos a paragem com uma das orações mais significativas, o Pai nosso.
De regresso ao caminho passámos por outros belos locais, alguns bem característicos, que mereceram os nossos cânticos e a partilha das nossas conversas e confidências. A vontade de alcançar o fim do carminho era cada vez maior, pois sentíamos que não caminhávamos sós. Isso dava-nos outro alento para continuar e jamais pensar em desistir!

Já passava um pouco do meio-dia e o sol ia alto (sim, porque viveramos toda a semana com medo do boletim meteorológico e do tempo chuvoso, porém o dia sorria para nós!) quando o pároco de S. Tiago de Fraião, com um ar simpático e humilde nos recebeu no seu novo templo a cheira a fresco. Alegremente e de forma resumida falou da concretização de muitos anos de esforço e dedicação para obter o resultado final que, pelo olhar unânime de todos demonstrou ser muito positivo. Mas acima de tudo ficou marcado o amor transmitido a toda a sua gente.
A pausa maior foi feita à chegada do tão desejado Monte de Nossa Senhora da Consolação. À chegada tínhamos um espaço convidativo à nossa espera para um bem merecido repouso. Espalhados pelas mesas à volta da pequena capela que para nós se abriu, partilhamos o almoço assim como, também, a nossa bela amizade de uns para com os outros. Mas as partilhas não ficaram por aqui!... No final do nosso almoço, quisemos ainda brindar a nossa aniversariante do dia (a nossa Maria de Babo, que completou 16 aninhos!), com um modesto bolo de chocolate rodeado com 16 velinhas (e uma extra; ou não estivesse o Frei João por perto… - Desculpa, Maria!).
Para culminar este momento de partilha e sublimidade, os jovens que no último Horeb estiveram com nossa Mãe Santa Teresa de Jesus, ensinaram-nos uma canção, com direito a coreografia e tudo mais. Embora fosse uma canção simples e pequena, a sua letra dizia muito, vejam só:


“Sentei-me à sombra de quem desejava,
Oh que sombra tão celestial,
Oh que sombra… tão celestial!”
(Agora vão passando pelo blog, até que a Maria João post por lá a canção e a possam aprender!...)

E foi com o ânimo viril de Santa Teresa que descemos o Monte da Senhora da Consolação descendo, com ligeireza, a bela encosta do Bom Jesus até chegarmos por debaixo do manto da Mãe do Carmo, que nos aguardava cheia de ternura.
Pois bem, a chegada ao Carmo não demorou muito, e pouco depois das 16h estávamos prontos para dar início à nossa Eucaristia.
Estávamos no terceiro Domingo do Advento, e como tal acendia-se neste dia a terceira vela da coroa do Advento que ajuda a preparar o caminho do Senhor. Para o efeito, o Frei João convidou para acender a primeira vela a família Branco Pereira (Susana, Pedro e Beatriz), que nos alegrou com a sua presença amiga; de seguida, a segunda foi acendida pela mãe da Betinha (uma das jovens carmelitas presentes na carminhada); e por último, para a terceira, convidou um inesperado velhinho amigo seu mas desconhecido para nós, que rapidamente se nos tornou muito familiar: ou seja, tínhamos perante nós e no meio de nós a discreta presença do senhor D. Abílio Ribas, Bispo emérito de S. Tomé e Príncipe. Ele, bispo e membro da Igreja como nós, acendeu-nos a terceira vela do Advento. Que feliz coincidência, digam lá! É verdade. O senhor Bispo estava de passagem pela Igreja do Carmo, onde parara para rezar o Rosário antes de partir na camioneta para S. Bento da Porta Aberta, onde, ali, voluntariamente, todos os Domingos confessa os peregrinos, que por lá passam.
Ó que bênção para nós! O Carmo Jovem já teve direito a Bispo!

Logo depois, de cajado na mão, e com a faixa do Movimento, o senhor D. Abílio contou-nos emocionadamente a sua experiência de vida, a sua passagem como missionário por Moçambique, a forma como chegou a Bispo de S. Tomé e tudo o que trabalhou pela população para que se sentisse livre e em paz, feliz e independente. Uma verdadeira longa lição de vida que nos deixou sem palavras, e que tocou fundo a alguns de nós, especialmente uma sãotomense e a uma voluntária portuguesa que há pouco ali trabalhara…

Como o tempo urgia deixou-mos uma valorosa mensagem de força a todos nós, jovens, e seguiu viagem, e nós seguimos a Eucaristia, com um grande momento de união e sob o olhar atento da Virgem Mãe do Carmo e de Teresa.

Antes de terminar a celebração foi-nos entregue uma peça de um puzzle como lembrança da XVI Carminhada, em Braga. Esta peça, embora tão pequenina tem um grande significado, pois um puzzle completo com a nossa pequena gotinha ficou dividido em muitas partes, cada uma delas somos nós! E o puzzle só voltará a estar completo quando todos estivermos juntos, novamente!

Por fim, a bênção final foi dada pelo nosso Frei João, mas não sozinho… pois quem vai por este carminho não vai sozinho. E foi assim que ele ergueu bem erguidas as suas mãos e nelas a nossa mascote, a pequena Beatriz, que, infante e sorridente o ajudou a abençoar-nos a todos em nome de Deus! Ó que belas e inesperadas são as lembranças do Frei João!
No final, como vem sendo hábito, tirámos a mítica foto de família e fizemos a já característica entrega do cajado, desta feita aos nossos amigos âncorenses que no próximo ano serão os anfitriões da próxima carminhada do Carmo Jovem.
A despedida não foi muito demorada, uma vez que a muitos ainda lhes esperava umas horinhas de carminho sob carris. E como se sabe os carris não esperam; ou esperam, mas não espera o que rola sobre eles. Adeus, amigos!
Assim, num santiamén, terminou a XVI Carminhada. Cada um regressou ao seu lar, mas com a certeza de que não estamos sós, que jamais caminhamos sós, que é impossível ser-se de Teresa e caminhar-se só, que temos uma multidão de amigos cheios de alegria no coração.
Como é bom sermos pequenas gotinhas!


Betinha e Luis, Braga







quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ao som das caçarolas: PONHAMOS OS OLHOS EM CRISTO


PONHAMOS OS OLHOS EM CRISTO
 
Ponhamos os olhos em Cristo
E aprenderemos a verdadeira humildade.
 

Ponhamos os olhos em Cristo
E aprenderemos a verdadeira humildade.

S. Teresa (1Moradas 2, 11)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Santa Teresa de Jesus - Cap.10

X

UM DIA VIVIDO NO CARMELO DE S. JOSÉ
Portugal produziu, entre outras, duas obras-primas: o Brasil, com 61 milhões de habitantes, do outro lado do Atlântico, país com enormes possibilidades económicas, fadado a altaneiros destinos, e os “Lusíadas”, história sagrada dos feitos gloriosos dos portugueses. “Duas obras-primas deixou, também, o génio de Santa Teresa: o Castelo Interior e a carmelita que vive como ela viveu. Por mais fidalga que ela seja, vivendo da oração, da contemplação, no trabalho, no jejum, na pureza, na mortificação, na pobreza, na alegria sorridente e calma das almas angélicas, a carmelita é também uma obra-prima de Teresa”.


A vida da freira descalça na Ordem fundada por Santa Teresa, enclausurada entre altos muros e grandes cercas no mosteiro... é a coisa mais simples. Todo e qualquer Carmelo Teresiano é, na verdade, a casa de Deus por excelência, e uma porta para o Céu, pela prática constante da oração e da meditação e pela vida de silêncio que é, como disse alguém, a atmosfera das almas grandes. Asilo de paz, como há poucos na Santa Igreja. A oração e o sacrifício, são os dois pontos fundamentais da vida carmelita descalça, consoante o espírito da Santa Reformadora.


*

Como me vi mulher ruim e impossibilitada de trabalhar como eu quisera – escreve Santa Teresa – no serviço do Senhor, toda a minha ânsia era, e ainda é, pois Ele tem tantos inimigos e tão poucos amigos, que estes fossem bons. Determinei-me, pois, fazer este pouquito que está em minha mão: seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurar que estas poucas que aqui estão fizessem o mesmo. Punha a minha confiança na grande bondade de Deus que nunca falta em ajudar a quem por Ele se determina a deixar tudo; e que, sendo elas tais quais eu as imaginava em meus desejos, entre as suas virtudes não teriam força as minhas faltas, e poderia assim contentar nalguma coisa o Senhor, e que todas, ocupadas em oração pelos defensores da Igreja e pregadores e letrados que a defendem, ajudássemos, no que pudéssemos, a este Senhor meu, que tão atribulado O trazem aqueles a quem fez tanto bem. Dir-se-ia que estes traidores O querem agora de novo pregar na cruz, e que não tivesse onde reclinar a cabeça... Ó irmãs minhas em Cristo! – continua a Madre Teresa – ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, que para isto vos juntou Ele aqui. Esta é a vossa vocação; estes hão-de ser os vossos negócios; estes hão-de ser os vossos desejos; aqui as vossas lágrimas; estas as vossas petições.


Conhecido o espírito e finalidade do convento de S. José, convém saber qual seja o novo teor de vida implantado pela Madre Teresa nos seus Carmelos. O ilustre P. Crisógono de Jesus, O. C. D., o mais moderno dos biógrafos da Santa, descreve assim a vida das Descalças: Ás 5 horas precisas, ouve-se uma campainha que enche com os seus sons os corredores silenciosos do Carmelo. É um convite para a oração. Abrem-se suavemente as portas das celas e começam a sair as monjas, que desaparecem como sombras no claustro alumiado por uma luz mortiça. Entram no coro e vão ajoelhar ao pé da grande grade de ferro que deita para a capela. Feita a invocação ao Divino Espírito Santo, uma das freiras faz a leitura dum breve ponto de meditação e, seguidamente, as religiosas conservam-se em silêncio durante uma hora.


A Comunidade está em oração... Pensam em Deus, nos mistérios de Cristo, Senhor Nosso, nas misérias da vida humana... E oram; oram as Carmelitas pela Santa Igreja, pelos sacerdotes, pelos luteranos que avançam na Alemanha, França e Flandres, ameaçando penetrar também na Espanha.


A Madre Teresa lembra-lhes com insistência que há-de ser este o objecto e finalidade das suas preces. Foi para isto – diz-lhes – que Deus nos colocou no Carmelo. Finda a oração, reza-se parte do Breviário.


As vozes melífluas das Descalças reboam, como vozes de anjos, pelos âmbitos da pequena igreja conventual e deixam-se ouvir também, às vezes, como eco do Céu, pelas ruas solitárias e silenciosas. Seguem-se depois a Santa Missa, a Sagrada Comunhão, arrumação de celas, trabalhos manuais nas diferentes oficinas do mosteiro.


Momentos há, durante o dia, em que a faina das freiras transforma o Carmelo numa colmeia humana; trabalham as Carmelitas como laboriosas abelhas, mas em silêncio... Mãos à obra, coração em Deus.


No refeitório, sobre o lugar que ocupa a Madre, ergue-se na parede uma grande cruz de pau e, sobre a mesa, uma caveira humana... Mesitas toscas, sem nenhum polimento, jarras e tijelas de barro, talheres de madeira: eis todo o apetrecho da sala de jantar. E aqui se juntam as filhas espirituais de Santa Teresa para comerem algumas ervas e hortaliças que apanham na horta, preparadas com quatro gotas de azeite.
 
Nos dias festivos a Regra permite melhorar a refeição: um ovo para cada religiosa. Por vezes é a própria Reformadora que os prepara na frigideira. Algumas vezes já foi surpreendida, em êxtase, com a frigideira na mão, toda cheia de caridade.


– “Não sabíeis que também entre as panelas da cozinha anda o Senhor?” – diz sorridente ao sair do êxtase.


E lá vão vivendo as Descalças de S. José na pobreza, na abstinência, no jejum, que se prolonga por seis meses, desde 14 de Setembro até à Páscoa. Depois da frugal refeição, dirigem-se as freiras, rezando salmos e preces, para o jardim, quando o tempo o permite, ou para uma sala de recreio, na estação do frio e das chuvas. Começa então a hora de recreio para a Comunidade. A Santa Reformadora liga a este ponto da Regra tanta importância como aos mais santos exercícios da vida conventual. É que não pode, de forma alguma, manter-se sempre tenso o arco sem partir e o espírito precisa de espairecer, de expandir-se, se quer conservar-se dentro dum plano de vida austera. E como se tornam agradáveis às religiosas estes momentos de lazer no Carmelo de S. José! Fala-se, canta-se, trabalha-se e todas riem e folgam.


As monjas, sentadas no chão, fiam ou fazem trabalhos de bordado, preparam escapulários, compõem e passam a ferro as toalhas do altar, ou pintam alguma cortininha para o Sacrário. A Madre Teresa, no meio delas, conversa afavelmente e gosta de brincar, animando o recreio com chalaças de bom gosto, enquanto as mãos, pequenas e lindas, como de fada, fiam, costuram ou bordam.


Aos domingos e dias santos não se trabalha durante o recreio; as Descalças cantam versos e sentidas estrofes compostas pela Madre Teresa. Então, na quadra do Natal, fazem as Descalças Carmelitas autêntica algazarra, dançando em volta do Presépio armado na sala de recreio. Esta toca castanholas, aquela tamboril, aqueloutra algum instrumento de música diferente dos anteriores, e não faltam algumas, das mais espertas e desembaraçadas, que alegram a Comunidade representando o papel de cantador e cantadora de Belém, com seus versos e ditos jocosos, mas sempre cheios de sentido espiritual.


Há, nas horas de recreio, algumas cenas tipicamente alegres, iniciadas e animadas pela Santa Reformadora.


Um dia, as freirinhas de S. José sentem-se incomodadas por uns bichinhos importunos, que aparecem entre as costuras das túnicas de lã que usam as Descalças. A Madre Teresa entende que se deve pedir a Deus que livre as suas filhas duma peste destas e assim promove no Carmelo uma procissão de rogativa ao Santo Crucifixo que se venera no coro. As freiras incorporam-se no cortejo, não a rezar as ladainhas dos Santos, mas cantando uns versos que a Reformadora compôs para esta ocasião. Organiza-se a tal procissão de penitência, ao cair da tarde dum lindo dia de sol, quando a luz crepuscular já não é capaz de alumiar os corredores estreitos de tecto baixo e soalho de tijolo do mosteiro. Dirigem-se as Descalças para o coro, em duas fileiras, sob a presidência da Santa Madre, que vai na retaguarda do cortejo, impetrando ardentemente ao Senhor que lhes conceda a graça. As monjas cantam, revezando-se com a Madre, diversas estrofes, das quais copiámos uma apenas, na língua em que foi composta:

Todas: Pues nos dais vestido nuevo,
Rey celestial,
librad de la mala gente
este sayal.

Todas: Hijas, pues tomais la cruz,
tened valor,
y a Jesus, que es nuestra luz
pedid favor;
El os será defensor
en trance tal.


Madre: Librad de la mala gente
este sayal.



E a verdade é que se realizou o milagre. As Descalças de S. José nunca mais se sentiram mortificadas por hóspedes tão importunos, e desde aquele dia, é denominado aquele crucifixo do coro o Santo Crucifixo dos piolhos.


Com que fervor voltam as Carmelitas aos seus costumados exercícios de piedade e penitência depois destes momentos de espairecimento espiritual! A santa alegria, característica das filhas de Santa Teresa, perdura-lhes na alma através de todas as práticas da vida monástica. E, assim, a Santa Reformadora consegue imprimir à sua espiritualidade esse carácter jovial tão típico de tudo o que é teresiano, afugentando das suas casas essa santidade melancólica, acanhada, sombria e encapotada, que a Santa Madre aborrece como uma terrível enfermidade espiritual. Por isso, no Carmelo reformado, tudo vai envolto num ar de simplicidade e alegria: as penitências, o serviço do coro, os trabalhos manuais...


São 15 horas; rezadas as Vésperas pela comunidade, reina silêncio absoluto no convento de S. José. Nem ruído do abrir e fechar de portas, nem passos de monjas, nem, ao menos, o doce eco da recitação de salmos no coro. É que cada carmelita está agora recolhida na cela, entregue ao seu labor.


Sentada modestamente no chão, sobre o duro leito, ou ainda num tapete de cortiça, para se preservar da humidade, trabalha com casta ilusão de esposa, postos os olhos no Divino Esposo. Enquanto as mãos fiam, bordam ou fazem as alparcatas de cânhamo para uso das irmãs, o seu pensamento, como mariposa, vai adejando de flor em flor, ou passa progressivamente por todas as moradas do místico Castelo Interior à procura do Bem-amado...


O dia vai já declinando e o relógio do Carmelo marca 17 horas. As Carmelitas vão rezar Completas, seguindo-se uma pequena refeição ou ceia em volta da cruz de pau e da caveira humana; alguns legumes ou um pouco de verdura, pão e um pouco de água na tigela de barro.


Das 20 às 21 horas faz a Comunidade a sua meditação perante o Santíssimo Sacramento, terminando com a recitação lenta e fervorosa de Matinas. Depois, exame de consciência, disciplina e últimas preces aos Santos da Ordem.


Finalmente, recolhem as Descalças às celas, esperando, enquanto fazem as suas devoções particulares, pelo sinal de deitar que não deixa de ser impressionante. Às 23 horas ouvem-se nove toques compassados, que uma das freiras produz, numa espécie de matraca, ajoelhada no meio do dormitório das religiosas. Nisto saem todas as irmãs à porta da sua cela, onde caem de joelhos. Erguendo então a sua voz diz a freira da matraca uma máxima ou sentença espiritual, profunda, sobre a morte, a eternidade, a excelência duma virtude, etc., a exemplo da que segue:


Num sepulcro profundo


Morrem as glórias do mundo.


E enquanto o sentido deste aviso de Deus penetra fundo na inteligência e no coração das religiosas, a Madre Teresa vai passando junto a cada uma das freiras lançando-lhes a bênção. Agora, com a bênção da Superiora, já podem deitar-se as Descalças sobre o duro leito de tábuas. Volvidos mais 15 ou 20 minutos, tudo dorme no mosteiro de S. José, até que, ao dealbar, soe de novo a campainha chamando à oração.


[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]



domingo, 26 de dezembro de 2010

DOMINGO dentro da Oitava do Natal

Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pelo Profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora anunciado pelos Profetas: «Há-de chamar-Se Nazareno». [Mt 2, 13-15.19-23]