quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quinta-feira Santa



AQUELA FONTE

Bem sei a fonte que mana e corre
embora seja noite

Aquela eterna fonte não a vê ninguém
e bem sei onde é e donde vem
embora seja noite

Não sei a fonte dela, que não há,
mas sei que toda a fonte vem de lá
embora seja noite

Não pode haver, eu sei, coisa tão bela
e céus e terra beleza bebem dela
embora seja noite

Porque não pode o fundo ali achar
eu sei que ninguém a pode atravessar
embora seja noite

A claridade sua não escurece
e sei que toda a luz dela amanhece
embora seja noite

Tão caudalosas são suas correntes
que regam céus, infernos e as gentes
embora seja noite

E desta fonte nasce uma corrente
e bem sei eu que é forte e omnipotente
embora seja noite

E das duas a corrente que procede
sei que nenhuma delas a precede
embora seja noite

E esta eterna fonte está escondida
em este vivo pão a dar-nos vida
embora seja noite

Aqui está a chamar as criaturas
que bebem desta água, e às escuras,
porque é de noite

Esta viva fonte que desejo,
em este pão de vida, aí a vejo
embora à noite.


São João da Cruz