segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Fotos da XVII Carminhada, Vila Praia de Âncora, 19 Fev '11

Dizem que foi um dia espectacular. E foi mesmo! A nossa sorte, como sempre, é ter Caíde de Rei connosco que vai pedindo ao padroeiro, S. Pedro, que nos dê o bom tempo. E para espanto de todos, principalmente de quem preferiu ficar em casa abrigado da chuva, o sol raiou todo o dia. Foi a XVII Carminhada, em Vila Praia de Âncora. Aveiro, Braga, Caíde Rei, Moinhos da Gândara, Paços de Gaiolo, Vila Praia de Âncora, Viana do Castelo, estivemos todos lá.
 Ficam algumas fotos (as primeiras) e em breve, aparecerá a crónica. Por falar nela, quem a quer fazer?


sábado, 19 de fevereiro de 2011

DOMINGO VII DO TEMPO COMUM


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». [Mt 5, 38-48]

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A história continua...Santa Teresa de Jesus, cap XVI

XVI
ÚLTIMAS FUNDAÇÕES

Lindo dia de sol, o de 25 de Novembro de 1579! Tem chovido muito em Toledo e o vento Norte varre as nuvens. A Madre Teresa por ordem do Superior, Frei Ângelo de Salazar, deixa o mosteiro da cidade dos Concílios que lhe servira de cárcere durante três largos anos, e vai, agora acompanhada da irmã conversa Ana de S. Bartolomeu, a caminho de Villanueva de la Jara, aldeia da província de Cuenca, com 3.000 habitantes, onde pretende fundar mais um Carmelo.
O sol, depois da tormenta, parece-lhe mais belo, o ambiente mais amorável, as flores do outono mais formosas. Com beneplácito dos Superiores, descansa a Santa Reformadora dois meses em Malagón, enquanto se vencem as últimas dificuldades e tudo se apronta para a fundação, que será o décimo terceiro dos Carmelos por ela fundados.
A Santa Madre está agora melhor de saúde porque lhe fizeram muito bem, tanto ao corpo como à alma, os três anos de reclusão impostos pelo P. Geral da Ordem, mas está já bastante cansada, porque anda nos seus 64 invernos. Traz o braço esquerdo ao peito, pois reza a tradição que, empurrada pelo demónio, fulo por lhe haver tirado tantas almas, rolara, um dia, escada abaixo no mosteiro de S. José, em Ávila, na última ocasião que lá esteve. É por isso que agora a Santa Madre andará sempre acompanhada de Ana de S. Bartolomeu, alma simples e santa, que lhe prestará com toda a dedicação de filha, os serviços de enfermeira e secretária, ajudando-a, por vezes, até a redigir cartas.


Saíra, portanto, de Toledo na companhia desta sua enfermeira, para o mosteiro de Malagón por ela mesma fundado. Aqui se demorou Santa Teresa até ao dia 13 de Fevereiro, partindo nesta data para Villanueva de la Jara, nas vésperas da Quaresma.
Quis levar consigo, destinadas à nova fundação: quatro religiosas, duas de Toledo e mais duas de Malagón. Foi uma viagem verdadeiramente triunfal a jornada de Malagón a Villanueva de la Jara, pois toda a gente das aldeias saía à beira das estradas a ver a Santa Madre, cuja fama já enchia a Península.
O P. António de Jesus e o Prior dos Carmelitas Descalços de La Roda, Frei Gabriel da Assunção, acompanharam as monjas nesta jornada.
Conta-nos, no relatório desta fundação, a Beata Ana de S. Bartolomeu71 que, na povoação de La Roda, onde as fundadoras se detiveram três dias, foi preciso pôr polícia à porta da casa onde se hospedava Santa Teresa, porque o povo invadia literalmente as dependências todas para a ver e falar-lhe.


Entraram em Villanueva de la Jara nas primeiras horas do dia 21 de Fevereiro de 1580, que era o 1º Domingo da Quaresma, tomando-se nessa mesma data posse da nova fundação na ermida de Santa Ana e iniciando-se a vida carmelita descalça na casa-convento a ela anexa. Note-se que, apesar de ser pobre o lugar, Santa Teresa recusou-se a admitir rendas de qualquer espécie, confiando na Divina Providência que não abandona nunca os que servem a Deus com fidelidade.

*Ao findar o mesmo ano, 1580, realizou a Santa Reformadora uma outra fundação, a do mosteiro de Palência. Meteu ombros a este empreendimento a rogos do Sr. Bispo daquela diocese, D. Álvaro de Mendoza, ilustre Prelado que já conhecemos e que lhe era muito dedicado desde que tratara com ela mais de perto, quando Bispo de Ávila.
Tendo tomado posse do Bispado de Palência, em 9 de Fevereiro de 1578, e não se sentindo bem sem o conforto espiritual e exemplos de virtude das Descalças, pedira aos Superiores da Ordem a fundação dum Carmelo da Madre Teresa na sua cidade episcopal.
A própria Madre Reformadora quis ir inaugurá-lo pessoalmente, em atenção aos favores que dele havia recebido, quando da fundação do mosteiro de S. José de Ávila, no ano de 1562.
O dia aprazado para a inauguração do mosteiro e início da vida carmelita descalça em Palência, foi o dia 29 de Dezembro daquele ano, 1580, tendo chegado, dias antes, de Valladolid, onde estivera muito doente, mesmo em perigo de vida, por ocasião da epidemia de “influenza” que então grassava na Espanha72.
Esta fundação foi a que menos custou à Santa Reformadora. Tudo correu às mil maravilhas: licença do Prelado, compra da casa, escrituras, capelães, sustento das monjas, sem dissabores de nenhuma espécie. O Sr. Bispo, logo no dia da entrada, prometeu prover o Carmelo de quanto precisasse. A Santa Madre mostrava-se encantada com aquela gente palentina, em que via um como reflexo da Igreja primitiva na pureza da fé, nos costumes simples e morigerados do povo, na prática da verdadeira caridade cristã.


Volvidos alguns meses, passaram as Descalças a viver numa casa melhor, mas quis D. Álvaro que isso se realizasse com toda a solenidade, em procissão, acompanhando as Descalças o Prelado, o cabido e o povo. Mais; insistiu em que fosse a própria Madre Teresa quem presidisse ao cortejo, incorporando-se ela no termo da procissão, ladeada pelo Bispo, à direita, e pelo Cónego Jerónimo Reinoso, grande protector das Descalças, à esquerda. E assim se fez. Como andaria Santa Teresa tão confundida na sua humildade! É que Deus timbra em exaltar os humildes e a Santa Reformadora era espelho de humildade.
Não nos deve passar despercebido um gesto, cheio de significado, que teve a Madre Teresa quando soube da transferência de D. Álvaro para a diocese de Palência. É sabido que o primeiro convento de Descalças fundado em Ávila pela Madre Teresa, com Bula de Sua Santidade Pio IV, ficara sujeito, por causas especiais, ao Sr. Bispo de Ávila73, que então era D. Álvaro de Mendoza. Ora, mal soube que este grande amigo e favorecedor da Reforma ia ser transferido para Palência, apareceu um dia, de surpresa, no convento de S. José de Ávila, a fim de tratar com os Superiores e Prelados da mudança de jurisdição, no sentido de que este Carmelo ficasse também sujeito aos Superiores da Ordem, exactamente como os outros mosteiros de Descalças por ela fundados, sem excluir o de Caravaca que estava situado em territórios da Ordem Militar de S. Tiago. A Reformadora alcançou o que pretendia, como se vê, tanto nesta como em outras ocasiões, mostrando-se prudente, diplomata e filha extremosa do Carmo.
Estando ainda no Carmo de Palência, experimentou Santa Teresa uma das maiores alegrias da sua vida; e o motivo não podia ser mais justo. Folgando um dia com suas filhas à hora do recreio, chegara ao seu conhecimento uma boa nova, a mais compensadora que ela, Reformadora do Carmo, poderia desejar; o Santo Padre Gregório XIII, por Breve de 22 de Junho de 1580, concedera autonomia aos Descalços e Descalças de Nossa Senhora do Carmo, separando-os da jurisdição dos Calçados. Queria isto dizer à Madre Teresa, doente, envelhecida e extenuada com as fadigas e canseiras de tantas fundações, que a Santa Igreja reconhecia a sua obra, a Reforma Carmelita, como Ordem Religiosa independente, com a sua Regra, a Primitiva, e com os seus Superiores próprios.
O triunfo da Madre Teresa não podia ser mais estrondoso. Não é fácil fazer uma ideia da exultação do espírito da Santa Reformadora nesta conjuntura do júbilo que lhe inundou a alma ao receber tão grande notícia.


Agora já podia Santa Teresa cantar o “Agora, Senhor...”, com o velho Simeão; já podia levantar voo para o Céu. E com toda a razão. Lançando os olhos pelas imensas planícies de Castela e Andaluzia, cobertas de oliveiras e trigais, via espalhados, aqui e além, por toda a parte, conventos reformados de Descalços e Descalças Carmelitas, que representavam a realização mais completa do seu sonho dourado.
Teresa de Jesus tinha cumprido totalmente a missão que Deus lhes confiara na Terra.
*

À fundação do Carmelo de Palência seguiram-se as de Sória, Granada e Burgos. Realizou-se a primeira a 14 de Junho de 1581, dia dedicado na Ordem ao Profeta Eliseu. Teve a dar-lhe brilho a presença da Santa Madre, a pedido do Dr. Velasquez, Bispo de Osma, que tinha sido seu confessor, quando da estadia da Madre Fundadora em Toledo onde fora cónego.
Rezam velhos manuscritos que este ilustre Prelado quis assistir, da sacada do paço, à entrada da Madre Teresa e de suas filhas na cidade de Sória, lançando-lhes a bênção, enquanto a Reformadora ajoelhava no carro, voltada a face para o Sr. Bispo. O P. Graciano teve muita pena por não poder acompanhar Madre Teresa nesta fundação, sendo substituído pelo P. Nicolau de Jesus Maria Dória, oriundo da Itália, figura de grande relevo na Ordem dos Carmelitas Descalços (1539-1594).
Em Sória, que apenas tinha 5 ou 6.000 habitantes nos dias de Santa Teresa, não muito longe da célebre Numância, encontrou-se casualmente Santa Teresa com um seu antigo confessor, que seria, no rodar dos tempos, um dos seus mais ilustres biógrafos, Fr. Diogo de Yepes, frade da Ordem de S. Jerónimo.
Andava lá por aqueles dias este insigne monge a cumprir uma pena que lhe tinha sido imposta pelo Capítulo Geral da sua Ordem, como lhe disse a ele mesmo a Madre Teresa, abrindo-lhe o íntimo da alma. Duas vezes, neste feliz encontro, teve o P. Yepes a subida honra de confessar Santa Teresa e ministrar-lhe a Sagrada Comunhão. E diz ele, na “Vida” que dela escreveu e enviou a Frei Luís de León: “mostrando a Santa Reformadora no rosto a cor de terra, quer porque já ia adiantada nos caminhos da vida – tinha 67 anos – quer pelas contínuas enfermidades, trabalhos, jejuns e vómitos, que lhe duraram mais de 30 anos, quando ia comungar, transfigurava-se-lhe o rosto de tal forma, como a Santa Catarina de Sena, que ficava resplandecente, de cor transparente e com tamanha majestade que a mim me causava grande devoção, porque manifestava bem Quem tinha na alma e como o Divino Hóspede Se sentia bem com ela”.
Faltara um dia dinheiro a este ilustre sacerdote para cobrir as despesas duma viagem. Conhecendo Madre Teresa o aperto em que se encontrava, emprestou-lhe de bom grado a quantia de que precisava. Passados alguns dias quis Fr. Diogo devolver à Santa Reformadora o dinheiro emprestado. A Madre Teresa, porém, recusou-se a recebê-lo, dizendo-lhe assim: “Ficai, Rev. Padre, com o vosso dinheiro, e quando fordes Bispo mandai construir um mosteiro para as minhas filhas”.
Naquela altura estava bem longe Fr. Diogo de Yepes de pensar em ser Bispo, mas a verdade é que chegou a sê-lo de Tarazona, nomeado por D. Filipe III, e mandou edificar na sua mesma cidade episcopal um Carmelo para as filhas de Santa Teresa (1600).
*

A fundação do Convento de Granada preparou-a Madre Teresa em Ávila, mas não pôde ir pessoalmente inaugurá-la por duas razões: em primeiro lugar, porque andava, por esses dias, bastante enferma, muito caída, fatigada pelas viagens fundacionais por terras de Castela e Andaluzia, caminhando a passos largos para o seu fim último; em segundo lugar, porque tinha dado a palavra de ir ela própria fazer a fundação do Carmelo de Burgos e não queria faltar.
S. João da Cruz, alma desta fundação de Granada, veio propositadamente para levar consigo a Santa Madre a Granada, carregado de patentes e licenças e com todos os requisitos para uma viagem tão longa e tão maçadora de Ávila a Granada em carros com toldo, puxados por preguiçosas mulas. Bem insistiu com a Santa Reformadora, mas tudo em vão. Eram outros bem diferentes os desígnios de Deus. Rendido Frei João aos argumentos da Madre Teresa, houve de aceitar a sua proposta, que era a melhor: levar como fundadora a Prioresa do novo Carmelo, uma discípula predilecta da Santa Madre, Ana de Jesus, que acabava de exercer o mesmo cargo, com brilho invulgar, em Beas. E lá se foi, rumo a Alhambra de Granada, embora um pouco desapontado, o santo Frei João da Cruz.
Antes de partir, trocaram impressões, conversaram à vontade, abriram-se estas duas almas contemplativas em místicas confidências. Santa Teresa falou a Frei João do seu “Castelo Interior”, das sete “Moradas” por onde vai passando progressivamente a alma até chegar à união com Deus; e Frei João, por sua vez, disse à Santa Reformadora alguma coisa da mística ascensão ao Monte Carmelo, do “Cântico Espiritual”, cujo esboço já trazia em mente e queria escrever a pedido das Descalças, para direcção dos frades e das freiras da Ordem.


Era esta a primeira vez que se encontravam os Santos Reformadores depois da evasão milagrosa de Frei João do cárcere de Toledo, e ambos os santos palpitavam ser aquela a derradeira que se veriam sobre a terra... “Adeus, até ao Céu”, dizia a Madre Teresa a Frei João, cravando os olhos grandes e negros na silhueta miudinha daquele frade que havia de ser o Príncipe dos Místicos e Doutor da Santa Igreja.
Adeus, Frei João, até ao Céu! A Santa Reformadora não se afastou da grade de ferro até que se esfumara por completo, na penumbra do locutório de S. José de Ávila, a pequena figura do grande Frei João da Cruz, pequeno no corpo mas gigante no espírito.
Passando por Beas em direcção a Granada, levou o P. João da Cruz as sete monjas que escolhera Santa Teresa para esta fundação. Chegaram todos, Frei João e mais o seu companheiro de viagem, Frei Pedro dos Anjos, a Madre Ana de Jesus e as religiosas, no dia 19 de Janeiro de 1582, rezando-se a primeira missa e tomando-se posse da fundação aos 21 dias do mesmo mês e ano.
Ao princípio, mostrou-se o Sr. Arcebispo um tanto ou quanto contrário à ideia do novo Carmelo, mas, afinal, amedrontado por um raio que lhe caíra no paço, resolveu logo assinar o respectivo documento e conceder a licença.


Durante sete meses viveram as Descalças em casa da D. Ana de Peñalosa, benfeitora da Ordem, onde passaram muitos trabalhos até que conseguiram alugar outra casa melhor.
S. João da Cruz aparece sempre como o amparo providencial deste Carmelo, tanto no espiritual como no temporal. Nomeado Prior do Convento de Carmelitas Descalços de Granada e confessor do Carmelo, dizem os Anais daquele mosteiro que repartia frequentemente com as freiras o pão e o peixe dos frades. A Prioresa, Ana de Jesus e Beatriz de S. Miguel, religiosa desta casa, escreveram lindas e documentadas relações da fundação deste Carmelo, preparada por Santa Teresa mas realizada por S. João da Cruz.


Volvidos alguns meses sobre a inauguração deste mosteiro, endereçou a Santa Madre à Prioresa uma carta notável, das mais preciosas do seu epistolário, em que a repreende maternal mas energicamente por algumas pequenas incorrecções cometidas na fundação daquele mosteiro e no governo da comunidade. Parece mesmo, diz um ilustre biógrafo da Santa Madre, uma autêntica catilinária contra a Superiora do Carmelo de Granada. Censura-lhe a falta de perfeição na obediência, a importância demasiada que ligava aos pontos de honra, o espírito de corpo ou de partido que, um dia, podia vir a aparecer no seio da Comunidade...
Nesta carta que, por humildade e dedicação à Madre Teresa, guardou até à morte a Ven. Ana de Jesus, como jóia num escrínio de ouro, dizia-lhe a Santa Reformadora: “Por amor de Deus peço a V. R. repare bem que está a formar almas para esposas do Crucificado; é preciso que as crucifique em não terem vontade própria e não permita que se deixem enlear em ninharias. Olhe que isto é começar um novo reino e que V. R., bem como as outras irmãs, são mais obrigadas a proceder como varões esforçados do que como mulherzinhas”.
Está aqui retratada a Madre Teresa: mulher sobremaneira amável, enriquecida com todas as prendas próprias do sexo, mas enérgica, muito enérgica, duma energia indomável. O Carmelo de Granada, que conserva parte do autógrafo desta longa carta de Santa Teresa, é ainda hoje dos mais florescentes da Península, donde têm saído ilustres Carmelitas para outras fundações.


*

Conquanto Santa Teresa estivesse quase com um pé na cova, por andar muito doente, extenuada, com febre e uma grande dor de garganta, resolveu cumprir o que tinha prometido: ir ela própria a Burgos inaugurar o mosteiro das Descalças, que se pretendia fundar, como era desejo do P. Provincial, Frei Jerónimo Graciano. “O fim coroa obra”, costuma dizer-se; e é mesmo assim.
A fundação do Carmelo de Burgos é bem um fecho de diamante da longa série de fundações teresianas. É a última, a mais dura, sem dúvida, se excluirmos as de Ávila e Sevilha; dura, porque os próprios elementos da natureza e o demónio se conjugaram para a impedirem. Quis acompanhar a Madre Teresa nos trabalhos desta memorável fundação o Superior Provincial que levou consigo dois frades descalços: o P. Frei Pedro da Purificação, homem douto e inteligente, e mais um irmão leigo.
Tudo a postos, partira de Ávila para Burgos a Madre Teresa acompanhada de cinco religiosas, a Beata Ana de S. Bartolomeu e a sua sobrinha, Teresinha, no dia 2 de Janeiro de 1582, via Medina del Campo, onde já se encontrava dois dias depois.
Os caminhos estavam intransitáveis, transformados num autêntico lamaçal pelas contínuas chuvas, e foi isto o que deu azo à peripécia mais digna de registo desta longa e memorável jornada: os carros – conventos ambulantes – em que iam Santa Teresa e suas filhas, ora estavam em risco de ir água abaixo na enxurrada, por causa das grandes cheias dos rios, ora se afundavam nos lamaçais, designadamente no sítio chamado “Los Pontones”, ao pé de Burgos.


“Aquilo era um mundo de água, escreve Santa Teresa, sem caminho nem barco”75. Um dia, a corrente do Arlanzón era tão forte que as monjas, cheias de medo, recusaram-se a vadear o rio caudaloso sem primeiro se confessarem...


Vencido o perigo, toca a rir a bandeiras despregadas. Nos lances perigosos era sempre a Madre Teresa a primeira a afrontá-los, senhora dos seus nervos. Nesta viagem tão acidentada de Ávila a Burgos, no pino do inverno, diz Santa Teresa que foi grande o conforto, a serenidade e a boa disposição de espírito do P. Jerónimo Graciano, chefe da caravana.


Dia 26 de Janeiro de 1582. O sol brilha de quando em quando entre nuvens negras ameaçadoras de água e saraiva. Depois de terem apanhado bastantes sustos e não poucas molhadelas, chegam os nossos peregrinos, ao fim da tarde, à cidade do Arlanzón.
Primeiro que tudo, secundando os desejos do P. Graciano, vão todos, inclusive Santa Teresa, ajoelhar aos pés do Santo Crucifixo de Burgos venerado na Igreja dos Agostinhos.
Contava a Santa Reformadora inaugurar a fundação no dia seguinte, mas a verdade é que a Divina Providência tinha determinado outra coisa. A Santa Reformadora esgotaria o cálice de amargura antes de conseguir realizar a sonhada fundação burgense, que seria a última. E quem ofereceu a Santa Teresa esse cálice a transbordar foi o Arcebispo de Burgos, D. Cristóvão Vela, que se recusou terminantemente a outorgar a licença prometida, mandando dizer a Santa Teresa que voltasse com as suas monjas para Ávila pelo mesmo caminho.


Bonitos estavam os caminhos, as pontes e as estradas! Que impressão desagradável fariam estas palavras do Prelado no ânimo da Santa Madre e de toda a sua comitiva! Parece que se recusava a conceder a licença para a inauguração do Carmelo, em primeiro lugar, porque já havia muitos mosteiros em Burgos e, além disso, porque entendia não dever dar-lha enquanto as Descalças não tivessem casa própria e rendas para se sustentarem.
As monjas recolheram então a casa de D. Catarina de Tolosa, benfeitora insigne da Ordem, senhora viúva, que dera quatro filhas ao Carmelo. O P. Graciano e seus companheiros foram hóspedes do Dr. Pedro Manso, Cónego Magistral da Sé Metropolitana de Burgos, confessor de Santa Teresa durante a sua estadia nesta cidade e que depois chegou a ser sagrado Bispo de Calahorra. Foi este insigne prelado que proferiu, em determinada ocasião, estas palavras sobre Santa Teresa: “Mais queria arguir com todos os teólogos do mundo do que com a Madre Teresa”.


Ora, ao ver-se a Santa Reformadora em Burgos, com poucas esperanças de conseguir fundar o seu mosteiro, lançou mão de toda a sua política e diplomacia, que era muita. Tratava muito bem, com grande delicadeza, o Sr. Arcebispo, quando ia visitar as Descalças, e escreveu ao Sr. Bispo de Palência para ele interceder junto do Arcebispo burgense, D. Cristóvão, mas ele não se rendia... A amizade entre os dois Prelados parece que começou a esfriar, por D. Álvaro ser todo da Madre Teresa e da sua obra, e ter dito à Santa Reformadora que o seu amigo não deixaria de autorizar a fundação.
O P. Provincial, Frei Jerónimo Graciano, pregador de grandes recursos e com nome feito na Espanha, tinha de ir fazer sermões quaresmais a Valladolid e não queria deixar as Descalças, suas súbditas sem destino. Partiu e voltou a Burgos depois de feita a pregação quaresmal... e o Carmelo não estava ainda fundado! Trocavam-se cartas continuamente sobre o assunto, entre D. Álvaro e D. Cristóvão, mas o Arcebispo não queria dar o braço a torcer, firme no seu ponto de vista.
Só Deus sabe quanto sofreu moralmente Santa Teresa com estas delongas. É que Deus andava a purificá-la, a dar os últimos retoques à estátua primorosa da sua alma de eleição e servia-se, para tanto, do Seu representante na província eclesiástica de Burgos.


Finalmente, volvidos três meses, assegurando um dia o Dr. Manso ao Sr. Arcebispo que as Descalças já tinham arranjado algumas rendas, dignou-se conceder a almejada licença para a inauguração do Carmelo na sua própria cidade episcopal. “Até que enfim” – exclamou a Madre Teresa ao saber da boa nova. – “A luta dos bons é sempre a pior”.
Concedida a licença, rezou a primeira Missa o Dr. Manso, com a assistência do próprio Sr. Arcebispo, tomando-se posse da casa e inaugurando-se o novo Carmelo aos 19 dias de Abril de 1582, domingo de Pascoela.
Não se pode fazer uma ideia da alegria das Descalças naquele dia, ao verem inaugurado o seu mosteiro e triunfante a Santa Reformadora. Se olharmos bem, veremos que não podia ser de outra forma, porque lá andava Deus Nosso Senhor a aperfeiçoar a Sua obra.


No dia seguinte ao da inauguração do mosteiro, conta- nos Teresinha, sobrinha da Madre Teresa, tomou o hábito de Descalça uma das filhas de D. Catarina de Tolosa, e o próprio Sr. Arcebispo quis presidir à cerimónia e fazer o sermão, e disse do alto do púlpito que se arrependia de ter demorado tanto tempo sem motivo a concessão da licença para a fundação deste mosteiro, fazendo sofrer a Madre Teresa, que já era santa... O mesmo diz a Beata Ana de S. Bartolomeu, acrescentando que fez o sermão com tantas lágrimas e humildade que punha devoção no ânimo dos fiéis.
Dias depois da inauguração do Carmelo de Santa Ana, tendo surgido algumas dificuldades quanto à renda que lhes doara D. Catarina de Tolosa mediante escritura, de acordo com o P. Provincial e a Santa Reformadora, renunciaram as Descalças de Burgos, perante o notário, à posse desses haveres, preferindo viver e morrer pobres como Jesus. É que Deus nunca falta com o pão de cada dia a seus servos, fiéis ao seu serviço. Feito isto, despediram-se o P. Graciano e a Santa Madre, partindo o Provincial para Sória e outros conventos sujeitos à sua jurisdição.
Era esta a derradeira vez que se encontravam neste mundo... mas talvez nem um nem outro o presumisse, porque Santa Teresa tinha melhorado muito dos seus achaques em Burgos. Tanto melhor para eles, porque estes dois corações amavam-se muito em Cristo.


No dia 27 de Julho, celebrada a festa da Padroeira do Carmelo, Santa Ana, saíra a Madre Teresa de Burgos para Palência, em companhia de sua sobrinha, Teresinha, a quem queria dar a profissão em Ávila, e a Beata Ana de S. Bartolomeu, sua fiel companheira. A fundação do Carmelo de Burgos fica sendo o último elo da corrente preciosa das suas fundações, e uma das pérolas mais preciosas da sua coroa de Santa e de Reformadora.

[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Gotinhas reunidas em casa de Betânia

As Gotinhas Coordenadoras juntaram-se este fim-de-semana para avaliar as etapas percorridas e preparar as próximas. Fomos mais uma vez muito bem recebidos em casa da Dona Sílvia, mãe da Sónia e Tuxana, ou como Frei João gosta de chamar "Casa de Betânia". A reunião estava programada para durar toda a manhã, mas como sempre, opinião daqui, sugestão d'acolá, depois do almoço os trabalhos tiveram que continuar.
Como amigos fortes de Deus, graças ao dom de cada um, as próximas carminhadas e clarminhadas prometem, há surpresas para Perigris e Acampakis... e muita acção para o EntreFitas.
Por isso: Vamos ao CaRminho!
Bem, agora só falta mesmo a foto que a Sofia e a Sónia ficaram de mandar.

XVII CARMINHADA - VILA PRAIA DE ÂNCORA - 19/FEV'11





Carmelo Joven

sábado, 12 de fevereiro de 2011

DOMINGO VI DO TEMPO COMUM


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos já cometeu adultério com ela no seu coração. Ouvistes ainda que foi dito aos antigos: ‘Não faltarás ao que tiveres jurado, mas cumprirás diante do Senhor o que juraste’. Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum. A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno». [Mt 5, 20-22a.27-28.33-34a.37]

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

XVII CARMINHADA - VILA PRAIA DE ÂNCORA - 19/FEV'11




CONFIRMAÇÃO

A confirmação de participação na Carminhada deverá ser efectuada até ao dia 11 de Fevereiro para:

A história continua...Santa Teresa de Jesus, cap XV

XV

A TORMENTA

Como não há rosas sem espinhos, à natural alegria pela fundação dos mosteiros de Beas, Sevilha e Caravaca que a Santa Madre acabava de fazer sem dinheiro algum e remando mesmo contra a maré, juntara Deus Nosso Senhor não poucos dissabores e contratempos. Não se admirava disto Santa Teresa, porque sabia muito bem ser a vida humana um tecido de tristezas e alegrias.
Meses antes da inauguração do Carmelo de Sevilha, soara a hora da perseguição para a Santa Reformadora e a sua obra. Um belo dia chegou ao conhecimento da Madre Teresa uma notícia assaz desagradável, que explodira como uma bomba entre os seus filhos e filhas, que já formavam legião. Já não eram apenas malfadados boatos que corriam nos conventos das Descalças ou entre os seus amigos, tanto eclesiásticos como seculares; era já uma realidade. O Capítulo Geral celebrado em Piacenza, Itália, em Junho de 1575, sob a presidência do Superior Geral, Frei João Baptista Rubeo que até então se tinha mostrado favorável à Madre Teresa, pronunciara-se decididamente contra a Reforma e a Reformadora. Com toda a sua autoridade decretou a supressão dos conventos de Descalças fundados na Andaluzia, e que a Madre Teresa recolhesse a um dos mosteiros de Castela donde não mais sairia para fundar sem ordem superior, considerando-se, naquela casa, como prisioneira.
Obediente como era, a Reformadora quis imediatamente pôr-se a caminho desde Toledo, não atendendo ao seu precário estado de saúde e contínuas enfermidades; mas o P. Jerónimo Graciano, que já era Visitador Apostólico dos Descalços e Calçados na Andaluzia, não a deixou partir, sem primeiro concluir e consolidar a fundação do mosteiro de Sevilha. Poucos dias depois da inauguração, empreendera viagem a Madre Teresa para a cidade imperial, acompanhada da sua sobrinha, Teresinha, filha de seu irmão, D. Lourenço de Cepeda, recentemente chegado da América. Santa Teresa diz alguma coisa do grande gozo que experimentou, ao ver-se assim perseguida e encarcerada no mosteiro de Toledo. Até chegava a esfregar as mãos de contente, acrescenta o P. Graciano, seu Superior e confessor, como se lhe tivesse tocado a sorte grande, o que muito a mim me confundia, quando ia desabafar com ela. “Ou sofrer ou morrer”, eram nesses dias as suas palavras. “Ou sofrer cá na terra por Deus ou, então, ir vê-Lo lá no Céu”.
Mas, afinal, quem fez desabar este temporal sobre a Madre Teresa e os Descalços?
Informações de pessoas apaixonadas, responde ela própria, desculpando todos, especialmente o Sr. Núncio de Sua Santidade e os Calçados. Esta, é a razão por que devem ser desculpados na sua luta contra a Reformadora e os seus filhos: os Calçados entendiam que a Reforma não vingaria, e assim a Ordem do Carmo faria fraca figura na Igreja; por isso queriam acabar com ela, encarcerando a Reformadora e desterrando os Descalços mais notáveis, S. João da Cruz, P. Ambrósio Mariano, P. Jerónimo Graciano, Fr. António de Jesus, etc.
“Era Deus Quem assina o permitia”, escreve Santa Teresa. As águias durante a tempestade, levantando voo, vão pousar sobre os cumes mais altos das montanhas, acima mesmo, por vezes, das nuvens e, assim, dificilmente são apanhadas. Foi o que fez Santa Teresa no isolamento de Toledo: entregou-se mais do que nunca à oração, à vida interior, à vida escondida, com Cristo em Deus, no dizer de S. Paulo e deste modo conseguiu vencer e sair santificada da tormenta. Mas, criatura mortal sujeita à miséria humana, de tudo precisou para lutar e vencer, sem faltar à caridade. Os Calçados, conta-nos a Prioresa de Sevilha Maria de S. José, chegaram a instaurar um processo contra a Santa, Reformadora... Ao saber do que a acusavam, proferira com calma e graça estas palavras que damos na língua em que foram ditas: “Ya que han de mentir, más vale que mientan de suerte que nadie los crea”.
Santa Teresa, perseguida e condenada pelo Capítulo Geral da sua Ordem, considerada rebelde e privada dos seus auxiliares mais fiéis, (e entre estes de S. João da Cruz), também havido como revolucionário e cúmplice da Santa, não perdia um só momento a tranquilidade, a alegria natural e o agrado no que dizia e escrevia. Achacada e sofrendo sempre por causa das suas mazelas, caminhando rapidamente para o termo da vida, penitenciando-se sempre, e visitada por todas as provações, ela não desalentava. Sorria, escrevia cartas para toda a parte e escrevia em poesia suave e delicadamente.
Suas filhas escreviam-lhe no mesmo sentido, consolavam-na e pediam-lhe conselhos e inspirações. Também discursavam em verso, enviando-lhe as suas trovas. A Santa Madre lia-as, coleccionava-as e corrigia-as dando avisos em poesia assim como os prestava em assuntos de meditação e oração.
Um dia escrevia ela a seu irmão Lourenço de Cepeda: “Mandaram-me aqui, a Toledo, onde estou, as tuas cartas, que me distraíram muito e divertiram as minhas irmãs; foram lidas no recreio. Quem te proibisse o gracejo, meu caro irmão, seria o mesmo que tirar-te a vida; mas, como é a santas a quem tu te diriges, acautelas-te menos; e, em verdade, são santas estas irmãs e não poucas vezes me causam a maior confusão. Era ontem a festa do Santíssimo Nome de Jesus e houve grande festa no mosteiro”.
*
Enquanto isto escrevia Santa Teresa e redigia as páginas preciosas dos seus livros, continuava a desabar a tormenta e falava-se dela em Piacenza, em Roma, em Madrid, não se compreendendo o sentido da sua Reforma e maculando-se a vida ilibada dos seus filhos. Foi isto o que levou a Santa Reformadora a endereçar algumas cartas, modelares no género, aos Superiores, ao Núncio Apostólico, ao Rei, defendendo a inocência dos Descalços. A verdade é o que todos queríamos se conhecesse, dizia por aqueles aziagos dias Santa Teresa, como viviam uns e outros (Calçados e Descalços).
Houve um Núncio de Sua Santidade em Madrid, a quem a Santa Madre chama “santo”, o qual, como era amigo da virtude, favorecia os Descalços. Era Monsenhor Nicolau Ormaneto. Faleceu tão pobre que o Rei teve de pagar as despesas do funeral. Veio, porém, outro, depois da morte dele – Monsenhor Filipe Sega – que parecia mesmo enviado por Deus para mortificar os Descalços. Prevenido desde Roma contra a Reforma e a Reformadora, disse em determinada ocasião que a Madre Teresa “era uma fémina inquieta e andarilha, que se desafogava em fingidos devaneios sob a capa da religião”. Assim são, por vezes, apreciados os santos neste mundo!
Posto o Rei D. Filipe ao corrente do que se passava entre Calçados e Descalços, tomara o partido destes, informado da verdade dos factos, a rogos de Santa Teresa, por sua irmã, D. Maria, Princesa de Espanha. Mandou El-Rei que não resolvesse os assuntos dos Descalços só o Núncio, mas que fosse auxiliado por quatro homens prudentes, que formavam o que nós chamaríamos hoje o Conselho da Nunciatura. Foi isto o que valeu à Reforma de Santa Teresa.
Os nomes dos consultores são os seguintes: P. Luís Manrique, Capelão-mor do Rei; P. Frei Lourenço de Villavicencio, O. S. A.; P. Frei Hernando del Castillo e Frei Pedro Hernandez, estes dois últimos da Ordem de S. Domingos. A primeira providência que tomaram estes homens prudentes foi tirar os Descalços da jurisdição dos Provinciais Calçados, sujeitando-os unicamente ao governo do P. Ângelo de Salazar, que já conhecemos, homem sensato, inteligente e favorável à Reforma. Foi assim que começou a amainar a tormenta e tornou a brilhar o sol, dissipando as nuvens negras da perseguição gratuita a Santa Teresa e à sua obra.
Queremos fazer constar aqui que o Núncio Sega, melhor informado e conhecendo a realidade dos factos, favoreceu e ajudou a Santa Madre nas suas últimas fundações. Por outras palavras: desfeitos os erros, começou o triunfo da verdade e Santa Teresa de Jesus, mais uma vez triunfante, abandonou o mosteiro de Toledo para ir pôr a cúpula ao edifício magnífico das suas fundações.


[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Como chegar a Vila Praia de Âncora


VILA PRAIA DE ÂNCORA

 Indicações:
Sair no acesso da A28 a Vila Praia de Âncora;
Ao chegar à saída, virar à esquerda na rotunda;
Na rotunda seguinte, virar à esquerda;
Seguir em frente até chegar a este edifício (Central de Camionagem):

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

XVII CARMINHADA - VILA PRAIA DE ÂNCORA - 19/FEV'11


«DEUS NÃO DEIXA SEM PRÉMIO A QUEM SE METE NESTES TRABALHOS»
(Stª Teresa de Jesus, Vida 11,11)

VILA PRAIA DE ÂNCORA
19/FEV'11

ASPECTOS A TER EM ATENÇÃO:

* As Carminhadas são abertas a todos os jovens;
* Acolhimento às 9h00, na Capela de Nossa Senhora da Bonança (Vila Praia de Âncora);

 A Carminhada é de curta/média distância, e termina após a Eucaristia;
* Eucaristia às 16h30;
* O almoço será partilhado, devendo cada participante trazer de casa.
* Procura levar calçado confortável e já usado; roupa conveniente (um impermeável, guarda-chuva…);
* Haverá um carro-vassoura para transporte de mochilas e dos mais cansados, mas a maior honra dos condutores é chegar sem passageiros;
* Carminha ligeiro de equipagem: Nem tudo é necessário para carminhar!* Quem já participou noutras Carminhadas e tem a faixa “Levamos o Carmo (jovem) no Coração”, deve levá-la.
CONFIRMAÇÃO
A confirmação de participação na Carminhada deverá ser efectuada até ao dia 11 de Fevereiro para:
carmojovem@gmail.com

sábado, 5 de fevereiro de 2011

DOMINGO V DO TEMPO COMUM


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus». [Mt 5, 13-16]

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Santa Teresa de Jesus, história continua...

XIV

SANTA TERESA NA ANDALUZIA

Terra de luz e de flores é chamada a antiga Bética. A Giralda de Sevilha e a Alhambra de Granada, a mais linda das suas cidades, são bem o símbolo da terra, cujo anil do céu lembra o manto da Imaculada. Conquanto a Santa Madre Teresa preferisse fundar conventos em Castela, como não tinha outra vontade senão a dos Superiores e estes queriam que a Reforma da Ordem do Carmo se expandisse também por terras da Andaluzia, lá partiu Teresa de Jesus para aquelas regiões iluminadas sempre por um sol resplandecente e regadas pelas mansas águas do Guadalquivir, a fim de fundar novos Carmelos, que, com orações e penitências, alcançassem o triunfo para a Santa Igreja.
A primeira fundação que lá fez foi, na ordem cronológica, a da rica e progressiva vila de Beas, recanto florido da Andaluzia. Hoje, em Espanha, esta vila não tem tanta importância como nos tempos idos em que foi visitada por Santa Teresa.
De novo é preciso aprontar carros com toldo para o transporte da Santa Madre e das suas freiras. Como de costume, serão acompanhadas pelo dedicado capelão, P. Julião de Ávila, e por criados, fiéis servidores da Madre Teresa. Com esta mulher extraordinária, lhana, franca, amável, que anda cheia de Deus, estes homens iriam a toda a parte, até aos confins do mundo.
Tudo pronto, como quando da saída de Ávila para a fundação de Medina, e feita a provisão de água benta que não podia faltar, diz a Ven. Ana de Jesus, nas viagens da Santa Madre, para se aproveitar, assim, facilmente, o fruto do sangue de Jesus, começam os carros a rodar lentamente pela estrada que vai de Salamanca a Beas. Vencidas algumas jornadas, pousando em hospedarias e estalagens onde Santa Teresa e suas Descalças eram tratadas com a decência e respeito que a sua profissão religiosa exigia, chegam a Beas.
Talvez em parte nenhuma se tenha feito a Santa Teresa uma recepção tão brilhante e espontânea como nesta vila. Eram os cumprimentos de boas vindas que a bela Andaluzia apresentava à Santa Reformadora. Repique de sinos, oferta de flores, música, cortejo de crianças, rapazes e raparigas do lugar a cantarem melodias andaluzas. Ferrinhos e violas enfeitadas com cravos de variegadas cores andavam, à chegada da Madre Teresa, nas mãos de muitos, enquanto gente nova, atrás dos carros, rodopiava, castigando os pés na estrada. Aquele povo queria dizer assim a Santa Teresa que já se encontrava dentro dos domínios da Andaluzia, terra de luz, de flores, de alegria... A Santa Madre, muito reconhecida, acenava de dentro do carro com as mãos, agradecendo. Tomou-se posse da casa e inaugurou-se a fundação no dia do Apóstolo S. Matias, 24 de Fevereiro de 1575.
Demorou-se a Santa Madre nesta aprazível vila andaluza três meses, sendo objecto das atenções de toda a gente.
Foi aqui, em Beas, que Santa Teresa recebeu a visita do P. Jerónimo Graciano, primeiro Superior Provincial dos Carmelitas Descalços (1545-1616), que não conhecia pessoalmente, conquanto já tivesse trocado algumas cartas com ele. Ficou a Santa Reformadora tão presa das boas maneiras, talento, espírito religioso e prudência deste ilustre carmelita que, desde então, o tomou por seu principal director espiritual e quis que fosse o seu melhor braço de acção na sua obra de fundar mosteiros. De ninguém, porventura, fez Santa Teresa um elogio tão rasgado como deste Padre, que regista na sua vida verdadeiros feitos heróicos, e talvez a ninguém se dedicou mais. Foi Nossa Senhora que o chamou para esta sua Ordem primitiva, quando mais brilhava nas aulas da Universidade de Alcalá, diz Santa Teresa.
Tudo arranjado na casa de Beas e organizada a vida carmelita, queria voltar a Reformadora para Castela, mas o homem põe e Deus dispõe... A visita do Padre Frei Jerónimo Graciano tinha por objecto principal levar consigo a Santa Madre para Sevilha, onde se pretendia fundar um “palomarcito de la Virgen”. Santa Teresa, filha da obediência, teve de se render aos desejos do Superior e seguir de bom grado para a capital da Andaluzia por ser essa a vontade do Senhor manifestada pelo seu representante.
Ficou no seu lugar, em Beas, como Prioresa da comunidade, a Ven. Ana de Jesus, uma das mais ilustres Descalças, tanto pelos seus grandes dotes de inteligência e carácter, como pela sua eminente santidade. Lembra-nos esta célebre carmelita a carta que escrevera um dia a Santa Teresa, lamentando-se da falta de confessores que atendessem às religiosas. A Santa Reformadora deu-lhe esta resposta: Não sei como V. R. se queixa da escassez de directores espirituais tendo aí tão perto o santo Frei João da Cruz, homem celestial e divino. Nunca ninguém fez tal elogio dum mortal, ainda que fosse feito das raízes das árvores, como dizia a própria Santa Teresa dum outro santo, Frei Pedro de Alcântara64.
Corria o ano de 1574. A 18 de Maio partira Santa Teresa para Sevilha, guiada pela mão amiga da obediência e acompanhada de seis freiras, o Capelão, Padre Julião de Ávila, e um frade carmelita descalço, Frei Gregório Nacianceno. A Madre ia adoentada, com um bocado de febre e bastantes dores de cabeça, mas, como a obediência dá forças, segundo lhe tinha dito Nosso Senhor, não hesitou em pôr-se a caminho.
Oito dias consecutivos, oito longas jornadas naqueles pesados carros com toldo, a rodarem preguiçosamente por estradas envoltas em nuvens de poeira... Saíram de Beas a 18 de Maio e só chegaram a Sevilha em 26, ao cair da tarde. Não se pode descrever o que sofreu a Santa Reformadora nestas acidentadas e intermináveis jornadas. O calor, que já aperta na Andaluzia nesta altura do ano, era um martírio. Diz Santa Teresa que entrar nos carros parecia como entrar no Purgatório66. É que as Descalças, animadas do espírito de penitência, faziam aquelas viagens enfronhadas nos seus hábitos de grossa estamenha, vestidas com as suas capas brancas e velados os rostos com véus negros. Conventos ambulantes do século XVI, chamou alguém aos carros em que a Santa Madre Teresa fazia suas excursões fundacionais.
As peripécias desta memorável viagem a Sevilha não têm conta. Dir-se-ia que Deus Nosso Senhor quis pôr à prova as virtudes e a boa disposição de ânimo desta grande mulher que crescia e avultava mais no meio das dificuldades da vida. Enumera-as, uma por uma, com carradas de graça, no livro das Fundações: a romaria do Divino Espírito Santo, nos arredores de Córdova, tendo de passar os carros com os seus toldos levantados por entre a multidão do povo alegre e curioso, o que causou tamanho alvoroço que lembrava uma tourada; a doença que a atacou durante a viagem, tendo de recolher a uma estalagem à beira da estrada, onde a cama parecia feita de pedras agudas; a proibição de passarem os carros pela ponte sobre o Guadalquivir; a necessidade de serrar o eixo dos carros, apressadamente, logo que chegou a licença do regedor; o risco de se afundarem no rio carros e cavalos, frades e freiras, capelães e criados, ao vadearem numa barca o rio, enquanto as monjas aflitas rezavam e os homens da barca faziam grande alarido; etc., etc.
Na verdade, desta vez a sorte não bafejou as fundadoras. Assim, extenuada pelas fadigas e canseiras da viagem, sedenta, com bastante febre, chegou Santa Teresa com a sua comitiva à bela capital da Andaluzia, ao lusco-fusco do dia 26 de Maio. Ao longe, do carro, via a Santa Madre a formosa urbe como uma grande colmeia humana, luxuosas moradias e casas humildes de estilo oriental, janelas floridas, com grades de ferro muitas delas, ruas estreitas e algumas, as mais largas, arborizadas com laranjeiras, limoeiros e amendoeiras.
Sobranceira ao casario branco e mimoso, a Giralda de Sevilha, esguia e vigilante, em atitude de quem guarda um bando de pombas que pousam, à hora da sesta, nas margens exuberantes do Guadalquivir. Assim aparece aos olhos maravilhados de Santa Teresa a encantadora capital da Bética. O calor, mais forte do que em Castela, é já de abrasar em meados de Maio, ainda que temperado pelas brisas deliciosas do Bétis, cantado em estrofes sublimes por Frei Luís de León.
Em Sevilha o ambiente é aprazível. A gente traz no rosto a alegria que lhe vai na alma; nos lábios o sorriso, a chalaça, o remoque espirituoso; e na lapela, um cravo, símbolo do sonho, da ilusão...
A sorte, porém, não foi muito propícia a Santa Teresa, nos primeiros dias, nesta terra de luz e de flores. Deus, que a queria santificar, reservava-lhe aqui alguns bocados amargos. Já havia tido alguns palpites a tal respeito; por isso receava vir. Logo no dia da chegada, recolheu a Santa Madre com suas monjas às águas-furtadas duma casa velha e desmantelada, onde nem leito tinham para dormir. Houve um dia que até água potável lhes faltou para mitigar a sede torturante.
Uma cidade tão opulenta, empório da riqueza e do comércio com a América recentemente descoberta, e as Descalças, que o povo sevilhano queria conhecer, a viverem na pobreza mais extrema: foi isto o que chegou a compreender a Santa Madre.
Um ano levou Santa Teresa sem poder obter do Arcebispo, D. Cristóvão de Rojas e Sandoval, licença para a fundação e sem arranjar casa em condições. Todo este tempo passou a Madre a vencer dificuldades, limar asperezas, procurar aqui e além, por meio de cartas, apoio para a sua obra. De quando em quando o Sr. Arcebispo, grande servo de Deus, mandava-lhes o seu secretário que lhes celebrava a Missa com paramentos oferecidos pelo Prior de las Cuevas, ou dos monges Cartuxos, mas mostrava-se sempre esquivo em conceder-lhe a licença canónica para a fundação. Queria o Prelado um mosteiro com rendas, enquanto a Reformadora, fiel ao voto solene de pobreza que fizera, não admitia rendas nenhumas numa cidade tão rica e populosa.
Porém, o ponto principal da questão parece que não era esse. Diz Maria de S. José, irmã do P. Jerónimo Graciano e uma das religiosas mais notáveis desta casa, no seu precioso livro “Recreaciones de Anastasio”, que o Arcebispo preferia que a Santa Madre se dedicasse a reformar os conventos de freiras existentes em Sevilha, pondo de parte a fundação dum novo convento. Seja como for, o que é certo é que experimentou bem a paciência da Santa Teresa, protelando meses e meses a almejada licença, a ponto da Reformadora chegar a pensar em ir-se embora para Castela sem fazer a fundação, o que não realizou em atenção ao P. Jerónimo Graciano, iniciador do Carmelo de Sevilha. Com excepção da fundação do seu primeiro mosteiro de S. José, em Ávila, foi esta de Sevilha a que mais lhe custou, atesta a própria Santa Teresa.
Mas aqui, como em Ávila, acabou por triunfar a Reformadora, porque o Arcebispo teve, por fim, de se render às suas razões e rogos, e quis ele próprio levar pessoalmente, em procissão, o Santíssimo Sacramento duma paróquia vizinha até à casa nova, que era grande, arejada e cheia de luz, com o seu pátio andaluz entre laranjeiras e limoeiros. Realizou-se a imponente cerimónia em 3 de Junho de 1576, participando, nesse dia, a cidade em peso da alegria das Descalças.
Reza a tradição que, depois da procissão, a Santa Madre pediu, de joelhos, a bênção ao Arcebispo, e que este, por sua vez, com a admiração de todo o povo, caindo de joelhos aos pés de Santa Teresa, lhe suplicou que lhe desse a sua bênção, o que a Madre teve de fazer obrigada pela obediência. Vemos aqui a santidade de Teresa de Jesus reconhecida já pelos mais ilustres prelados da Igreja na Espanha do século XVI.
*
Neste mesmo ano de 1576 fundou-se também, no dia 1 de Janeiro, o mosteiro de S. José, na cidade de Caravaca, província de Múrcia; mas, como a Santa Reformadora estava tão longe... em Sevilha, não foi pessoalmente inaugurá-lo. Delegou, porém, poderes no capelão, P. Julião de Ávila, que, acompanhado dum cavalheiro muito servo de Deus chamado António Gaitan foi visitar o local e preparar tudo para a fundação em projecto.
Cumprida a sua missão, seguiram eles para as suas terras, pois a Santa Madre já podia contar com frades Descalços para a acompanharem nestas fundações.
Para tomar posse, em Caravaca, do mosteiro e organizar a vida carmelita reformada, nomeou para Prioresa da comunidade uma religiosa de muito valor, tida em grande conta pela Reformadora e por S. João da Cruz, a Madre Ana de Santo Alberto, oriunda do Carmelo de Malagón. Nesta casa aguardavam a ordem de partir as freiras escolhidas para a nova fundação. Tudo pronto em Caravaca, seguiram com a Superiora, acompanhadas de dois carmelitas. A História da Ordem arquivou seus nomes; eram Frei Ambrósio de S. Pedro e Frei Miguel da Coluna.
Antes de terminar as notas desta fundação teresiana, vale bem a pena registar-se aqui a prova de amor e dedicação à sua Ordem que Santa Teresa deu por ocasião da inauguração deste novo “palomarcito de la Virgen”.
Como a cidade de Caravaca estava, no tempo a que nos referimos, sob a jurisdição eclesiástica do Conselho das Ordens Militares, arranjou-se licença para se fundar o convento das Descalças com dependência do Comendador da Ordem de S. Tiago. A Santa Madre, filha extremosa da sua Ordem, não quis aceitar a licença nestas condições e exigiu que o convento ficasse sujeito aos Superiores do Carmo. Neste sentido, as fundadoras do mosteiro tiveram de pedir nova licença e a própria Reformadora escreveu sobre isso uma carta memorável ao Rei da Espanha, D. Filipe II, que lhe enviou a tal licença datada em 9 de Junho de 1575.
Santa Teresa gostava das coisas bem feitas.

[Jaime Gil Diez, Santa Teresa, Edições Carmelo]